Essencial para o casamento: As cerimônias

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As cerimônias do casamento! Depois de uma longa espera, eis que é chegado o momento de receber o belíssimo sacramento! O meu – como alguns devem saber – está muito próximo, por isso peço que rezem nas minhas intenções. Nesta parte, vamos tratar um pouco do que prescreve a Santa Igreja com relação às cerimônias.

Em primeiro lugar, há de se perguntar que tem o casamento civil a ver com o casamento religioso. Nada. É, aliás, bastante lamentável que algumas paróquias só se disponham a celebrar o matrimônio uma vez que os noivos tenham dado entrada na parte civil. O verdadeiro autor do casamento civil foi Lutero, que concedeu ao Estado o direito de legislar; a Revolução Francesa terminou por declarar que “o casamento é um contrato civil“. Se este é obrigatório ou não, parece não ser consenso neste país. Há uma lei que afirma que o casamento religioso (antigamente era só o católico, mas agora estenderam para as seitas!) tem fins civis – ou diríamos, os mesmos direitos perante a lei, etc. Considerando que hoje as pessoas moram por 5 anos juntas e já ganham os “direitos”, vemos as perniciosas conseqüências que trouxe esse “contrato”. Disse o Papa Leão XIII: “o casamento civil é uma instituição nefasta”.

O Estado que introduz o casamento civil obrigatório despreza a lei de Deus e considera nulo e mero concubinato o casamento religioso prescrito pelo próprio Deus. (Catecismo do padre Francisco Spirago, volume 3) Os católicos podem se submeter a esta exigência, embora nos perguntemos os motivos. Não é verdade que um fulano se junta com outra e – se tem um filho e moram juntos por 2 anos – a lei considera isso “casamento”? Que temos nós a ver com este contrato amoral? Pois muito bem, eu pedi dispensa do casamento civil ao bispo, e casarei apenas no religioso neste início de ano – pois as circunstâncias não me permitiram o perder tempo com idas a fóruns, etc. Uma vez casados, o processo é mais tranquilo: basta ir no cartório.

 

* Com isso não se quer incentivar as pessoas a não fazer o casamento civil, mesmo porque a maioria das paróquias o exige, mas apenas enfatizar que esta instituição desmerece o sacramento, além de fazer parecer que o matrimônio ordenado por Deus depende do Estado. Não aconselho a pedir dispensa quem já teve “relação estável”, união civil anterior, ou tem filhos com outra pessoa. Neste caso, o contrato civil evita as complicações que só ele é capaz de trazer! No meu caso, a dispensa foi realmente necessária, pois do contrário não poderíamos viajar, o que é urgente.

Deve-se dar a entrada nos papéis civis 90 dias antes da cerimônia na Igreja – me parece que esse é o mínimo. Quem quiser, pode resolver logo essa parte e fazer o contrato bem antes.

Antes que se realizem as cerimônias propriamente ditas, temos: esponsais, publicação dos banhos, confissão geral e eucaristia.

Esponsais: promessa mútua de casamento. É geralmente feita por ocasião do noivado, embora esteja menos em voga atualmente; não é obrigatório. Antigamente o contrato esponsalício meramente verbal surtia todos os efeitos e era tido em grande honra na Igreja. Os esponsais devem ser feitos após madura reflexão – pois se os dois estão dispostos a assinar um termo se comprometendo com o casamento, não seria bom que depois se abandonasse a promessa, simplesmente porque o fizeram sem propósito sério. A forma preceituada pela Igreja consiste em que a promessa seja feita por escrito, assinada por ambas as partes e pelo pároco ou ordinário. Não assinando o padre, duas testemunhas assinam e surte o mesmo efeito; e caso apenas um dos noivos esteja presente para assinar a promessa, menciona-se o fato no texto. (Digamos, os noivos moram em cidades distintas, um está a trabalho e deve demorar no regresso, etc.)

É bom que se fique noivo quando já se tem – ainda que não seja imediato – certas condições para que o compromisso não se arraste por demasiado tempo. Muitas vezes o casal deseja logo ficar noivo, por ver nisso grande beleza e também por certa euforia; é fato que ser “noiva” é muito mais digno que ser apenas “namorada” – coisa dos nossos tempos. O namoro católico deve, em breve, se transformar num noivado. O que preocupa, porém, são estes noivados feitos sem qualquer reflexão, por casais muito jovens, que não tem sérias perspectivas de encararem um matrimônio. O padre David Fransciquini disse que não é bom que o noivado dure mais do que 1 ano e meio – 2 anos. Claro está que não é medida absoluta, nem que é digno de condenação o casal cujo noivado tenha passado muito desta conta. É, de fato, uma medida razoável, por se reconhecer que muitos prejuízos vêm com a ameaça da longa espera. Este assunto rende, por isso deixemos para outra ocasião.

Publicação dos banhos ou proclames: Devem ser feitos na igreja paroquial – caso os noivos sejam de paróquias diferentes, publica-se nas duas. Durante três domingos ou dias santos, portanto, deve ser anunciado a intenção de casamento, e no mural da igreja deve estar afixado o documento, especificando nome, idade, profissão e domicílio dos noivos. Isso precisa existir para que se verifique se há impedimentos no matrimônio; e também para que as pessoas não fiquem escandalizadas com o fato de que um casal passa a viver junto. Portanto, se o casamento está anunciado na igreja, logo a notícia corre. E que é preciso para casar? O batistério do noivo e da noiva: certificado de batismo, que deve ser pego na Igreja em que a pessoa foi batizada. Não é a “lembrancinha” de batismo – que geralmente se recebe contendo nome da criança, pais e padrinhos -, mas um documento que deve ser pego próximo a data do casamento  - se não me engano, 6 meses é o máximo – isto é, você não pode pegar o batistério com 1 ano de antecedência. Como alguns não entregam na hora, convém solicitar pelo menos 1 mês antes.

A igreja pede também o certificado de “curso de noivos” (corra!). Só passa por isso, é claro, quem não é católico praticante, pois basta que o padre tenha te visto com certa regularidade nas missas dominicais para que se obtenha a dispensa. Se você não tem vida paroquial, basta que conheça um padre que lhe entregue uma carta de dispensa: “certifico que [noivo] e [noiva] estão preparados para contrair matrimônio, sem que para isso precisem fazer o curso de noivos, etc…”. Então, você conversa com o padre da paróquia na qual deseja casar e – com muito trato – expõe o desejo de contrair matrimônio naquela igreja, sendo que a carta será o divisor entre você – católico praticante – e os outros fulanos que só procuram a igreja porque desejam casar num local bonito. Isso costuma ser suficiente para que não haja necessidade de padecer no tal curso.

Claro que você pode participar de uma paróquia tradicional, onde não há quaisquer problemas deste tipo, mas a maioria de nós precisa saber que caminho tomar nestas circunstâncias. Se possível – como eu fiz – fuja das secretárias da paróquia e fale diretamente com o padre. Elas são extremamente burocráticas, dizem que a Igreja está cheia pelos próximos 10 meses – no mínimo – e querem que você pague todas as taxas! O preço para casar na igreja varia muito – em Salvador me disseram que casar na Conceição da Praia custa… 30 mil reais! – mas costuma ser entre 200 e 600 reais, ao menos por aqui. Claro, as igrejas históricas são mais caras, mas são lindas, por mais simples que sejam! São caras, mas é possível não pagar qualquer taxa quando se é católico praticante – novamente, peça uma carta de recomendação do padre que te acompanha e fale diretamente com o padre da paróquia que deseja casar. Você pode, com toda certeza, desejar ajudar a igreja por ocasião do casamento, mas às vezes o casal se vê com muitas despesas e não pode pagar.

Estas taxas são geralmente cobradas porque de fato muitas pessoas resolvem casar na Igreja somente pelo “local”, e não pela religião – daí é justo que ajudem, pelo menos, a manter a Igreja, já que desejam usá-la. Terminada esta parte, creio que está tudo certo na ala mais “burocrática”. Lembrando que, independente da igreja que decidam casar, os noivos precisam dar entrada na própria paróquia. (A sua paróquia, no caso, é a do local onde mora, e não a que escolheu para frequentar)

A confissão geral e a eucaristia: a Igreja deseja que estes dois sacramentos sejam recebidos por ocasião do matrimônio; a confissão em si é que é recomendada, mas se tira muito proveito fazendo confissões gerais em ocasiões como essas (como a crisma, por exemplo). Ao menos 3 dias antes das cerimônias, os noivos devem confessar e comungar (Conc. de Trento). A confissão geral – para os que desconhecem – funciona da seguinte maneira: faz-se um profundo exame de consciência de todos os pecados cometidos durante a vida – os pecados mortais, em primeiro lugar – mesmo os já confessados. A confissão geral é útil, dá-nos um conhecimento mais exato de nós mesmos, aumenta a humildade e a paz de alma, e obtém-nos de Deus numerosas graças (Catecismo do pe  Francisco Spirago, volume 3). Pode ser a confissão geral de toda a vida ou pode ser uma desde a última confissão geral.

