Fim de uma era

Quando eu comecei a escrever aqui, num movimento bastante pessoal de partilha, eu não poderia imaginar – ainda – que nada era tão pessoal e nem tão original. Se eu tivesse imaginado que tudo iria se tornar algo comum, e que justamente por se tornar comum e mais familiar, eu seria capaz de conhecer mais a fundo do se tratava afinal, então: eu não teria sido uma das pessoas a me encantar tanto com esses ideais.

O tipo de ilustração que eu postava há 10 anos aqui

Como tudo na vida que você não conhece a fundo, a coisa pode simplesmente parecer ser o que não é. Pode ser completamente diferente. Pode ser o oposto daquilo que você achou que buscava. E ao escrever tantas coisas aqui, eu admiti em alguns desses textos no feed aí embaixo que me achava meio irresponsável por ter dito algumas delas, mas eu ignorava completamente o alcance e a direção das ideias aqui defendidas, de modo que naquele momento era só um blog pessoal. Sobre todo esse sentimento eu ja escrevi aqui, até demais. Hoje eu falarei do que eu sinto ser o começo do fim.

Quer dizer, tantas coisas foram normalizadas dentro da bolha. Todo dia um influencer católico diferente gritando na sua cara. Todo dia uma mulher católica diferente te dizendo que você deveria estar fazendo o que ela está fazendo. Centros de estudo com nomes-fantasia criando a impressão de que eles conhecem mais o assunto que qualquer pessoa que está há décadas na academia – e, aproveitando o gancho, há também esse desprezo à universidade que é tão característico de quem não quer passar por nenhum tipo de peneira. E tem a loucura política, representada tão bem nos últimos memes do twitter. Ou a agressividade que tomou conta das pessoas. A lista é grande.

Mas, agora, eu não consigo deixar de pensar que esse deve ser o fim de uma era.

E eu penso isso porque parece não ter mais espaço para inflar tudo o que veio inflando e inchando nos últimos anos. As pessoas foram chegando nos limites, e quando isso acontece, você vai vendo o que estava por baixo da massa, que transborda e deixa ver seu conteúdo, e que surpresa notar que ele estava apodrecido. Tudo foi chegando no máximo do máximo.

No Instagram, uns anos atrás, quando vinha aquela foto linda de família e a baita reflexão: o amor, o sacrifício, a vela consumindo, o limão espremido (em resumo: o storytelling, mas não sabíamos disso ainda): o primeiro movimento, pela novidade, era de reconhecer ali uma pessoa original partilhando a sua vida e a sua visão tão íntima.. Era bonito, e embora eu nunca tenha sido uma pessoa sentimentalista, eu ia lá, dava o meu coraçãozinho e fazia parte do rol de pessoas que passava a considerar a mãe da foto como uma referência no “ideal”. Normal, nada de mais.

Mais um post inspiracional falando o quanto minha vida faz sentido…

Então, vem a multiplicação: de mães e de textos reflexivos diários, cada limão mais espremido que o outro, e o storytelling fica óbvio demais. Começa a cansar. A mãe e autora do post já não consegue mais narrar a beleza da própria vida, ela começa cada vez mais a atacar: primeiro as premissas do mundo moderno que levam tantas mulheres a escolherem caminhos diferentes (que não o que ela mesma tomou), depois, já vira uma artilharia direta: é você, que está do outro lado: “Você não quer ter essa vida? O que você não quer é fazer a vontade de Deus! Acorda, imatura!”

Então eu vejo que, puxa, lá atrás, quando algumas pessoas vinham me alertar de uma visão tirana sobre a mulher dentro desse meio conservador, eu ria porque não conseguia ver nada disso, e não via mesmo. E não via porque eu estava indo para esse caminho, mas vindo de uma consciência livre, de espontânea vontade, sem nada ou ninguém me pressionando. Estava indo porque queria mesmo, e como parecia fácil ficar de casa militando por essas causas, indo contra a lógica do mundo.

Eu não sei muito bem como as pessoas suportam ainda ficar ao redor de um conteúdo tão tóxico como maternidade católica no Instagram, mas mesmo sem ter a explicação, eu consigo perceber que até essas pessoas estão ficando cansadas. Cansadas de admirar tanto Fulana, todos os dias, em tantos posts, e tantas regras diferentes. Cansadas de ter que dar uma vênia para personalidades e suas ideias mirabolantes sobre por que isso ou aquilo acontece em política, educação, vida íntima. Na real, a maior parte das pessoas vivendo não sabe muita coisa, mesmo quando está passando por elas.

