Mãe: figura aristocrática na família católica
02 jan 2012 1 Comentário
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Introdução
Para iniciarmos este artigo é preciso desde já esclarecer o que queremos dizer por aristocracia, para daí entendermos porque a mãe representa este papel dentro do lar.
A palavra aristocracia é formada por duas palavras gregas: áristos, que quer dizer ‘melhor’; e krátos, que significa ‘poder, governo’. Portanto, o significado etimológico de aristocracia pode ser dado como ‘governo dos melhores’.
Este sentido básico inspira muitos outros, e, a partir dele, podemos formar conceitos interessantes para explicar a vida de família.
Na filosofia, a ideia de aristocracia, segundo o Cardeal Angel Herrera Oria, “leva entranhada em si a ideia de perfeição, a ideia de virtude”. Assim, o aristocrata seria alguém que possuiria “hábitos virtuosos” e que almejaria a “perfeição moral e o amor ao povo”(1).
A família
De acordo com a doutrina tradicional da Igreja, a autoridade da família católica corresponde ao esposo, a quem se submetem a esposa, os filhos e os empregados da casa. A família seria, portanto, um pequeno reino em que o pai representa a figura do rei… e como se sabe, o rei deve governar com firmeza, para que sua autoridade se faça valer – do mesmo modo o pai, do contrário, nem a mãe nem muito menos os filhos se habituariam em obeceder-lhe. Claro está que firmeza não é sinônimo de tirania, e, deste modo, o pai não precisa ser somente como que um policial do lar, que aparece para corrigir as infrações às leis domésticas: o pai precisa ser firme, mostrando que os limites dados por ele serão cumpridos, mas, geralmente, deve fazer com que isto fique evidente sem a necessidade de criar uma tensão excessiva no lar, gerando um constante temor tanto na mulher quanto nos filhos. Nos momentos necessários, obviamente, o pai pode se valer de sua autoridade para corrigir os filhos rebeldes, com um tratamento mais enérgico do que o de costume.
Enfim, pelo descrito acima, percebe-se que o pai é um misto de rei, juiz, policial, tendo também o seu lado afetuoso e dedicado, que a palavra “paternal” exprime bem. Mas, carregando a autoridade, o tipo de influência e exemplo que dá aos filhos é diverso do que é dado pela mãe, figura mais afável e delicada aos olhos da prole.
A Mãe Aristocrática: mediadora e conselheira
Quem de nós nunca aprontou uma “bagunça” daquelas e acabou ficando mau visto aos olhos do pai, que – de tão bravo – decidiu dar-nos um castigo severo para aprendermos que não podíamos nos portar de tal modo? Quem de nós nunca pensou em apelar para a mãe, para que ela – com toda sua doçura e “jeito” de falar – convencesse o pai de que a lição já havia sido muito bem aprendida e por isso deveria cessar o castigo? Pois bem, este é um dos papéis aristocráticos de nossas mães.
Esta intermediação que a mãe faz entre o pai e os filhos é uma qualidade aristocrática, visto que ela vai, a partir de conselhos, conciliando a autoridade do pai com a psicologia dos filhos, de modo que a harmonia familiar vai se formando. A mãe sente até que ponto os filhos estão recebendo os “mandos” do pai, para que o jugo não seja por demais pesado e o que poderia ser uma correção acabe se transformando num problema maior. De igual modo ela sente quando o marido está insatisfeito com a postura dos filhos e vai procurando melhorá-los em alguns pontos, de modo que o pai não se desgoste da vida familiar. Por exemplo, os filhos podem ser pouco estudiosos, e então o pai começa a se indispor por sempre receber notas baixas da escola; a mãe, percebendo tal situação, deve esforçar-se para que os filhos tomem gosto pelo estudo e, com o passar do tempo, possam entregar boletins com notas melhores. Assim, o pai vê seu desejo atendido sem a necessidade de se criar um novo problema de família que poderia demandar longas conversas ou a aplicação de castigos por vezes desnecessários.
Do sentido etimológico, dado no início do texto, podemos dizer que em certo sentido a mãe participa do “governo dos melhores”, pois, apenas pelo conselho e influência pessoal consegue com que o lar alcance a ordem necessária para o bom convívio de todos. No sentido filosófico, poderíamos dizer que a mãe concorre para a “perfeição” do lar, para a prática das virtudes; do mesmo modo, ela almeja a “perfeição moral” no seu lar e tem profundo “amor ao [seu] povo” (marido e filhos).
A Mãe Aristocrática: o espírito de caridade no Lar
A mãe também representa a caridade dentro do lar: primeiro por ser aquela que olha pela necessidade dos seus e procura aliviá-las. Se um filho está doente, ela é toda atenção e sacrifícios para o retorno de sua boa saúde; se uma filha vai mau na escola, gasta seu precioso tempo revendo as lições com a pequenina, de modo que ela fixe bem o assunto; se o marido está estressado por causa dos trabalhos, ela é toda doçura e amenidade, para que o seu amado não se sobrecarregue ainda com os pequenos problemas do lar, dos quais a própria mãe muitas vezes pode se encarregar. Ela também representa a caridade porque habitualmente é quem inculca nos filhos o espírito de economia, de amor aos necessitados, ensinando-lhes o valor das coisas e como é importante rezar pelos que mais precisam de bens espirituais e materiais.
Uma outra caridade feita pela mãe, muitas vezes sem que ninguém da casa o perceba, é a administração do tempo e atenção do esposo. As vezes acontece de o marido chegar do trabalho e dedicar muita atenção a um dos filhos e passar toda a noite sem dar afeto suficiente ao outros… a mãe, neste momento, arranja um modo pelo qual o pai note a presença dos demais e se entretenha com a presença deles: seja contando algo que aconteceu com o filho mais velho na escola, seja cantando despretensiosamente com a filha mais nova alguma cantiga de que o pai tenha um gosto especial… enfim, usando sua criatividade materna em favor dos seus pequenos.