Toda confissão – sempre que possível – deve indicar o número de vezes em que se cometeu determinado pecado. Se você fará uma confissão geral, deve dizer o número assim mesmo – ainda que seja apenas uma vaga idéia. Por exemplo: “eu roubei tantas vezes e com tais agravantes.” Daí, como de costume, se considera no que consiste o mandamento “não roubarás” (fraude, furto, cobrar taxas absurdas ou preço elevado por mercadoria, deixar de pagar dívidas propositalmente, etc), e os agravantes (roubei de pessoas incapazes? da família? da santa igreja? que quantia? etc…). Anota-se tudo num papel, para não esquecer nada.

A Santa Eucaristia recebemos, se possível, todos os dias, como recomendou São Pio X. Como não receber Nosso Senhor no dia em que recebemos o sacramento do matrimônio? Entretanto, há alguns noivos apreensivos, porque se convertem faltando tão pouco tempo para a data, e se entristecem por não poder comungar neste dia! A maioria de nós – pelo menos – foi batizado, mas a primeira comunhão… não têm. Então, eu recomendo vivamente que se fale com o pároco a respeito, ou com um padre que se tenha proximidade, pois é possível fazer a primeira comunhão antes da cerimônia – ainda que faltem apenas 1 ou 2 meses, sem que se precise passar pela catequese convencional.

Festa de casamento?

Motivo de alegria ou preocupação? Lembrança para ficar eternamente na memória, ou ocasião para ser esquecida? Eis as dúvidas. Algumas pessoas me perguntaram a respeito da festa de casamento – qual a conveniência disso, e tudo o mais.

Ora, Nosso Senhor esteve nas Bodas de Caná, e lá acontecia uma alegre festa, onde veio a faltar o vinho. Eis quando Jesus Cristo começou a vida pública por Sua Santa Mãe! Bem, então a festa de casamento é perfeitamente agradável, é bíblica – certo?

Vamos com calma. De fato, a festa de casamento em si pode ser uma alegre comemoração, igualmente abençoada. A princípio é algo bom. Na prática – especialmente hoje em dia – quanta diferença! Por isso, há de se ver o que os noivos entendem por “festa de casamento”, para que não acabem por participar de uma festa completamente inadequada logo após a recepção do sacramento – e muitos são os esposos que se esquecem disso: recebem um sacramento e depois vão se esbaldar numa comemoração irreverente.

Há quem não se importe em ter uma festa onde muitos passam da conta na bebida, as mulheres vão muito imodestas, os homens a certa altura tiram as gravatas, as danças são sensuais, alguém dá escândalo, boa parte sai falando mal - bem, e aí está o quadro da maior parte das festas de casamento. Infelizmente, é quase inevitável. Devido a falta de trato e de bons costumes da maioria das pessoas, é bem difícil que sua festa não termine por ter o mesmo fim. E o que se faz numa ocasião em que todo mundo começa a dançar, a fazer piadas, a pendurar as gravatas na cabeça? Fica-se emburrado, num canto? Ou a gente acaba rindo, sem graça, das piadas de um fulano?

Bem, creio que uma festa assim não é agradável a Deus. É preciso reconhecer que as pessoas hoje não tem religião – muitas vezes nem a nossa família! – e o que elas esperam numa ocasião dessas é beber, dançar e deixar “tudo bem animado” – leia-se perturbar a ordem. Nossa própria conversão é, muitas vezes, motivo de incógnita para as pessoas, que esperam que a gente simplesmente passe a ir à missa aos domingos, tendo a “nossa fé”. Quando se trata de mudar hábitos, conceitos, costumes, escolhas, comportamento… então já não conseguem compreender a “onda de moralismo” que se abateu sobre nós.

Uma bela festa de casamento seria aquela em que as pessoas reconheceriam as grandes bençãos que Deus derramou sobre o casal. Pede-se, em verdade, o mínimo: boa educação, saber portar-se em público, distinção, comedimento, modéstia, respeito. Compare-se isso com sua lista de convidados: que me diz? Acho que a maioria sente que vai investir dinheiro (e muito!) numa festa em que se acabará torcendo para chegar logo o fim. Aconteceu com muitas pessoas que conheço; e a medida que vamos crescendo espiritualmente, vamos compreendendo o quão distante do meramente aceitável está este comportamento mundano que costumam ter as pessoas em geral nas festas.

Ah, mas alguns hão de exclamar: que politicamente correto! – e aumentam a lista dizendo, com um orgulho quase doentio, que não se abstém das coisas do mundo. Quantas coisas são cometidas em nome desse politicamente incorreto, não? Alguns, realmente, trocam os pés pelas mãos. De repente, todo o liberalismo se apresenta como uma forma de “combater” um inimigo invisível – o tal “exagero protestante”. Estas pessoas têm mais medo de meia dúzia de exageros do que da enxurrada de pecados; e, por fim, têm a mesma festa que o casal que procurou a igreja somente para casar, com diferenças imperceptíveis.

Que faria a jovem moça ou o rapaz católico se recebesse a primeira eucaristia hoje? Ou a Crisma? Quem convidariam e quantos fariam questão de presenciar este momento? Nem os mais chegados… e com que constrangimento concluímos que nossa lista de convidados despreza a religião que temos! Este mundo pagão – com pérfidas intenções – macaqueou o sacramento do matrimônio;  transformou-0 numa grande indústria que pretende obrigar as pessoas a desembolsar entre 15 e 20 mil reais para receber as bençãos de Deus! Para mim permanece um mistério porque tantas pessoas fazem questão de ir à casamentos… vamos receber um sacramento da igreja católica- o que, para parte considerável das pessoas, não tem qualquer importância.

Nosso Senhor esteve nas bodas de Caná – e ele estará nas suas bodas igualmente, depois de abençoar o casamento, e também pelo sacramento da eucaristia. Colocou-se tal questão? Não está Nosso Senhor vivo, de corpo, alma, sangue e divindade na sagrada hóstia? Estará a sua festa adequada para tal hóspede? E quanto aos santos? E se lhe fosse possível convidar algumas pessoas virtuosas, como uma Santa Maria Goretti, ou os pais de Santa Teresinha? Como faria o planejamento da ocasião?

Não nos enganemos e – como diz a Sagrada Escritura – não nos conformemos com o espírito deste mundo. Sei que a maioria – muitas vezes por convenção ou por receio de não corresponder às expectativas – gostaria de oferecer uma festa para os convidados, mas eu aconselho a repensar seriamente na possibilidade. Pergunte-se, sinceramente, o que espera deste dia – o dia do seu casamento – e com que espírito pretende receber o sacramento, e como passará o período de ação de graças.

Uma alternativa é – ao invés da festa onde se aluga espaço, etc – realizar uma reunião íntima com a família dos noivos em casa. Pode-se fazer isso no dia seguinte, por exemplo, com um almoço em família.

Espero que estas palavras possam servir de ajuda para o seu casamento! Na próxima parte falaremos do vestido de noiva.

Salve Maria

Em Breve

Essencial para o casamento: o vestido de noiva

 

 

 

Essencial para o casamento: A educação cristã dos filhos

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Muitos pais parecem dispostos a ensinar sobre um Deus que nos ama verdadeiramente – mas poucos têm a mesma disposição que Tobias teve ao ensinar seu filho o quanto deveria evitar o pecado (Tob. I, 10). Ninguém pode pretender educar cristãmente se não está empenhado em fazer com que os filhos cumpram os mandamentos; não se pode ensinar a travar esta batalha decisiva se não se está igualmente na guerra! Eis, portanto, o assunto de nossa terceira parte: fazer dos filhos dignos soldados para Cristo.

A mãe católica ensina sua filha a juntar as mãos em oração para que fale com o querido “Papai do Céu” e lhe agradeça todos os favores daquele dia. Que glória seria se igualmente esta mãe se mantivesse vigilante quando a filha se tornasse uma moça, ensinando-lhe com o mesmo esmero a preservar sua castidade. No entanto, quando a guerra realmente começa, os pais católicos de nossos dias se recusam a entregar as armas aos filhos, e os mandam para a arena onde serão facilmente arrastados para o lado inimigo. “Eis que vos envio como ovelhas no meio de lobos”, disse Jesus, mas Ele enviou igualmente Seu Espírito. “Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, pois Tu estás comigo” (Salmo 23) É, pois, inevitável que se mande os filhos para a selva: fazei deles leões confiantes, pois ainda que morram, viverão (ou seja, aquele que tem a vida da graça, morre e vive eternamente, no Céu).

Que devem os pais ensinar aos filhos? Devem ensinar o Evangelho, que contém a boa nova anunciada pelo próprio Deus. Ensina-se o Evangelho e no mesmo lance ensinam-se todos os mandamentos: é um fato dado. Mas, como convém a pais que desejam ver os filhos atravessarem a porta estreita, ensinem as verdades suaves do Evangelho e também as verdades austeras.

Que significa isso? O professor Plínio Correa de Oliveira, quando escrevia a introdução da obra “Em defesa da Ação Católica”, escreveu: “Na doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo, apraz a muitos espíritos ver apenas as verdades doces, suaves e consoladoras. Pelo contrário, as advertências austeras, as atitudes enérgicas, os gestos por vezes terríveis que Nosso Senhor teve em sua vida costumam ser passados sob silêncio. Muitas almas se escandalizariam – é este o termo – se contemplassem Nosso Senhor a empunhar o azorrague para expulsar do Templo os vendilhões, a amaldiçoar Jerusalém deicida, a encher de recriminações Corozalim e Bethsaida, a estigmatizar em frases candentes de indignação a conduta e a vida dos fariseus.”

Que lhe parece? Ora, os pais ensinam e discorrem sobre o amor de Deus e o amor ao próximo – mas como negligenciam a justiça de Deus, correm o risco de tampouco ensinar o verdadeiro amor de Cristo: “Quem Me ama, cumpre os mandamentos”. Não se pode, pois, pretender viver como cristão com base num perigoso unilateralismo, isto é, ensinar apenas que Deus nos ama, como se Ele igualmente não se importasse com nossa conduta. “A fé sem obras é morta”, diz São Tiago, e ademais Deus estabeleceu Dez Mandamentos e não Dez Recomendações. Obedecemos não apenas para vivermos melhor – pois de fato, se o cristão tem alguma felicidade nesta vida é a de cumprir a vontade de Deus – mas principalmente para amar a Deus como se deve.

Como se há de ensinar os mandamentos de forma eficaz? Os pais devem ser o exemplo, pois “as palavras comovem enquanto os exemplos arrastam”. As ações têm uma linguagem própria, mais eloqüente do que a dos lábios (São Cipriano) e as obras dos pais são os livros em que os filhos se instruem (São Crisóstomo). Ora, vejamos como isso pode ser feito de forma prática:

Vamos supor que a mãe esteja ensinando sua filha a se vestir com modéstia. Ela conversa com a filha, lhe diz que a autêntica cristã deve se vestir com pudor, resguardar sua pureza, que não pode chamar atenção demasiada para si mesma, que tem a obrigação de ser uma moça decente, etc. etc. A filha se vestirá de que forma? Da forma como a mãe se vestir, é óbvio. Pois não terá outra maneira da menina interpretar aquelas palavras, a não ser julgando que a mãe cumpre o que ensina – esteja a mãe bem vestida ou pouco vestida. Portanto, o grande problema de nossos dias não é tanto o que se diz acreditar, quanto o que se costuma fazer. O brasileiro é, em geral, temente a Deus, devoto de Nossa Senhora, um católico! Que costumam fazer esses mesmos tais? Vivem amasiados, trapaceiam, têm vários companheiros durante a vida, vestem-se conforme as piores modas,dançam imoralidades, enfim… no final, não cumprem sequer um dos dez mandamentos!

Disse Santo Ambrósio a uma mãe: “Vigiai cuidadosamente para que o teu filho não veja em ti nem em seu pai o que seria pecado se ele o cometesse.” Assim agem as crianças: consideram como permitido tudo o que vêem fazer em sua casa; daí depreende-se a importância que a família deve ter no trato e nas regras do lar. O caráter das crianças é como um espelho que reflete tudo o que as rodeia (Padre Francisco Spirago); podemos até dizer o mesmo das pessoas em geral. Enquanto crianças, são os filhos como um campo que os pais preparam com tais e tais cuidados; crescem e é a hora de dar os frutos: bons ou maus.

São Gregório Magno, Papa, diz que os pais devem aliar severidade e amor na hora de educar os filhos: severidade demasiada é erro. Aquele que poupa a vara, odeia o filho (Provérbios, 13), mas o martelo não serve para bater continuamente nas jóias, mas apenas para lhes dar uma bela forma, apertando levemente o metal ou fazendo-lhe uma ligeira dobra (Santo Anselmo). Portanto, os pais hão de aprender a maneira correta de bater nos filhos, isto é, não apenas quando bater, mas como bater. Uma família amiga minha consultou um médico para saber que áreas atingir e ele lhe respondeu que a melhor maneira de castigar fisicamente os filhos é da seguinte forma: em primeiro lugar, deve-se dar um sermão sucinto de porque aquela criança irá apanhar daquela vez. Os pais não podem jamais perder a calma neste momento, como se a surra fosse o resultado de uma catarse , pois a verdade é que muitos fazem isto e acabam por ferir a criança, ou mesmo causar sérios acidentes. Depois, pede-se para que a criança ajoelhe e bate-se sobretudo nas coxas, que é área de pouco risco (dos joelhos para baixo não é bom; além do mais, o fato da criança estar ajoelhada protege ela mesma: muitas correm, fogem e colocam outros membros para se proteger, o que pode fazer com que os pais – sem querer – errem o alvo). A intensidade das cintadas ou chineladas deve ser rigorosamente a mesma, para mostrar que os pais estão no controle da situação: nem o primeiro golpe será o mais forte como se os pais estivessem aliviando a raiva que tiveram da situação – nem o último golpe será relaxado, como se o choro da criança pudesse interferir na correção. Este tipo de castigo, obviamente, se destina às faltas graves, sobretudo as morais e as grandes desobediências (revolta, ofensa contra os pais). Os pais devem escolher uma intensidade conveniente para tais ocasiões, pois se escolhem bater leve, retiram o cunho pedagógico do castigo, de modo que a criança pode considerar pouca coisa apanhar.

Dito isto, convém explicar, com Santo Anselmo: “os pais que incessantemente repreendem os filhos, obram com tanta inexperiência como um jardineiro que fecha por todos os lados uma árvore, impedindo-a de desenvolver os ramos “. Não é correto, portanto, aplicar os castigos físicos por qualquer coisa à toa; nem perseguir os passos da criança para, à mínima falta, dar-lhe sermões. Os valores não podem ser ensinados somente por ocasião das faltas – os sermões não precisam ser tanto remédios como prevenções. Daí a importância de uma boa literatura (como os contos de Grimm, que trazem lição de moral, ou o Livro das Virtudes) além do catecismo: por historinhas se explica aos filhos o porque de não se ter determinadas condutas.

São Crisóstomo disse que os pais que desprezam a educação dos filhos são piores do que assassinos: estes matam o corpo, os pais a alma. Atualmente – quando há preocupação em legar alguma coisa aos filhos – os bens materiais são o único objetivo dos pais. Agindo assim, parecem loucos que erguem uma mansão para um defunto… é bastante lamentável o ponto em que chegamos, mas os pais só podem oferecer aquilo que possuem, e a maioria não sabe para que lado se caminha quando se quer atingir a verdadeira paz, que é Nosso Senhor.   Muitas vezes Deus castiga severamente na terra os pais que têm educado mal os filhos, e em geral os próprios filhos são instrumentos deste castigo (Catecismo do Pe. Francisco Spirago). O rei David não punia as faltas de seu filho Absalão, por conta do amor demasiado: pois este filho se revoltou contra ele. Os pais que educam mal os filhos não têm a esperar coisa alguma boa depois da morte; serão tratados como ímpios (ver a primeira carta de Timóteo, capítulo 5). Com tantos avisos, há pais e mães que vivem como querem e  deixam o mundo tomar conta de suas crianças – quando lhe perguntam se falam de Deus, os pais respondem com orgulho “mas é claro!“, e corre-se até mesmo o risco de ofender tão devotas pessoas. Olhemos de perto a situação familiar: Deus está ali presente em doses homeopáticas; como um conta-gotas colhendo no oceano pequenas máximas (um pai-nosso aqui, uma missa de ano em ano).

Nada pode dar mais alegria à mãe ou o pai do que ver o filho crescer em graça, honestidade e temor de Deus! Quais as principais queixas das pessoas que se convertem depois de adultas? Conflito com os pais. Como estes não ensinaram aquilo que tinham a obrigação (e isto está inscrito nas almas, é impossível não saber), há uma resistência muito grande em aceitar que os filhos agora queiram viver sob o jugo de outra moral – a moral por excelência, que cobra e exige de todos: Jesus Cristo. Que isso não aconteça contigo e com teus filhos: não inverta a ordem natural das coisas, e dê uma educação verdadeiramente católica, onde Nosso Senhor e Sua Santa Mãe estejam sempre presentes.