No livro do Cardeal Herrera Oria, há uma ilustração da caridade materna na pessoa da Virgem Santissima. Eis o trecho:
“C. No Evangelho aparece muito claro o contraste entre a falta de misericórdia, de caridade, de espírito aristocrático dos apóstolos na cena que comentamos (o Evangelho da multiplicação dos pães – Jo. 6,1-15) e a inefável missão aristocrática que desempenhou Maria Santíssima nas Bodas de Caná.
“a) Atenta às necessidades dos demais, Maria aproxima-se de quem pode remediá-las para as expor.
“b) E depois se aproxima do povo, representado pelos criados, para mostrar-lhes que devem ser obedientes”.
É pedir demais que as mães tenham uma presença aristocrática no Lar?
Lendo este pequeno texto, a leitora pode pensar que talvez o texto tenha dado informações demais, e que seria impossível para uma mãe dar conta de tantas “funções” ao mesmo tempo. De fato, se para cada uma destas coisas a esposa/mãe precisasse de um longo tempo de preparação ou já tivesse que fazê-las impecavelmente, sem cometer nenhum deslize. Mas, no fundo estas são coisas que toda mãe de família dedicada naturalmente aplica no seu lar. Com um pouco de boa vontade e desejo de fazer do lar um ambiente ameno e em que se respira a paz de Nosso Senhor, a mãe de família vai se dando conta destas necessidades e começa a criar, ao seu modo, estratégias eficazes para que reine em sua casa o espírito da verdadeira família católica.
Co-educação: respondendo a um questionamento
11 set 2011 4 Comentários
em Uncategorized Tags:educação, pais
Após a leitura de nosso artigo sobre a co-educação a leitora Graziela levantou a seguinte questão:
Se a Igreja é contrária a co-educação, por que ela permite que suas instituições tenham co-educação? Hoje, se você for procurar uma escola católica para colocar os seus filhos, praticamente todas tem meninos e meninas juntas (eu não conheço nenhuma que não tenham). Cite-se: as escolas que são administradas pelos jesuítas, por religiosas, pelos salesianos, etc… Onde encontramos escola católica (ou não) que seja só de meninas? Ou só de meninos? PS: Até o Colégio Militar (e dos Bombeiros) que era só para meninos há alguns anos vem aceitando meninas.
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De fato, causa certa incompreensão quando de um lado vemos o que a doutrina da Igreja diz sobre a co-educação e de outro vemos o que está acontecendo na prática na maioria das escolas católicas. Até onde pudemos investigar, apenas duas escolas católicas no Brasil se mantêm não-mista: o Colégio São Bento no Rio de Janeiro – com mais de cem anos de existência, considerada a melhor escola do Brasil e que só atende a meninos – e a Escola do Bosque no Paraná (esta relativamente recente e que atende meninos e meninas em prédios separados).
Não é fácil explicar porque a maior parte das escolas católicas foram deixando de educar do modo como a Igreja propõe, pois em cada uma delas as coisas podem ter se dado de modo diferente, mas podemos assinalar em linhas gerais alguns dos principais motivos para isto ter ocorrido (pesquisando o assunto vimos que normalmente estes pontos costumam se repetir):
1 – Pressão do Ministério da Educação, a partir da década de 70, quando foi
implantado o sistema de co-educação para as escolas. O MEC assinala que este sistema é opcional, sendo livre a adesão a ele ou não; mas na prática, na educação pública – que é diretamente administrada por este Ministério – todas as escolas se tornaram mistas. Esta mudança de orientação das escolas públicas criou uma espécie de abismo moral e educacional entre o setor público e o privado: os estudantes de escola pública tendo já uma educação moral muito laxa, onde a promiscuidade imperava, e os estudantes de escola particular católica, com a educação moral de sempre e vivendo uma separação sádia entre os sexos.
2 – Este estado de coisas fez a situação das escolas não-mistas mudar bruscamente de forma normal de educação, para uma forma muito restrita de educar às crianças e adolescentes. Sabe-se que, geralmente, quando um modelo educacional começa a sair de “moda”, os pais se sentem numa posição de desprestígio, o que costuma gerar desconfortos e receios de estar expondo os filhos a métodos ultrapassados, vistos como retrógrados.
3 – Deste desconforto, começa a surgir os anseios dos pais por escolas mais modernas, “adaptadas” à realidade atual, etc.
4 – Aliado a tudo isto entra o componente de crise moral das famílias e crise da Igreja. Se referindo a esta crise, o Papa João Paulo II disse: “É necessário admitir realisticamente e com profunda e sentida sensibilidade que os cristãos hoje, em grande parte, sentem-se perdidos, confusos, perplexos e até desiludidos: foram divulgadas prodigamente ideias contrastantes com a Verdade revelada e desde sempre ensinada; foram difundidas verdadeiras heresias, no campo dogmático e moral, criando dúvidas, confusões e rebeliões; alterou-se até a Liturgia; imersos no ‘relativismo’ intelectual e moral e por conseguinte no permissivismo, os cristãos são tentados pelo ateísmo, pelo agnosticismo, pelo iluminismo vagamente moralista, por um cristianismo sociológico, sem dogmas definidos e sem moral objetivo” (L’Osservatore Romano, 7-2-81).
5 – Assim, tanto os pais quantos os responsáveis pela educação católica,
padres e freiras, afetados por esta crise moral, não puderam avaliar pelo ângulo correto a questão das escolas mistas. Os problemas em relação à castidade, à ocasião próxima de pecado, foram deixadas de lado, decorrente do esquecimento destas verdades nos púlpitos, pregações e confissões.
6 – Neste sentido, no livro “História das ideias pedagógicas no Brasil” de Demerval Saviani, relata-se que houve uma abertura de membros do clero no Brasil para as novas ideias pedagógicas a partir da década de 50. Muitos padres aceitaram as teses dos chamados “nova-escolistas”, que defendiam um modelo de educação de viés socialista, baseado nos escritos marxistas e liberais sobre este tema.