 

Próxima Parte:

Essencial para o casamento: as cerimônias


Essencial para o casamento: os deveres dos esposos

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*Lembremos que o matrimônio é uma instituição divina: Jesus Cristo o santificou já por ocasião de sua presença nas bodas de Cana, quando começou a pregar sua doutrina.Aqueles que se casam devem cumprir com suas obrigações, e os que se esquivam ou desempenham mal seus deveres serão duramente cobrados. Com as graças do sacramento vêm os deveres – e é deles que haveremos de falar nesta segunda parte.

A mulher deve respeitar e obedecer seu marido, porque este é, na família, o representante de Deus. O Apóstolo, na primeira carta aos Coríntios, descreve com precisão a superioridade do marido: o homem foi criado primeiro e a mulher foi-lhe dada como companheira. Se dizemos que o homem é a cabeça da família, dizemos igualmente que a mulher é como que o “corpo”.

É o corpo que obedece a cabeça, e não o contrário; mas seria absurdo pensar no homem que ousaria fazer mal a seus membros: destruiria a si mesmo. Ademais, a mulher foi criada da costela do homem: não foi nem da cabeça (para que não mandasse nele) e nem dos pés (para que não fosse sua escrava). A costela fica perto do coração, e isto prova que homem e mulher têm igual dignidade perante Deus: é o coração o símbolo da vida, e homem e mulher formam uma só carne porque ela lhe completa o que lhe foi retirado.

Obedecer ao marido é dever da esposa. Santa Rita de Cássia foi a testemunha escolhida por Deus para que não restasse dúvidas a que grau de perfeição isto pode ser elevado. Como a Igreja é Mãe, deixa-nos a perfeição para indicar que a eternidade acolheu a mulher por isto – de maneira que o Céu não pode acolher ontem o que será revogado amanhã: para Deus não há passado ou futuro, mas um único presente. Mas a Mãe também olha para o fato de que nem todas podem ter a virtude de Santa Rita – e por isto permite que a mulher que sofre maus tratos possa separar-se do marido: tal separação é apenas física. O laço continua indissolúvel, e nenhum dos cônjuges pode ter qualquer relacionamento enquanto o outro estiver vivo; ademais a separação física, na medida do possível, deve tender sempre ao perdão e à reconciliação. A mulher, devido a natureza fraca, tem o direito de ser tratada respeitosamente (I Pedro, III, 7)

A compreensão da santa submissão da mulher ao marido é, antes de tudo, a compreensão da vontade divina e do pecado original. Foi apenas depois da queda que Deus mandou que a mulher obedecesse ao marido (Gen III, 16). Para que a submissão seja santa, homem e mulher precisam cumprir com suas obrigações. Por um lado, a mulher que se revolta com este estado torna-se uma insurrecta, que mais se preocupa com o que a modernidade toma por “submissão” do que com as indicações da Igreja. Por outro, o homem que usa seu direito de mando para maltratar a esposa, faz mal a si mesmo e não a ela.

Ora, se a família é devota, temente a Deus, cumpre os mandamentos – então amará a ordem estabelecida por Deus. O homem, por seu lado, deve dirigir sua família e ser o protetor dos membros fracos (isto é, a esposa e os filhos). Lembremos das virtudes de São José, exaltadas na ladainha em sua honra: é ele o protetor da Virgem – e embora, por certo, toda a corte celeste pudesse vir em defesa de Maria, foi a este casto homem que Deus entregou a responsabilidade de proteger a Mãe de Deus. E Deus o fez porque sua ordem é perfeitíssima: o que serve para o mais ordinários dos homens, serviu para a mais extraordinária das mulheres, Maria Santíssima!

Estando claro que é o homem que dirige a família – e não a mulher – dizemos, no entanto, que o matrimônio é uma instituição que tem na mulher o coração de sua existência (comparemos, etimologicamente, as palavras matrimônio e patrimônio: a primeira denota que a mulher prevalece, a segunda, o homem). A mulher é o Sol da família: sem ela, os membros ficam entregues à própria sorte, e são como cegos que guiam a si mesmos. É bem verdade que é possível aprender a orientar-se quando falta a visão, mas a luz continua faltando aos olhos. Da mesma forma acontece com o lar do qual a mãe está ausente; e atualmente há muitas mães que, infelizmente, escolhem se ausentar.

A mulher deve cuidar do lar, assegurando que tudo esteja na mais perfeita ordem; deve ela ser a responsável por oferecer aos membros da família um ambiente digno. É o marido que traz o sustento financeiro – mas isto de nada adiantaria se a mulher não aplicar seus esforços para transformar o orçamento num lar. Quantas e quantas casas estão entregues à desordem porque a esposa não é sua sentinela? Vê-se casas com computadores, grandes televisores, etc. – mas emergidos em sujeira, faltando itens de necessidade básica! Ser dona-de-casa é muito mais do que limpar os móveis, lavar os pratos… estas pequenas coisas, na maioria das vezes divididas com os filhos a medida em que estes crescem, podem ser também co-realizadas por uma empregada doméstica, por exemplo – mas isto em nada subtrai a função de dona-de-casa da esposa que deve ser a rainha do seu lar. A sua presença é insubstituível, e o ambiente em que crescem os filhos ajuda a moldar o caráter.

O marido, por sua vez, tem a obrigação de chefiar a sua família e trazer o sustento para os seus membros. São José, humilde carpinteiro, sustentou uma Rainha e um Rei. Eis a prova de que Deus não deixará de amparar o homem na nobre tarefa de cuidar dos seus: esteve Ele próprio dependendo do pão de cada dia que o casto esposo da Virgem trazia diariamente de suas fadigas. Tendo o casal muitos ou poucos filhos, deverão adequar o estilo de vida à realidade financeira. É certo que o casal que só tem 1 ou 2 filhos pode oferecer certos luxos para as crianças: coisas desnecessárias, que mais deseducam que contribuem para a boa formação do indivíduo. Mais do que garantir um grande número de coisas supérfluas, vale ensinar a criança a dividir o pouco que tem com os irmãos! O homem tem a obrigação de trabalhar honestamente para garantir o sustento da família; de que maneira este sustento poderá ser organizado, depende dos esforços dos pais e do número de filhos que vierem.

Com isto esperamos esclarecer aos esposos que não tomem para si qualquer realidade pré-moldada de uma classe média consumista e atéia. Não devem os noivos casar já sonhando em ter tais e tais bens; tomando para os seus um alto padrão de vida; pensando nos mais tradicionais e caros colégios que a cidade oferece; nas viagens ao exterior que farão nas bodas vindouras. Se Deus mandar muitos filhos, há de se adequar a nova realidade, tendo aquilo que a condição permitir.

O marido – dissemos na parte anterior – ama a esposa com um amor santo. Não pode, portanto, amá-la de tal modo que caia na idolatria – isto é, como muitas vezes apregoa o mundo nestes relacionamentos desvairados. Há muitos esposos que gostam de exibir a mulher como troféu de caça, tendo fixação por sua aparência física, criando nela soberba e construindo o amor em cima de terreno arenoso. Isto, mais cedo ou mais tarde, há de se voltar contra ambos: nenhuma mulher pode ser submetida à pressão de ter um marido que tem prazer por exibi-la aos outros sem criar no íntimo uma vaidade doentia, que acaba por revelar suas mais terríveis facetas quando a idade avança. Não é desta forma que os esposos devem se relacionar, embora para nós o esposo ou a esposa de fato pareçam doces criaturas! Admira-se a beleza, mas sobretudo as virtudes espirituais, que é o verdadeiro ornamento dos cristãos.

O amor do marido para a sua esposa – diz São Paulo – deve ser como Cristo amou a Igreja. Que fez Nosso Senhor? Morreu por nós, foi espancado, cuspido, humilhado e crucificado. Que suportou? Todos os sofrimentos – a despeito de nossos pecados – para nos salvar. Da mesma forma, o marido ama a esposa: luta, sofre, se arrisca e está disposto a morrer por ela. Saber que teu marido – ó esposa! – a ama de tal forma não faz com que o ame igualmente? Afinal, a Igreja ama Jesus Cristo, é seu Corpo Místico. Então, maridos: escolher uma esposa para o matrimônio é ser-lhe amável; é eterno.