7 – Portanto, quando o Ministério da Educação, em 1970, implanta as escolas mistas na educação pública, os pais e não pouco sacerdotes administrados de escolas apenas seguiram o exemplo, não levando em conta a doutrina da Igreja sobre a promiscuidade sexual nas escolas;
8 – Em outras escolas houve certa resistência dos pais, como no caso dos Maristas, que só admitiram a primeira menina em 1975. Há referências de que em algumas escolas administradas pelos Salesianos, as meninas também demoram a ser admitidas, sendo que numa delas isto só aconteceu em 1978.
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Enfim, como havia dito, não é possível encerrar o assunto, visto a complexidade do mesmo. Precisaríamos fazer um estudo num grande número de escolas católicas, assim como precisaríamos de mais bibliografia sobre o tema: o que, infelizmente, não é fácil de encontrar. Em geral, os estudos sobre educação citam o problema da co-educação (escolas mistas) muito por cima, ou por os estudiosos quererem calar sobre o tema, que lhes poderia ser incomodo, ou pelo fato de que talvez a resistência católica não tenha se mostrado realmente eficaz, dando a impressão ao historiador do tema de que este é um pormenor que não merece ser esmiuçado.
Espero ter respondido minimante à sua pergunta.
Em Jesus e Maria!
O problema da co-educação: as escolas mistas, sistema de ensino que a Igreja sempre recusou
17 ago 2011 5 Comentários
em família Tags:educação, filhos, pais
Por Vladimir Lachance
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Por co-educação se entende a educação de meninos e meninas feita em comum, modelo que domina a maior parte das escolas do Brasil e do mundo.
Apesar de dominante, este modelo educacional só se estabeleceu no último século: pouco a pouco foi substituindo as escolas não-mistas, até que, por volta da década de 70, se tornou o modelo normal de educação, enquanto que as escolas que educavam apenas um dos sexos foram desaparecendo, à força da pressão feita pelos órgãos de educação do país – e em parte também pela mudança de mentalidades da sociedade em geral.
Então, o que para nós parece algo comum na verdade não o foi. Até o século XIX a influência da Igreja sobre a educação ainda se fazia presente de algum modo, preservando o princípio de que a educação deveria ser diferenciada para cada sexo. Mas, neste mesmo século, as vozes incorfomadas com os ideais católicos já começam a se fazer ouvir: eis que a propaganda pela co-educação aparece.
De 1882 a 1884 ocorreu o “Congresso de Instrução” no Rio de Janeiro. Embebido da influência pseudo-científica do Positivismo, este congresso abordou questões avançadas para a época, como a “liberdade de ensino”, o “ensino obrigatório” e a “organização do ensino secundário feminino”. Além disto, nos parece interessante destacar neste Congresso o parecer dado pelo Inspetor da Instrução Pública do Rio de Janeiro, Dr. João Barbalho Uchôa, que levanta inúmeros argumentos em favor da co-educação – que constituem praticamente os mesmos argumentos utilizados pelos propugnadores da co-educação atualmente, por isso vemos a necessidade de analisá-los. Os seus argumentos se resumem a:
1. [...] a influencia irrecusavel que o ensino mixto produz com relação aos costumes e maneiras, contribuindo de modo muito decisivo para ameniza-los. Como é, porém, que se apparece esse estimulo, e como se dá essa amenização. É simples, e facilmente se comprhende. As alumnas pretendem não se mostrar inferiores em aproveitamento aos alumnos, e por sua parte estes não querem deixar-se vencer por ellas. Resultado: mais applicação; mais assiduidade; melhores lições; maior proveito e adiantamento (CONGRESSO DE INSTRUÇÃO 1882-1884, item I).
Para fazer este primeiro ponto funcionar, o Inspetor então saca do segundo argumento – introdução de mulheres no quadro de professores, para amenizar a dificuldade das meninas em aceitar a presença de meninos na classe; a professora funcionaria como mediadora das duas partes:
2. Sabe-se que a mulher tem mais facilidade, mais jeito de transmittir nos meninos os conhecimentos que lhes devem ser communicados. Maneiras menos rudes e seccas, mais affaveis e attrahentes que os mestres, aos quaes incontestavelemnte vence em paciência, doçura e bondade. Nella predominam os instinctos maternaes, e ninguém como ella possue o segredo de captivar a attenção de seus travessos e inquietos ouvintes, sabendo conseguir que as lições, em vez de tarefa aborrecida, tornem-se-lhes como uma diversão, um brinco (CONGRESSO DE INSTRUÇÃO 1882-1884, item II).
3. Assim educados, elles sahem da escola com a profunda imprensao que ahi receberam e serão homens attenciosos, cheios de acatamento para com as senhoras, e de costumes que honram a sua educação (CONGRESSO DE INSTRUÇÃO 1882-1884, item II).
4. Em vez de dous mestres, duas escolas, duas casas [...], uma aula mixta presta o mesmo e melhor serviço: e com a quantia poupada da creação e custeio, que assim se tornam desnecessários, de mais outra escola, proporcionam-se os meios para em outro lugar terem os meninos o preciso ensino (CONGRESSO DE INSTRUÇÃO 1882-1884, item V).
5. O preconceito e prevenção tem de ceder à experiência e ao tempo, que os hão de vencer, atestando mais tarde, com os factos, não serem razoáveis os receios dos que levam tão longe seus escrúpulos para condemnar, por uma preoccupação que os domina, providencia de vantagens não duvidosas. (CONGRESSO DE INSTRUÇÃO 1882-1884, item VIII). (1)
Vejamos agora, pois, qual o argumento moral defendido pela Igreja, para em seguida examinar mais detidamente os itens elencados pelo Inspetor Dr. Uchôa.