A obrigação de ser o chefe de família, atualmente, é coisa muito árdua. Os moços são geralmente educados na moleza, na dependência, na irreverência. Pode ser mais difícil para o homem de nossos dias chefiar do que a mulher obedecer. É preciso sabedoria e dedicação para ser o guarda fiel da família: o homem deve ter grande amor à religião para compreender o seu papel e mandar com benevolência e firmeza; da sua fidelidade à esposa e aos filhos pode depender não apenas a sua salvação, mas a de todos. Esta fidelidade não é apenas conjugal, mas de princípios: o homem deve ter um caráter sólido, o que não é possível tê-lo sem a vida da graça; que lástima é para a família cujo chefe tem certeza de pouca coisa e não se preocupa em ser coerente com suas decisões. Tais são os casos dos pais de família que mandam umas coisas para os filhos e depois desmandam; respondem às dúvidas das crianças sem qualquer interesse na matéria; relegam à mulher as decisões que lhe cabem em primeiro lugar. A esposa pode e de fato é a responsável por muitas das escolhas da família, mas estas escolhas precisarão ter o aval e o sim categórico do esposo – caso contrário, não podem se realizar.

A obrigação de educar cristãmente

Se os filhos são criaturas de Deus destinadas a mais alta felicidade no Céu, os pais – rigorosamente falando – não são mais do que servos; deverão regular-se pela vontade divina na educação dos filhos. (Catecismo do padre Francisco Spirago, volume 3) Os pais devem ter bem clara a obrigação de ensinar o catecismo, as orações, o temor e o amor de Deus, etc.

Os cuidados dispensados aos filhos são: evitar que a saúde dos mesmos seja prejudicada; alimentá-los e assegurar-lhes o futuro. O futuro dos filhos é principalmente a pátria celeste, onde deverão passar a eternidade com Deus. Em segundo plano está a garantia de um patrimônio – ao menos um lar onde repousar a cabeça, o trabalho e o estudo. “Não são os filhos que devem entesourar os pais, mas os pais para os filhos” (II Cor. XII, 14). Os pais precisam observar se os filhos caem em qualquer espécie de excesso, isto é, se tem inclinação para vícios, manias, egoísmos, etc. Quanto à alimentação, deve estar dentro da dignidade, o que parecerá óbvio (mas quantas mães deixam os filhos comerem porcarias, e desnutridos, embora até gordos!).

Os pais também têm a obrigação de rezar pelos filhos. “Os pais devem falar muitas vezes de Deus para os filhos, e a Deus dos filhos.” (São Francisco de Sales). Quanto a certas regras básicas da educação católica, eis algumas importantes:

- Devem batizar logo após o nascimento: o mais cedo possível, até mesmo no dia em que a criança vem ao mundo. Evita-se assim que, vindo uma desgraça, a criança morra sem poder entrar na pátria celeste. A criança que é logo batizada recebe o Espírito Santo, e não há razões para os pais adiarem este encontro por tantos dias!

- Devem instruí-los na doutrina católica: desde o primeiro “papai e mamãe do Céu” até o catecismo básico (quem é Deus, para que nos criou, para onde vamos depois da morte, como seremos julgados, o que devemos fazer para cumprir os mandamentos, etc.). Devem ensiná-los a rezar o terço, confessar, prepará-los de modo conveniente para a comunhão – e dedicar especial atenção para fazê-los entender a vontade de Deus, sobretudo em época terrível como a nossa, que nega a existência do Criador e procura destruir a Santa Igreja.

Leia mais sobre a educação cristã dos filhos na terceira parte: Essencial para o casamento: educação cristã dos filhos

Essencial para o casamento: O Sacramento

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Eis porque preparei esta série de textos “Essencial para o casamento”: tal como a criança deve conhecer o catecismo básico para receber a comunhão, da mesma forma os noivos precisam de um catecismo básico acerca do matrimônio. Quando as famílias eram a doutrina viva sobre este sacramento, muito se lucrava com as lições cotidianas da vida conjugal – mas atualmente o número de exemplos a nosso desfavor é elevado. O sacramento nos confere graças, e por isso convém estar bem preparado para tal. Uma criança que se preparasse para a primeira comunhão sem saber que receberia Jesus Cristo se assemelha aos noivos que se casam sem saber que recebem uma cruz.

Visão geral 

Com razão disse Santo Agostinho: “O que o alimento é para cada um de nós, o matrimônio é para todo o gênero humano”, e isto porque a principal finalidade do matrimônio é a educação conveniente dos filhos. Ora, poderia haver boa educação se não houvesse igualmente um laço indissolúvel entre o homem e a mulher? Como haveria de se educar a criança cujos pais vivessem o amor livre? Para constatar, basta olhar para a sociedade atual, posto que o amor livre nada mais é que a sucessão de relacionamentos desfeitos, os inúmeros parceiros durante umas poucas décadas de vida.

Prestemos igualmente atenção ao fato de que a educação dos filhos é a finalidade principal do matrimônio (1). E o que é educar? Educar é conduzir os filhos a Jesus Cristo (S. Carlos Borromeu), uma vez que eles são dons de Deus. Comecei a dividir com vocês o que venho aprendendo sobre a educação dos filhos, mas convém acrescentar alguns pontos (embora anteveja falar-lhes sobre o assunto ainda muitas vezes). Deixemos que os santos e papas nos introduzam o assunto, pois a severidade deles impõe-nos abandonar as más disposições.

O papa Bento XIV afirmou que os pais que não ensinam aos filhos os princípios da religião expõem-se a condenar-se eternamente; e com maior rigor Santo Afonso de Ligório acusou de pecado mortal os pais que, sem razão grave, adiam o batismo dos filhos por mais de 10 dias. Os pais são apóstolos dos filhos, e os bons exemplos ensinam melhor que os discursos. Por isso, São Francisco de Assis saiu para pregar o evangelho sem proferir uma palavra, mas apenas caminhou pela cidade por algumas horas: tal é o poder de nossas ações. Isto se chama apostolado de presença – e erram os pais que, modernamente, encontram muita facilidade em entregar a outrem a educação de sua prole. Disse o apóstolo São João que a educação dos filhos pode ser causa de maior tristeza ou maior alegria, conforme os filhos tenham sido bem ou mal educados (II S. João, 3, 4).

A educação dos filhos pertence principalmente à mãe, uma vez que ela passa a maior parte do tempo com eles. O pai e a mãe complementam um ao outro, e a felicidade eterna – isto é, o Céu – dos filhos depende também da educação dos pais. Por isso Timóteo (I Tim, V,8) disse que “se alguém não tem cuidado dos seus e principalmente dos da sua casa, renegou a fé e é pior do que um infiel”. Em contrapartida, se os pais educam bem suas crianças poderão comparecer diante de Deus e repetir com São João (XVII, 12): “Guardei os que me deste e nenhum deles se perdeu”.

Mas vejamos quais as outras finalidades do santo matrimônio: o amparo mútuo dos esposos e evitar os pecados de que fala o Apóstolo na primeira Carta aos Coríntios. Discorramos, pois, o mínimo que seja sobre o primeiro destes: com amparo mútuo se quer dizer que os esposos ajudarão e amarão um ao outro para o resto de suas vidas. O casamento foi feito indissolúvel já na ocasião em que Deus criou Adão e Eva, e Jesus Cristo, sendo Deus, instituiu-o como sacramento (2). Com que tristeza vemos as pessoas dispensarem a mútua ajuda. Assim como o sacramento do batismo permanece nos apóstatas, da mesma forma o matrimônio permanece naqueles que se divorciam e se “casam” com outros. Poderíamos fazer uníssono com o Credo: “Creio num só batismo para a remissão dos pecados e num só matrimônio perante o Altíssimo”.

Admitir que o homem poderia separar-se de sua legítima esposa seria tal absurdo como afirmar que Jesus Cristo poderia separar-se de sua Igreja: há uma só Igreja que é a esposa de Cristo, e há para cada homem, uma mulher. Não pode haver religião que ame mais as mulheres que a católica, posto que nas outras ela não é senão uma escrava. As muçulmanas sequer entram no “paraíso” pregado pelo Islã; e quase a totalidade das seitas cristãs aceita o divórcio e outros casamentos. Jesus é o chefe da Igreja Católica, e cada homem o chefe de sua família.

O marido tem o direito de mandar na sua esposa, mas deve faze-lo com bondade, doçura e indulgência, lembrando-se de que a esposa é de condição igual a dele (Catecismo do Pe. Francisco Spirago, vol. III).  A esposa, por sua vez, deve auxiliar seu marido, esforçando-se para tornar sua vida agradável. O lar doméstico deve ser tão aquecido que em tudo facilite a virtude do homem, sobretudo em épocas tão escandalosas como a nossa, em que as desgraças vendem-se em cada esquina. Como Cristo ama a Igreja, o marido deve amar a mulher – esta o ama pela mesma razão. É portanto santo o amor entre os esposos, o que lhes confere o dom de sofrer com paciência as contrariedades do casamento. Nenhum matrimônio pode durar se não houver as graças de Deus – eis porque temos tantos divórcios! Santo Agostinho disse que o matrimônio é um laço de ferro e São Francisco de Sales que “deve a alma separar-se primeiro do corpo que o marido de sua companheira”.

Com relação a evitar os pecados de que nos fala São Paulo, disse São Bernardo: “quem condena o matrimônio solta as rédeas à luxúria”. Os homens que demoram tempo demasiado em casar facilmente tornam-se escravos do pecado. As mulheres, por sua vez, embora em geral menos propensa a esta espécie de problemas, podem cair em depressão se não vem logo o noivo. Implorai do Céu que venha o noivo ou a noiva, pois aquilo que pedimos a Deus por amor à vocação é certamente atendido.

Que dizer das graças do matrimônio? O sacramento aumenta a graça santificante, e ganha-se igualmente o que é necessário para suportar as intempéries dos longos anos de convivência – sem que isto signifique falta de sofrimento. Ao contrário: recebe-se as graças para guardar a mútua fidelidade e para enfrentar as grandes dificuldades do casamento – mas quanto aos sofrimentos, é certo que serão muitos (o que, aliás, constitui o longo caminho de santificação dos esposos). Mais certo do que o Sol haverá de levantar-se todos os dias, são as cruzes que acompanham todos os matrimônios.

Os esposos, se procuram ser santos e cumprir a vontade de Deus, são como penitentes por toda a vida.

Sobre os deveres dos esposos, devo falar de maneira pormenorizada na segunda parte: Essencial para o casamento: os deveres dos esposos.

(1) “(…) o matrimônio, como instituição natural, em virtude da vontade do Criador, não tem como fim primário e íntimo o aperfeiçoamento pessoal dos esposos, mas a procriação e a educação da nova vida.” Pio XII, Discurso aos Esposos – 29 de outubro de 1951

(2) Do Catecismo Popular e Inspirado do Pe. Francisco Spirago, vol. III.

Parte 2- Preparação para o matrimônio: Ser Mãe e Educadora

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Continuando a dividir a minha preparação para o matrimônio – enquanto ele se aproxima! – gostaria de refletir com vocês o papel de mãe e educadora. Como ainda não sou mãe, não falo com esta sábia experiência, mas antes compartilho o meu processo de aprendizagem. Não dizem que a educação da mãe começa 20 anos antes que venham os filhinhos?

Começamos, na parte anterior, estabelecendo que a vocação da mulher é a maternidade, e a maternidade santa – uma vez que fomos feitas para o Céu, tendo Nosso Senhor nos resgatado pelo sangue e pelo batismo. Agora, aprofundaremos mais esta belíssima vocação, e vejamos algumas questões que tocam esta qualidade de “educadora”.

Ser Mãe e Educadora dos filhos

Nenhuma mãe pode se eximir de educar suas crianças. Cabe a ela ensinar as virtudes e os mandamentos, incutindo no filho o amor incondicional a Deus. Contou-me uma amiga que um padre, depois de batizar seu bebê, olhou para ela e disse: “Olhe como a sra está recebendo esta criança, e veja como a devolverá para Deus!” . Que chamado! Os pais são grandes responsáveis pela educação dos filhos, e como tal serão cobrados. Esta responsabilidade, embora de ambos, não são idênticas – e isto é próprio da natureza de cada um. Tal foi a vontade de Deus quando instituiu a família: que mulher e homem tivessem uma participação de mútua ajuda e amor na criação, cada qual desempenhando sua função de educador. Na educação dos filhos, tem um papel primordial a mãe [1], e é por esta razão que sua presença é tão indispensável e insubstituível, como disse o Papa. [2]

Quando se fala em presença insubstituível da mãe no lar, trata-se, portanto, de uma presença física e espiritual. A mulher, ao reconhecer sua vocação no plano divino, precisa abraçar seu chamado e corresponder às graças com todas as forças de que dispuser. A recusa à maternidade santa não se faz apenas fechando-se à vida (evitando assim que os filhos venham ao mundo), mas também eximindo-se da educação dos filhos, tratando-a como mero acessório, ou entregando a responsabilidade a outros. Há mães que, embora estejam em casa durante todo o dia, interagem muito pouco com a criança, deixando-a na frente da televisão por horas a fio, não mantendo diálogo, nem dando bons exemplos. Isto não é educar! É preciso que as mães católicas se aproximem novamente da sua vocação e busquem aprender cada vez mais sobre como doar a si mesmas às criaturas que Deus lhe encarregou de velar. Para tal, é preciso que a mãe tenha profunda vida de oração (como vimos, muito antes que os bebês nasçam), que freqüente os sacramentos, que procure se formar para desempenhar a função da maneira que dê mais glórias a Deus.

Ora, a mídia, a publicidade, a literatura e todos esses meios, o que dizem da família? Como retratam a mãe? Eis o quadro: lares desestruturados, traições, separações, pais mais ocupados consigo mesmos que com os filhos, mães que preocupam-se mais com o trabalho… eis os exemplos de que dispomos! Alguma família rezando o rosário? Algum pai ensinando o valor de uma santa missa? Alguma mãe dando catecismo? Nada disso. No lugar, mães e pais ausentes, filhos perdidos no meio da péssima educação escolar e atéia que recebem – além de estarem completamente afundados na cultura pop. Se seu filho consegue lhe dar mais informações sobre o herói do anime do que sobre Jesus Cristo, passou da hora de se preocupar.

Com este ritmo de vida frenético de nossos tempos, nossos dias parecem divididos em tantas etapas quanto os horários numa agenda. Uma jovem moça cursa faculdade de comunicação durante um turno, trabalha meio período prestando serviço de atendimento ao consumidor por e-mail (para uma agência), faz academia 3 vezes por semana, curso de francês aos sábados, além de dedicar quase todo o tempo livre do final de semana ao noivo, que mora numa cidade vizinha. Aproveita os intervalos da semana para estudar as matérias. Pergunto a ela como será quando se casar, quando os filhos vierem, ao que responde: “Dá tempo suficiente. Vou me organizar direitinho!”

O Papa Bento XVI disse: “O nosso mundo se tornou totalmente positivista, no qual Deus entra em jogo no máximo como hipótese, mas não como realidade concreta“. Neste mundo, que considera Deus hipoteticamente, ocupar-se com as coisas da religião é algo de uma importância reduzidíssima, de modo que a constituição do mundo não pode prever Deus senão nos intervalos entre uma função desempenhada na sociedade e outra, entre um afazer e outro. Isto, é claro, para os que têm religião. É quando a mãe não se vê como mãe católica em tempo integral, é quando a própria pessoa não consegue conceber sua missão como batizado em todos os momentos de sua existência. O cumprimento das promessas do santo batismo, então, se vê reduzido à uma oração diária, à uma missa semanal, à uma festa do padroeiro.

Por razões semelhantes, muitas mães acabam por enxergar a própria contribuição enquanto educadoras de maneira superficial: talvez por isso acreditem sinceramente que a parte que lhes cabe pode ser desempenhada sem que a agenda inicial seja alterada a ponto de se desistir de alguma coisa. O fato é que a sociedade, assim como em nada favorece a prática da religião, em nada favorece a maternidade! A mulher que é mãe não encontra uma realidade concreta pronta a acolhê-la, a louvá-la, a garantir em tudo sua alta dignidade nos planos de Deus. Por um lado, a sociedade ridiculariza a mulher que dedica-se inteiramente às funções de esposa, mãe e rainha do lar, estigmatizando-a. Por outro, tal como está organizada e configurada, a sociedade não oferece as mínimas condições necessárias para que a mulher possa desempenhar outros papéis – quer profissionalmente ou socialmente – sem causar danos à maternidade.