Posicionamento da Igreja quanto à co-educação
Iniciemos com as palavras do Magistério de Pio XI, na encíclica Divini Illius Magistri – de 1929, que repete o ensinamento perene da Igreja na matéria da educação. Eis as palavras do Papa:
“D) COEDUCAÇÃO
“De modo semelhante, erroneo e pernicioso à educação cristã é o chamado método da ‘coeducação’, baseado também para muitos no naturalismo negador do pecado original, e ainda para todos os defensores deste método, sobre uma deplorável confusão de ideias que confunde a legítima convivência humana com a promiscuidade e igualdade niveladora. O Criador ordenou e dispos a convivência prefeita dos dois sexos somente na unidade do matrimônio e gradualmente distinta na família e na sociedade. Além disso não há na própria natureza, que os faz diversos no organismo, nas inclinações e nas aptidões, nenhum argumento donde se deduza que possa ou deva haver promiscuidade, e muito menos igualdade na formação dos dois sexos. Estes, segundo os admiráveis desígnios do Criador, são destinados a completar-se mutuamente na família e na sociedade, precisamente pela sua diversidade a qual, portanto, deve ser mantida e favorecida na formação educativa, com a necessária distinção e correspondente separação, proporcionada às diversas idades e circunstâncias. Apliquem-se estes princípios no tempos e lugar oportunos, segundo as normas da prudência cristã, em todas as escolas, nomeadamente no período mais delicado e decisivo da formação, qual é o da adolescência; e nos exercícios ginásticos e desportivos, com particular preferência à modéstia cristã na juventude feminina, a qual fica muito mal toda a exibição e publicidade.” (Papa Pio XI, Encíclica Divini Illius Magistri, Ed. Escolas Profissionais Salesianas, 1938, p. 46)
As bases da doutrina contra a co-educação se firmam, pois, nas palavras do Santo Padre, que diz que Deus Nosso Senhor criou o homem e a mulher desiguais, para que se completassem perfeitamente por meio do matrimônio. A cada um dos sexos caberia um papel na vida de família e na sociedade e por isto se faz necessário que a educação de meninos e meninas seja também desigual. Portanto, a “igualdade niveladora” na educação, como diz Pio XI, é contrária aos desígnios de Deus para a família e a sociedade. Daí já decorre um grave defeito da co-educação nas escolas.
E, além do igualitarismo, há ainda o problema moral relacionado com a pureza e castidade. Como diz o Papa, a co-educação promove a promiscuidade entre os sexos, visto que a convivência entre os sexos se torna constante: no Brasil são pelos menos 6 horas de convívio comum, na ida para a escola, nas aulas, nos recreios, na volta para casa… É neste sentido que Pio XI diz que grande parte dos defensores da co-educação se baseiam num naturalismo que nega o pecado original, pois quem imagine que um convívio tão longo e próximo não apresente riscos para a pureza – quer seja por um contato sexual precoce e pré-matrimonial ou por uma influência malfazeja à práticas anti-naturais – só pode fazer pouco caso do ensinamento tradicional da Igreja tanto em relação ao pecado original e quanto à inclinação do homem ao pecado.
Sintetizando, Pio XI diz:
I) contra o igualitarismo: meninos e meninas são diferentes, portanto precisam de educação diferenciada;
II) contra a sensualidade: a proximidade excessiva entre os dois sexos degenera em promiscuidade;
III) a separação dos sexos na escola deve acontecer sempre que possível, mas principalmente no período da adolescência e nas aulas de educação física.
Vejamos agora o que dizem os moralistas católicos, começando pelas palavras do Dizionario di Teologia Morale de 1968, dirigido pelo Cardeal Roberti e revisto à luz do Concílio Vaticano II. No verbete Sexo pode-se ler:
“’O contato social entre pessoas dos dois sexos tem influência benéfica e educativa. Este contato o oferece, de uma maneira mais natural e equilibrada, a vida da família numerosa, na qual há pai e mãe e a prole quase sempre é composta de irmãos e irmãs. Um contato fora da família, demasiado grande e frequente, não está isento de perigos. Por isso, deve-se evitar tanto quanto possível a co-educação de jovens de sexo diferente nas mesmas escolas‘” (Dizionario di Teologia Morale, Ed. Studium, Roma, 1968, 4.ª ed., revista à luz do Concílio ecumênico Vaticano II, p. 1524-1525 / Imprimatur: Sac. Marius Iacovelli, Vic. Gen., Tibure, 25-2-1968 in A TFP: uma vocação, TFP e famílias, TFP e famílias na crise espiritual e temporal do século XX, Vol. I, elaborada por uma comissão de estudos da TFP, em fevereiro de 1986)
Este trecho repete o ensinamento do Magistério de Pio XI, acrescentando que a Igreja considera o contato social entre os dois sexos benéfico, desde que seja feito dentro do próprio ambiente familiar, entre pai, mãe, filhos e filhas. Como bem disse o Papa, a convivência perfeita entre os dois sexos se dá no matrimônio, e menos perfeita que esta convivência vem logo abaixo a convivência dos filhos e filhas do casal no mesmo lar: convivência imperfeita, mas que é, para crianças e adolescentes, a que mais condiz com seu estado de desenvolvimento. Mas, para que este relacionamento seja ainda mais rico, o Cardeal reitera que contribui enormemente a prole numerosa: geralmente composta por meninos e meninas. Eis a sabedoria da Igreja!
No mesmo Dizionario, o Cardeal Palazzini, na época Prefeito da Sagrada Congregação para a Causa dos Santos, escreve:
“’Co-educação é a educação de meninos e meninas feita em comum com o fim de favorecer um pretenso encontro natural e progressivo entre os dois sexos.
‘Além dos propugnadores do naturalismo e de alguns protestantes, que julgaram encontrar na co-educação um elemento favorável para a sanidade dos costumes em contraposição aos perigos do auto-erotismo, tal método tem sido elogiado também por alguns católicos. Estes têm sustentado ver nele uma forma de imunização gradual contra o mal, um incentivo para a gentileza e a emulação e uma expressão análoga à vida de família.
‘Porém a Igreja tem-se declarado constantemente contrária a tal método, porque tem visto nele um grave perigo para a pureza e para a formação dos jovens. Com efeito, a comparação com a vida familiar é claramente forçada, e uma vez mais se abusa na aplicação do princípio da imunização produzida pelo hábito (‘ab assuetis non fit passio’), esquecendo- se de que o hábito pode eliminar o choque da impressão nova, mas não elimina, pelo contrário aumenta o perigo proveniente do contato contínuo, constituindo um estímulo natural para as paixões, não só pela novidade, como também por seu conteúdo. E a experiência só faz confirmar a observação‘” (Cardeal Pietro Palazzini, in Dizionario di Teologia Morale, Ed. Studium, Roma, 1968, 4.ª ed., revista à luz do Concílio ecumênico Vaticano II, p. 323 / Imprimatur: Sac. Marius Iacovelli, Vic. Gen., Tibure, 25-2-1968 in A TFP: uma vocação, TFP e famílias, TFP e famílias na crise espiritual e temporal do século XX, Vol. I, elaborada por uma comissão de estudos da TFP, em fevereiro de 1986)
O Cardeal aponta para os argumentos dos co-educadores. Notemos que, curiosamente, são os mesmos argumentos do Dr. Uchôa no século XIX. Os argumentos seriam:
a) O contato entre os sexos favorece a convivência natural (o mesmo ponto 1 do Dr. Uchôa);
b) O contato entre os sexos evita certas práticas anti-naturais [auto-erotismo];
c) O contato entre os sexos incentiva a gentileza e representa a vida de família, preparando os jovens para a vida futura (o mesmo ponto 3 do Dr. Uchôa);
Ao que o Cardeal Palazzini opõe os seguintes contra-argumentos:
a.1) A convivência frequente entre os sexos elimina o choque da novidade, porém aumenta o perigo de pecado, incitando as paixões inferiores;
b.1) Decorrente do que se disse acima, as práticas anti-naturais só tendem a aumentar;
c.1) A comparação com a vida de família é evidentemente forçada, apenas visando justificar a posição da co-educação;
Por fim, citemos – ainda no Dizionario – a posição do Professor Carlo Rizzo, livre-docente de Clínica de enfermidades nervosas e mentais na Universidade de Roma:
“’Um dos corolários desses deletérios princípios – de Hirschfeld, criador da teoria do terceiro sexo, que seria o sexo do homossexual – é a promiscuidade sexual: mal que à primeira vista pode parecer sem gravidade, mas que, de fato, se torna frequentemente pernicioso já que pode constituir facilmente a premissa, a ocasião e o incentivo para aqueles males já mencionados – [homossexualidade, amor livre, neo- maltusianismo, etc...]
‘A todos é notório como a prudente separação entre os jovens e as jovens, que existia até há alguns decênios, praticamente desapareceu atualmente.’” (Prof. Carlo Rizzo, in Dizionario di Teologia Morale, Ed. Studium, Roma, 1968, 4.ª ed., revista à luz do Concílio ecumênico Vaticano II, pp. 1525-1526 / Imprimatur: Sac. Marius Iacovelli, Vic. Gen., Tibure, 25-2- 1968 in A TFP: uma vocação, TFP e famílias, TFP e famílias na crise espiritual e temporal do século XX, Vol. I, elaborada por uma comissão de estudos da TFP, em fevereiro de 1986)
Duas coisas chamam a atenção neste trecho: a primeira é que, mesmo que inconscientemente, os defensores da co-educação – promovendo a promiscuidade sexual – se aproximam dos princípios de pensadores como Magnus Hirschfeld, que defendia a tese de que haviam três sexos, sendo que homens e mulheres tinham diversas características em comum, não podendo ser taxados inflexivelmente enquanto seres do sexo masculino e feminino, e a síntese destes constituiria o indivíduo homossexual, que estaria numa posição intermediária entre os dois seres. Deste modo, os homens não são homens, as mulheres não são mulheres e os homossexuais representam os dois primeiros: no fundo, uma teoria do bissexualismo e da androginia. Portanto, não haveria mal algum em se colocar meninos e meninas na mesma classe, visto que no fundo todos são iguais. E, de uma maneira ou de outra, é isto o que reproduzem os co-educadores quando dizem que meninos e meninas têm as mesmas aptidões, as mesmas capacidades para diferentes coisas, e propõem o ensino em comum.
E o segundo ponto que chama atenção é o alerta dado pelo prof. Rizzo: a separação entre os sexos praticamente desapareceu; ou seja, estamos num ambiente abertamente influenciado pelas teorias igualitárias e anti-naturais de estudiosos como Sigmund Freud, Hirschfeld e outros, e ao mesmo tempo afastado da influência benigna e santificante da Igreja Católica.
Considerações finais à luz da doutrina católica sobre os pontos em favor da co-educação
A primeira e mais importante consideração a se fazer é que os defensores da co-educação passam completamente por cima de todo e qualquer argumento moral, dando a impressão de que o ponto central da discussão é de nível exclusivamente intelectual e/ou econômico. Em verdade, no ponto 5 o Dr. Uchôa tece, veladamente uma crítica ao argumento moral, taxando-o de preconceituoso e retrógrado, que deve dar espaço à racionalidade do ponto de vista dos co-educadores. Como costumeiro nos meios positivistas e progressistas, o Dr. Uchôa deixa a cargo da experiência e do tempo a extinção dos posicionamentos dos moralistas escrupulosos. Ou seja, o processo evolutivo da sociedade se encarregará de fazer desaparecer qualquer elemento ultrapassado, pois esta seria a verdadeira marcha da história e da humanidade: o progresso indefinido, atropelando sempre os costumes e crenças do passado. Mas, poderíamos pergunta, porque a doutrina católica será ultrapassada e os ideais dos co-educadores, velhos já de mais de 200 anos, podem continuar os mesmos? Como exemplo podemos ver que os argumentos listados pelo Cardeal Palazzini em 1968 são os mesmos dados pelo Dr. Uchôa em 1882: então, só as ideias positivistas não serão nunca ultrapassadas?