A mãe educadora e os desafios da sociedade contemporânea

Em outubro de 2004, por meio de uma intervenção da Santa Sé sobre os direitos da mulher, [3] estas questões foram abordadas de maneira significativa. Reconhecer que a mulher deve ter aberta as possibilidades de promoção intelectual e profissional  passa longe de afirmar que a sociedade atualmente se organize de tal maneira que não fira sua feminilidade e maternidade. Neste quesito, todas as mulheres sofrem as duras consequências de um mundo que não reconhece nem promove suas reais necessidades: a mãe em tempo integral, a mãe que necessita do trabalho fora do lar, a mulher que – sendo chamada por Deus a dar testemunho fora da vocação matrimonial – necessita prover, muitas vezes, seu sustento sozinha. A intervenção destaca que “Como consequência da contribuição vital que recebe da maternidade, a sociedade deve assumir várias obrigações em ordem a apoiar as mulheres que são mães (…)Uma vez que uma mulher deu à luz, o apoio da sociedade deve reflectir-se na oferta de opções legítimas, que tomem em consideração as múltiplas funções e interesses das mulheres. Isto quer dizer que se deve reconhecer o valor do trabalho das mulheres que optaram por permanecer nos seus lares, para educar os seus filhos como um trabalho a tempo inteiro. (…) Finalmente, a sociedade deve assegurar que as mulheres tenham liberdade de escolher trabalhar no lar, procurando garantir a remuneração familiar do único assalariado, para que as mães não se vejam forçadas a trabalhar fora de casa. [4]

Na prática, nenhum esforço está sendo feito para garantir que a mãe tenha total liberdade para permanecer integralmente no seu lar. Ao contrário, há uma força deliberada para que a mulher permaneça a maior quantidade de tempo possível fora de casa, por razões econômicas e ideológicas.   A atual jornada de trabalho – 8 horas diárias, sem contar o tempo de almoço e de deslocamento – oferece uma sobrecarga até para o pai de família, que se vê com pouquíssimo tempo para passar junto dos seus – que dirá a mãe, que tem por obrigação primordial velar pelo seu lar e pela educação dos filhos. Nestas circunstâncias, não é possível para a mãe se submeter a esta lógica mercadológica e ao mesmo tempo cuidar dignamente de sua vocação perante Deus. Como afirma o Papa João Paulo II, «a verdadeira promoção da mulher exige que o trabalho seja estruturado de tal maneira que ela não se veja obrigada a pagar a própria promoção com o ter de abandonar a sua especificidade e com detrimento da sua família, na qual ela, como mãe, tem um papel insubstituível” [5]

A promoção deste aspecto da vida da mulher está longe de ser alcançada. [6] Claro está que as condições de trabalho não podem ser as mesmas para homens e mulheres. [7] Com toda esta distância, torna-se utópico falar de um mercado de trabalho competitivo que respeite a maternidade, e ainda mais a maternidade santa, que tanto exige dedicação da mulher católica. É neste momento que entra um ponto significativo da sociedade moderna: de fato, esta sociedade deseja a mulher no mercado de trabalho – desejo que foi engendrado na destruição e no enfraquecimento da instituição familiar, e em prol da diminuição do número de filhos. É próprio dessa sociedade, portanto, o não-favorecimento da maternidade, está em seu gênesis (o esforço iria em contrário, e aniquilaria a si mesmo). A maternidade, financeiramente falando, custa caro. É caro para a empresa manter um quadro de funcionárias que invariavelmente precisarão de licença por 6 meses, recebendo salário, sem que vejam nisso qualquer retorno econômico. Isto já custa alto, e está muitíssimo distante do meramente aceitável.   Mais caro ainda é oferecer carga horária reduzida. Nos esforçamos bastante para entender o que seria, no plano teórico, um mercado que reconhecesse a dignidade da mulher que é mãe. Seis meses é tempo para se deixar um bebê que ainda está sendo amamentado? Sabemos que não.  E quando se lhe ajuntam a prole numerosa? Sabemos, com a Igreja, que “Pela relação especial que a une à criança, sobretudo nos primeiros anos de vida, ela [a mãe] oferece-lhe aquele sentido de segurança e confiança sem o qual seria difícil desenvolver correctamente a própria identidade pessoal.[8]

Levadas pela ideologia – o que difere de uma razão legítima que tenha a mãe de família para trabalhar neste regime absurdo- muitas mulheres perdem a si mesmas, tendo o discurso da satisfação profissional comprado-lhes a alma, e tudo se põe na frente dos divinos preceitos! A distância do lar que tal configuração do mundo contemporâneo exige não permite as mães educarem seus filhos nem mesmo com o mínimo – tantos são os prejuízos impostos a esta mulher para além de sua ausência neste período. Por isto se diz que a mulher só deve submeter-se ao trabalho em caso de necessidade urgente e inevitável. Fala-se em mercado de trabalho, para se diferenciar do trabalho que a mulher sempre exerceu, dentro dos muros do lar,  (enquanto administradora de uma economia doméstica complexa ou nos negócios de família, por exemplo) ou até mesmo fora dele (em profissões, cargos e horários que não lhe roubavam a dignidade de mãe), levando em consideração as circunstâncias e a necessidade econômica . Tais são os casos das inúmeras profissionais que sempre tivemos ao longo da história, como enfermeiras, costureiras, professoras, etc. Santa Gianna foi exemplo claro disso: médica, e como consta em sua biografia, continuou a exercer belíssimamente sua profissão, atendendo gratuitamente as criancinhas do primário e no jardim de infãncia - voluntariamente e conforme sua disponibilidade de mãe lhe permitia.

Reverterá em honra para a sociedade o tornar possível à mãe — sem pôr obstáculos à sua liberdade, sem discriminação psicológica ou prática e sem que ela fique numa situação de desdouro em relação às outras mulheres — cuidar dos seus filhos e dedicar-se à educação deles, segundo as diferentes necessidades da sua idade. O abandono forçoso de tais tarefas, por ter de arranjar um trabalho retribuído fora de casa, é algo não correcto sob o ponto de vista do bem da sociedade e da família, se isso estiver em contradição ou tornar difíceis tais objectivos primários da missão materna“. [ Papa João Paulo II] [9]

Certa garantia para que a mulher tenha livre acesso as instâncias que enriqueçam seu desenvolvimento intelectual e social – como formação univesitária, concursos públicos, empregos em geral – é algo que, enquanto mais uma possibilidade de desenvolvimento de seus dons femininos, pode oferecer à mulher, em certas épocas e fases de sua vida, uma contribuição benéfica. [10] O problema fundamental que se levanta é a impossibilidade dessas mesmas instâncias oferecerem alternativas viáveis quando a mulher se torna mãe. Dando meu testemunho, curso o último período numa Universidade Federal. Até dois ou três anos atrás, a estudante que tinha dado a luz à uma criança ganhava o direito de cursar o semestre a domicílio, isto é, poderia se matricular nas matérias regulares e desenvolver as atividades em casa , de modo que até mesmo um orientador aplicava as provas no lar. Não existe mais este direito: ou ela tranca completamente o curso, ou continua a estudar- prejudicando assim o desenvolvimento de seu bebê.

A mulher deve concorrer com o homem para o bem da ‘civitas’, na qual é igual a ele em dignidade. Cada um dos sexos deve ocupar-se da parte que lhe diz respeito segundo a sua natureza, o seu carácter, as suas atitudes físicas, intelectuais e morais. Ambos têm o direito e o dever de cooperar para o bem total da sociedade, da pátria; mas está claro que se o homem é, por temperamento, levado a tratar das ocupações exteriores, dos negócios públicos, a mulher tem geralmente falando, maior perspicácia e tacto mais fino para conhecer e resolver os problemas delicados da vida doméstica e familiar, base de toda a vida social; o que não exclui que algumas saibam dar mostras de grande perícia em todos os campos da actividade pública”, afirmou o Santo Padre Pio XII. [12]

A organização da sociedade ainda encontra coágulos sadios face à ideologia competitiva entre homens e mulheres, que procura em vão igualar seus esforços de maneira altamente prejudicial. Mães desenvolvem suas habilidades profissionais dentro dos muros do lar, trocando as empresas privadas e públicas – da qual não escapam da dura e maléfica distância dos filhos – por escritórios familiares, a um passo das crianças, e são elas mesmas que organizam seus horários, de acordo com suas necessidades. Uma mãe conta que, após os filhos terem entrado na idade da razão, freqüentando todos a escolinha (com a qual ela não concorda, pois preferia poder educar os filhos em casa), encaixou seus horários de professora de francês numa escola pública. Quando apanhava seus filhos na escola, era toda deles para educá-los. Vindo, pela graça divina, mais um bebê, dava suas aulas particulares na sala de casa, onde podia amamentá-lo e acompanhar seus passinhos e o balbuciar de cada palavra, anotando num livro quando ele aprendia um arremedo novo de palavra. Em 3 anos preenchendo os progressos de seu bebê diariamente, traduziu dois livros do francês para o português, e foram publicados. Há de se observar que mesmo nos coágulos não se deve descuidar da vocação primordial e santificante, que é a maternidade.

A mulher que se dedica inteiramente à vocação nos planos de Deus é a preocupação central do debate da Igreja frente aos problemas da atualidade. Por continuar vendo neste o caminho perfeito para o cumprimento das exigências do Criador, não pode deixar de afirmar os inúmeros prejuízos trazidos ao lar do qual a mãe se afasta. [13] A civilização, outrora construída cristãmente, não precisava exigir de si mesma tais condições: favorecia a salvação das almas em todos os âmbitos. Não se trata, portanto, de substituir ou mesmo de igualar em dignidade uma possível “expansão” de dons, por parte da mulher no plano social,  com a vocação feminina por excelência, que vem a ser a maternidade, o cuidado com o lar e os deveres de esposa. Estes últimos, por constituírem o plano de salvação para a mulher católica que recebe o sacramento do matrimônio, representam o valor imensurável do sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo derramado no calvário, quando Ele resgatou a mulher proferindo Suas Santas palavras: “Eis aí a Tua Mãe!”.