O professor Plinio Corrêa de Oliveira, fundador da TFP – Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade – no jornal Legionário de 1943 escreveu artigo intitulado “Co-educação” em que trata de analisar alguns dos pontos aqui discutidos. Ele diz que “(…) o problema consiste em saber se realmente os adversários da co-educação têm fundados motivos para sustentar sua tese. Em caso afirmativo, não há economia que compense os desastres da co-educação”. (2)
Portanto, seguindo o esquema do Dr. Uchôa, tudo depende do seu ponto 5, que é onde ele apresenta a religião como sistema velho e dominado por escrupulos. Se realmente existir um problema moral, e de fato existe – como já comprovado pelas citações do Magistério, moralistas e cientista colocadas acima -, vantagem econômica nenhuma pode justificar a manutenção de um sistema que põe em risco as almas de milhões de crianças e adolescentes: deste modo, o ponto 4, que apresenta o argumento econômico deixa de ter razão de ser.
Então, como podemos ver, todos os pontos em favor da co-educação são contrários ao ensinamento perene da Igreja. Tanto assim, que na encíclica Divini Illius Magistri, Pio XI chega a proibir a frequência dos jovens católicos em escolas acatólicas, neutras e mistas (3). Como, infelizmente, “as circunstâncias de lugar e de tempo” (4) nos obrigam atualmente a ter os filhos matriculados em tais escolas, o mesmo Santo Padre já dizia que nestas ocasiões a frequência se faz tolerável, visto não haver outra solução imediata – mas, que os pais devem procurar as escolas menos danosas para a alma de seus filhos.
***
(1) Fabiane Freire França – A Co-educação dos sexos na escola pública brasileira: 1870-1932, Universidade Estadual de Maringá;
(2) Plinio Corrêa de Oliveira – “Co-educação”, Mensário Legionário, nº 555, 28 de março de 1943;
(3) Papa Pio XI, Encíclica Divini Illius Magistri, Ed. Escolas Profissionais Salesianas, 1938, p. 52;
(4) Papa Pio XI, Encíclica Divini Illius Magistri, Ed. Escolas Profissionais Salesianas, 1938, p. 52.
Esclarecimento sobre o casamento civil
25 jun 2011 Deixe um comentário
Prezados leitores, Salve Maria!
Recebi algumas mensagens e comentários de pessoas que desejam saber como é possível eliminar o casamento civil… como eu disse no meu texto, é algo que depende de uma justificativa justa, da possibilidade da paróquia, e – especialmente – do bom-senso das pessoas.
A maioria das paróquias não dispensa do casamento civil, pelo fato de que isso pode trazer algumas complicações jurídicas. No meu caso, foi bastante tranquilo conseguir a dispensa: tudo se resolveu rapidamente pelo fato de que éramos bastante conhecidos dos padres de nossas [minha e de meu noivo] paróquias; além do fato que o vigário era bastante próximo a um desses sacerdotes. Só é possível conseguir a dispensa mediante a assinatura do Bispo ou de seu vigário, que enviando uma carta à paróquia de um dos noivos, autoriza o casamento mesmo sem que os noivos entreguem o documento do casamento civil.
Dito isso, é preciso dizer que os noivos, para dispensarem o casamento civil, necessitam de uma justificativa real. No meu caso, estava de mudança para São Paulo, de modo que o prazo do casamento civil era muito apertado para nós. Como o padre que celebrou nosso casamento realmente nos conhecia, sabia que não haveria maiores complicações, de modo que escreveu ele mesmo a carta que serviu de esclarecimento para o bispo.
Como assim, “maiores complicações”? Infelizmente, as pessoas que procuram a dispensa do casamento civil o procuram porque possuem uma complicação civil. Já são casadas com outras pessoas no civil, e não tem o divórcio, por exemplo. Gostaria de lembrar a estas pessoas que, uma vez que o casamento católico também tem validade civil, a justiça deverá considerar como bigamia alguém que seja casado no civil com uma, e na igreja com outra. Pior: a pessoa casada na igreja pode ser preterida em favor da primeira união civil, no que toca os direitos puramente jurídicos. Isto dá uma complicação enorme! Não façam isso com vocês mesmos…
Como católica, eu sei que o casamento civil é nulo perante Deus, mas eu também sei que burlar a lei para tirar vantagens dos outros é errado. Pessoas com tal situação devem regularizar a vida primeiro perante a justiça, para então se casarem com outra na igreja. Inclusive tive uma amiga muito próxima que passou por tal situação: ela teve de se submeter a lei de Portugal, e esperar o divórcio do seu noivo que era casado apenas no civil (porque é óbvio que se uma pessoa casou na Igreja uma vez, jamais poderá casar de novo, nem se relacionar com outra pessoa, pois é pecado mortal: o casamento católico é indissolúvel, transgredir esta lei leva ao inferno), para então casar com ele na Igreja. Eu a aconselhei muito a não casar na igreja enquanto o noivo, perante a lei, estivesse unido à outra. Recomendo o mesmo a qualquer um que esteja nesta situação.
Outra situação bastante comum de quem procura a dispensa do casamento civil: a pessoa em questão já teve algum relacionamento anterior – mesmo que não tenha sido oficialmente casada, mas morou com alguém ou teve filhos. Pela justiça, 2 anos dividindo a casa já constitui uma união estável. Se há filhos, não é necessário nem que se tenha morado junto: os direitos já são garantidos à mulher, como pensão. Portanto, a pessoa pode requerer os mesmos direitos de quem foi casado no civil. Se você já morou com alguém antes, não se case na igreja sem se casar também no civil… pois isso também traz dores de cabeça. Infelizmente, o mundo moderno criou estas realidades, e é preciso falar delas. Se há filhos envolvidos – ou seja, a pessoa se relacionou de maneira adúltera com alguém antes, teve filhos, e agora procura casar com uma terceira pessoa na igreja… também deve “casar” de forma regularizada no civil – para a segurança dos filhos.
Há até aquelas pessoas que nem sequer resolveram a vida “anterior” primeiro, e resolvem casar na igreja… são as pessoas que se dizem separadas dos “parceiros”, mas moram na mesma casa! Bem, para a justiça, um homem e uma mulher, que se relacionaram, e que continuem a morar debaixo do mesmo teto… isso não constitui separação. Essa é a distinção entre “separação” e “divórcio”. Separação é a separação de corpos (quando cada um vai para um lado), divórcio é o documento propriamente dito, que é resolvido na justiça. O engraçado nesse mundo moderno, é que não é necessário ir na justiça regularizar que se está casado [2 anos ou filhos bastam], mas é preciso ir quando se decide terminar tudo. Daí a importância de se ter a vida bem resolvida nesses aspectos, quando se está disposto agora a seguir a Lei de Deus, com o matrimônio.
As únicas pessoas que eu aconselho, quando precisam, a pedir a dispensa do civil, são aquelas que realmente são livres e desimpedidas perante a lei dos homens; não tiveram “parceiros”, nem filhos, nem nada disso… digo isso com o intuito de ajudar e alertar as pessoas, para que façam a coisa certa, e o melhor para suas vidas. Nestes assuntos tão sérios, é sempre bom evitar dores de cabeça, ocasiões de escândalo para o próximo, e prejuízos materiais para outras pessoas. Façam a coisa certa, e tenham um santo matrimônio!
Em Jesus e Maria!
Adoráveis mulheres – Parte Um
06 jun 2011 5 Comentários
em dona-de-casa, esposa, família Tags:educação, mulher católica
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1 – Educação de meninos e meninas
No ano passado, eu tinha cerca de nove alunas na minha pequena turma de catequese, além de cinco meninos. A mais nova delas tinha nove anos, e a mais velha, onze. Meu então noivo (hoje marido) e eu preparamos as crianças para a primeira comunhão, e dentre os assuntos que separamos do catecismo propriamente dito, uma de nossas metas era criar um universo de meninas para meninas, e um universo de meninos para meninos. Pode parecer inusitado incluir este objetivo quando se está dando lições para o sacramento, mas sabíamos que estávamos com uma difícil tarefa nas mãos: plantar uma pequena semente, para que ela desse frutos, com a graça de Deus, no futuro. As crianças precisavam mais do que decorar as verdades da fé, elas precisavam aprender a serem elas mesmas. Eu cuidava das meninas, e Vladimir dos meninos. Vou me deter na história das meninas:
A Igreja sempre recomendou, vivamente, que se educassem meninos e meninas separadamente. É impossível resumir, neste breve texto, todos os prejuízos trazidos com a educação mista – mas sabemos que são muitos. Não há mais disciplinas direcionadas às aptidões próprias de cada sexo, mas uma verdadeira educação unissex, que não pôde sequer admitir que as moças continuassem com os uniformes de moças – ou seja, as saias e vestidos como farda escolar. O cardeal Palazzini escreveu:
“Co-educação é a educação de meninos e meninas feita em comum com o fim de favorecer um pretenso encontro natural e progressivo entre os dois sexos. Além dos propugnadores do naturalismo e de alguns protestantes, (…) tal método tem sido elogiado também por alguns católicos. (…) Porém a Igreja tem-se declarado constantemente contrária a tal método, porque tem visto nele um grave perigo para a pureza e para a formação dos jovens. Com efeito, a comparação com a vida familiar é claramente forçada.” [1]
O resultado de tal educação mista é que os jovens atualmente vivem uma relação de camaradagem que descamba no amor livre. [2] É possível perceber isto claramente quando se educa crianças e jovens. No meu caso, que também ensinava numa escola pública, não podia deixar de observar como as consequências são desastrosas – sobretudo nas meninas. Elas estão masculinizadas: nas atitudes, nas palavras, na maneira de sentar-se, no modo como se relacionam com os garotos. Um aluno meu disse-me ano passado durante a aula de língua portuguesa (quando eu o repreendi por ter falado uma palavra inadequada, e “ainda mais na frente de sua colega“):
- Mas, professora, a senhora não sabe que ela fala coisas piores do que eu?
Estes meninos e meninas, que crescem sem respeito entre si – e sem qualquer mistério – não tarde começam a se relacionar. Agora, que tipo de relacionamento é esse que se inicia entre um rapaz de péssimos modos, e uma moça que tem as mesmas atitudes? Basta observarmos o que são os relacionamentos atuais: sem cerimônias, repleto de liberdades e imoralidades, cada qual tirando o maior proveito que pode da dignidade do outro. Mesmo entre os bons namorados católicos sobrevive a pergunta (e geralmente, é o homem que a faz): “o que eu posso fazer num namoro?“, que equivale à pergunta: “até onde eu posso usar essa moça? até onde me é permitido ter prazer com ela?“.
Em um mundo onde as pessoas fazem o máximo de imprudências, as “boas pessoas” desejam fazer o mínimo de virtudes. Por isso elas desejam ardentemente descobrir o que elas podem “fazer num namoro”, pois dessa forma pretendem usar até a última prerrogativa do que lhes for permitido. Pouco importa quem lhes diga que “é possível fazer certas coisas”, desde que esta pessoa esteja de acordo que o rapaz pode sim, usar um pouquinho a namorada. Nenhum rapaz é honesto e católico o suficiente para perguntar: “como eu posso respeitar ainda mais a minha namorada ou noiva?” – pois eles sabem que esta pergunta os obrigaria a renunciar muitas coisas. Os obrigaria, em suma, a preservar a inocência da moça, a tratá-la com todo decoro e delicadeza… é de partir o coração, mas a juventude hoje não procura saber o que pode fazer de mais virtuoso, mas apenas o mínimo. É o cúmulo da mediocridade.