Educar para a Pátria Celeste

Eis as palavras de um santo: “aqueles que não se ocupassem bastante de seus flhos, embora fossem piedosos e regrados pessoalmente, sujeitar-se-iam, por esta única falta, a mais formidável condenação” (S. João Crisóstomo). Não somos chamadas a incluir as “atividades” de mãe numa agenda lotada de afazeres, mas a viver essa maternidade plenamente. “Por esta única falta” – destaca o santo! Procuremos meditar a profundidade de tal exortação. A mulher e mãe, sendo o alicerce de sua casa, aprenderá a desenvolver sua capacidade de educadora nas fadigas do dia-a-dia. Embora prepare os filhos para serem cidadãos honestos que contribuam para a sociedade temporal, a mãe católica educa suas crianças primordialmente para o Céu – disto depende não só a eternidade delas, mas a sua própria.

A mãe deve estar convencida de que a conquista de uma alma para Deus vale muito mais que a aquisição de uma fortuna para si própria. [14] Educar para a Pátria Celeste requer total dedicação e vigilância – e a mãe verá que quanto mais se dedica a esta nobre missão, maior progresso espiritual acumula para si. Pensemos nas divinas comunicações entre Nossa Senhora e Jesus Cristo, nos longos anos em que Eles se pertenceram mutuamente na terra: que diziam um ao outro, diariamente? Não lhe foi Jesus obediente, como consta no Evangelho? Quando o santo afirma categoricamente que “Jesus Cristo deu mais glórias a Deus, submetendo-se a Maria durante trinta anos, do que se tivesse convertido toda a terra pela realização dos mais estupendos milagres[15], somos capazes de perceber que grandeza há na relação entre a mãe e seus filhos - e é também por este excelso exemplo que desejamos, tal qual um São João Evangelista aos pés da Cruz, tomá-La como Mãe reinante e absoluta de nossos corações; e de tal modo esse amor por Maria nos é necessário, que já não temos vontade senão a Dela.

De fato, as pessoas têm necessidade de um modelo a ser imitado. Por exemplo, o amor materno ou o amor filial, só se chega a conhecer bem quando se conhece uma boa mãe ou um bom filho, disse Dr. Plínio Correa de Oliveira, Não tendo conhecido uma boa mãe ou um bom filho a pessoa não sabe bem o que é o amor materno ou o amor filial. Porque abstratamente pode-se saber o que é uma boa mãe (…) mas a maior parte das pessoas não vai ao compêndio para ver o amor que uma mãe deve a seu filho; elas analisam uma boa mãe com seu bom filho, intuem se aquilo está direito e daí depreendem algumas determinadas regras.” [16] É de se notar quanta vantagem temos nós por termos a Família de Nazaré como nosso modelo, por sermos mães e termos como olhar para Nossa Senhora carregando Seu Filho nos braços!

Santo Agostinho descreve o Céu como o lugar onde “toda ação nossa será cantar Amém e Aleluia“.  Toda alegria, satisfação e sacrifício da mãe deve repousar sobre o cumprimento de estar preparando os filhos para, desde a terra, igualmente dizer Amém e Aleluia em todas as suas escolhas e atitudes. Uma mãe conta-me a apreensão que sente, desde qua a filha passou a comungar aos 5 anos de idade, quando esta se aproxima do sacramento da penitência. Estuda com a pequena os exames de consciência, mas como não não está autorizada a lhe perguntar o que conseguiu dizer ao padre, reza  para que a filha esteja cumprindo bem o seu dever. Assim faz a mãe que educa seus filhos para o Céu: reza constantemente para que mantenham o estado de graça. Ocupa-se deles com este intento, ainda que esteja apenas ensinando como bordar alguns pontos numa toalha.

A mãe católica procura observar os defeitos do filho quando aprende a ser vigilante. Essa vigilância, no entanto, será possível se a mãe não vigia a si mesma? Saberá se o filho reza bem o seu rosário, se ela própria posterga a oração para a última hora do dia? Muito além de ensinar algumas lições e controlar sabiamente os horários dos cumprimentos dos principais deveres das crianças, a mãe ensina bons exemplos com sua presença. Sobretudo com os pequenos – aqueles que ainda não chegaram na idade da razão – dedica seu tempo em formar os bons hábitos, quer verificar ela mesma (por obrigação inalienável) como o caráter vai sendo formado. São Gregório de Nissa teve uma família de santos como ele, enquanto Santo Agostinho afirmava com orgulho: “O que me tornei, devo-o à minha mãe.” Desta presença indispensável afirmou o Santo Padre, ” A presença materna no seio da família é tão importante para a estabilidade e o crescimento desta célula fundamental da sociedade que deveria ser reconhecida, louvada e apoiada de todos os modos possíveis.” [17]

Que a mãe e educadora católica possa tomar para si o desejo de educar para povoar o Céu, ajuntando-lhe a isso as habilidades necessárias para desenvolver de modo mais perfeito a sua grande missão. Como Maria se manteve oculta no Evangelho – mas foi verdadeiramente responsável por tantas graças – também as mães se mantém muitas vezes ocultas aos olhos de todos, preparando os grandes santos e santas da Igreja para agirem e santificarem o mundo.

Notas

[1] Papa João Paulo II – Mensagem para a celebração do XXVIII do Dia Mundial da Paz. 01 de Janeiro de 1995

[2 ] Papa João Paulo II – Discurso aos Bispos do regional leste II, 16 de novembro de 2002 : “Nunca é demais insistir sobre o valor insubstituível da mulher no lar: ela, depois de ter dado à luz uma criança, é o constante ponto de referência para o crescimento humano e espiritual deste novo ser.”

[3] Intervenção da Delegação da Santa Sé – 52º Sessão da ONU sobre os direitos da mulher, 21 de outubro de 2004

[4] idem

[5] Papa João Paulo II – Laborem Exercens, 14 de Setembro de 1981

[6] Intervenção da Delegação da Santa Sé – 52º Sessão da ONU sobre os direitos da mulher, 21 de outubro de 2004

[7] Cardeal Ratzinger – Cartas aos bispos da Igreja Católica sobre a colaboração do homem e da mulher na Igreja e no mundo: ” A este respeito, não se pode, porém, esquecer que a interligação das duas actividades — família e trabalho — assume, no caso da mulher, características diferentes das do homem. Põe-se, portanto, o problema de harmonizar a legislação e a organização do trabalho com as exigências da missão da mulher no seio da família. O problema não é só jurídico, económico e organizativo; é antes de mais um problema de mentalidade, de cultura e de respeito. Exige-se, de facto, uma justa valorização do trabalho realizado pela mulher na família. Assim, as mulheres que livremente o desejam poderão dedicar a totalidade do seu tempo ao trabalho doméstico, sem ser socialmente estigmatizadas e economicamente penalizadas. As que, por usa vez, desejarem realizar também outros trabalhos poderão fazê-lo com horários adequados, sem serem confrontadas com a alternativa de mortificar a sua vida familiar ou então arcar com uma situação habitual de stress que não favorece nem o equilíbrio pessoal nem a harmonia familiar.”

[8] Papa João Paulo II – Mensagem para a celebração do XXVIII do Dia Mundial da Paz. 01 de Janeiro de 1995

[9] Papa João Paulo II –  Laborem Exercens, 14 de Setembro de 1981

[10]  Papa João Paulo II – Discurso aos participantes do V Congresso Internacional das Famílias, 8 de Novembro de 1980: [a contribuição da mulher na vida profissional e social pode encontrar] “um acréscimo de expansão dos seus dons, sobretudo em certas épocas da sua vida. O problema fica em aberto, e oferece, em cada país, ocasião para muitos debates sobre as modalidades práticas quando se trata do trabalho da mulher fora do próprio lar. Muitos aspectos entram aqui em jogo.”

[11] Papa Bento XVI – Encontro Mundial das famílias, Espanha. 8 de Julho de 2006

[12] Papa Pio XII – Alocução de 21 de Outubro de 1945

[13] Papa Pio XI, Casti Connubii

[14] Padre Geraldo Pires de Souza – As três chamas do lar

[15] São Luiz Maria Grignion de Montfort – Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem

[16] Dr. Plínio Correa de Oliveira. Disponível em:

http://www.pliniocorreadeoliveira.info/DIS_SD_1954_Idade_Media_02.htm

[17] Papa Bento XVI – Encontro com os Movimentos católicos para a promoção da mulher – 22 de Março de 2009.