Todos os sábados de manhã (além do material básico do catecismo), eu procurava levar desenhos de colorir com imagens delicadas, filmes para emprestar para as meninas, histórias de fadas, livros, músicas… as meninas ficavam encantadas com tudo aquilo, mas infelizmente 1 ano é muito pouco tempo. Contra aquele pequeno universo que eu tentava criar uma vez por semana, havia as famílias, a televisão, a escola, o mundo. E as famílias eram péssimas. Apenas duas alunas tinham pais que frequentavam a igreja, e apenas 1 (uma!) podia dizer que os pais receberam o sacramento do matrimônio.
2 – Onde está o universo feminino?
” A todos é notório como a prudente separação entre os jovens e as jovens, que existia até há alguns decênios, praticamente desapareceu atualmente. Nas escolas, nas fábricas, nos escritórios e em toda sorte de agrupações, os jovens de ambos os sexos costumam viver juntos em uma camaradagem aparentemente assexual; encontram-se a qualquer hora do dia e da noite, e se reúnem em bailes, excursões, acampamentos, etc., sem nenhum acompanhamento de parentes, e assim por diante. E isto pode favorecer qualquer irregularidade moral.” - Dicionário de Teologia moral [3]
É tolo dizer que a necessidade da separação entre homens e mulheres seja apenas um arcaísmo, coisa de “tempos passados”. Quem de nós, moças, não poderá dizer que passou um grande inconveniente com rapazes? Amigos que tomaram certas liberdades? Muitas afirmam que, durante a adolescência, acabavam por ter “mais amigos rapazes que moças“. Justamente na época em que se deveria ter uma distância maior – por conta da natural atração entre os sexos – homens e mulheres estão “misturados”… ao mesmo tempo em que se pode dizer que aumenta o interesse entre os dois, cada um se torna mais desinteressante para o outro. Não há grandes novidades… as moças estão por toda parte: é fácil chegar até elas, fácil até demais. Não é preciso passar por ninguém: pai, mãe, família… também não é preciso ter boas referências, bom caráter… a maioria das vezes não se sabe nada sobre o outro, só “que é agradável aos olhos”. Triste realidade, mas as moças não sabem mais o que é o universo feminino!
A mãe se dedica a ler histórias para o bebê
Recolhimento, orações, paciência, trabalhos manuais, cozinha, costura, canto e música, ofícios domésticos, profissão digna: eis algumas das ocupações das moças de família até a primeira metade do século XX.
Por outro lado, preocupação excessiva com a aparência física, vários parceiros durante a vida, evitar filhos, moda sensual: tudo isso estava reservado às mulheres de vida escandalosa no passado.
Cruzamos uma linha definitiva, e não percebemos quando as boas moças se tornaram as péssimas moças. Em marcha lenta, mas constante, fomos caminhando para o ponto exato onde a pequena mocinha de boa família, com seus dezesseis anos, ouve da própria mãe que precisa “se cuidar e tomar a pílula”. No lugar do piano, o estojo de maquiagem. Ao invés das aulas de bolos ou massas, as baladas noturnas.
Teme-se que a adolescente típica de nossos dias, que lê a revista Capricho, leve vida pior do que a moça que acabava por entrar na “vida fácil” dos anos 20. Parece exagerado? Mas de fato não é. Quantos namorados têm as moças de nossos dias? Seis? Sete, sem contar os “ficantes”? Quais as modas que elas vestem? Quais as preocupações centrais? Acaso não estão todas obrigadas a estarem sempre jovens e sensuais? Não estão condicionadas a não darem filhos das relações de que são escravas?
Quando falamos em universo feminino, não percebemos que estamos, em verdade, falando de um universo dignamente construído pela doutrina cristã; não é à toa, portanto, que tais “prendas” são tão atacadas. Fala-se com desprezo da mulher de antigamente, reservada às tarefas domésticas, quase como se ela fosse “incapaz”. Na verdade, o discurso “feminista” se alastrou em alguns pontos fundamentais – entre eles, por exemplo, a máxima do planejamento familiar. É preciso admitir que mesmo as pessoas mais respeitáveis [até mesmo padres, senhoras muito dedicadas à religião...] reagem à possibilidade de uma mãe ter muitos filhos como se fosse falta de higiene: “mas com tantos recursos? hoje em dia não… ah, se eu tivesse toda essa informação na minha época” – afirma hoje uma senhora, mãe de 14 filhos.
3 – Relação entre homens e mulheres: falta o mistério
Podemos não perceber, mas ainda sentimos falta do mistério necessário para a relação entre homens e mulheres. A diferença bem marcada no caráter de cada um é algo que fortifica o interesse natural entre o casal… tal diferença não é, como se poderia supor, de opiniões ou de crenças. Ao contrário: sabemos da importância de princípios sólidos e comuns para o matrimônio santo. Falamos especificamente daquilo que é próprio do homem e da mulher, das disposições de alma que cada um possui para exercer seu papel nos planos de Deus. A mulher se torna adorável aos olhos do homem precisamente naquilo que lhe é inteiramente particular: a disposição para a maternidade, o silêncio, a resolução em encarar os sacrifícios. Estas são coisas absolutamente necessárias para a harmonia da vida em família, onde homem e mulher precisam aprender a conviver juntos e educar os filhos.
Notas
[1] Cardeal Pietro Palazzini, in Dizionario di Teologia Morale, Ed. Studium, Roma, 1968, revista à luz do Concílio Ecumênico Vaticano II.
[2] Prof. Carlos Rizzo in Dizionario di Teologia Morale, Ed. Studium, Roma, 1968, revista à luz do Concílio Ecumênico Vaticano II.
[3] idem.

































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