E eu acho que isso vai diminuir nos próximos anos. Que as pessoas voltarão a ficar mais em paz com relação ao que fez tanto a cabeça das pessoas: grupos de estudo dessas mesmas pautas, sites de verdades ocultas, canais no telegram, e tudo isso. As pessoas parecem desesperadas por normalidade e irão acabar abraçando a normalidade só porque sim, só porque sentiam falta dela. O melhor a se fazer quando se chega no ponto de saturação do que quer que seja (presta atenção nesse conselho para a vida) é simplesmente virar as costas e deixar para trás. Não perca seu tempo tentando entender ou refutar: só vire as costas para aquilo que não faz mais sentido para você e vá aonde houver menos barulho. É quando você se torna capaz de ouvir a própria voz.

Eu desejo – embora não gaste muito do meu tempo mental nisso – que esse seja o fim de uma era de tanta gente achando que tem o poder e influência sobre a vida dos outros. Nunca vai ser normal ganhar uma audiência na base do grito. Não foi normal ver tanta gente humilde e pacata se transfigurar em coach agressivo: parece que todo mundo esteve disposto a levar sua audiência para o Pico dos Martins, como fez Pablo Marçal, somente para ser resgatado pelos bombeiros. O que esse influencer disse, na ocasião, bem poderia estar na boca de muita mãe católica e coach de Instagram, com terço nas mãos: “Cada um que cuide da própria vida, eu estou cuidando da minha!”.

Pois é. Não deixa de ser um bom conselho.

Sobre manter um diário – Parte 2

No momento eu não consigo vir aqui com a frequência que eu gostaria. Bem, talvez eu nunca consiga acertar este passo. Mas venho aqui, com alguma inspiração, partilhar, por saber que algumas pessoas esperam e me pedem.

Eu havia comentado na parte anterior sobre reconhecer o meu movimento de fazer tantas coisas pelos outros, gratuitamente. Uma amiga disse que eu havia sido muito dura comigo mesma. Em parte, é verdade: de acordo com as linguagens do amor, oferecer tanto aos outros (dar presentes, por assim dizer) é uma das formas de manifestação de carinho com a qual algumas pessoas se identificam. Deve ser o meu caso; mas isso não muda muito o fato de que eu exerço isso de forma genérica (o que, certamente, não é bom).

Agora, talvez, venham as partes mais difíceis de partilhar. Eu poderia definir tudo o que vem a seguir como “eu estava no lugar errado“. Se eu não estava simplesmente sendo eu mesma, ficaria extremamente difícil ser acolhida genuinamente. Foi basicamente o que aconteceu.

Um contexto: eu saí da minha cidade há 10 anos. Deixei Salvador e vim morar no interior de São Paulo, em parte, porque depois de me converter fizemos amizade dentro de um grupo tradicionalista e estávamos doidos para fazer parte de alguma coisa. Eu já havia mudado tanto a mim mesma nos últimos dois anos que nem mesmo a cidade onde nasci parecia ter a ver comigo. Eu nunca fui uma pessoa rodeada de amigos; perdi a convivência de alguns deles depois de me posicionar nas redes sociais sobre política e religião (eram postagens ridículas, para dizer o mínimo. Analisando atualmente eram completamente despropositais, mas sigamos, já que minha opinião sobre o que eu compartilhava naquela época daria um livro).

O que aconteceu assim que eu pisei na cidade foi que as pessoas (chamávamos de amigos) do grupo tradicionalista começaram a nos tratar mal: pequenas hostilidades, podemos dizer. De repente faltar uma reunião tornou-se uma espécie de traição. Mas não foi apenas isso: a gente incomodava em tudo com a nossa “normalidade”: acho que apenas ficou claro que não éramos tão tradicionais quanto as aparências demonstravam (na internet, principalmente). Enfim, cerca de 3 meses depois já vivíamos isolados na cidade, o que significava literalmente não ter convivência com ninguém, exceto nós mesmos. Nessa época a minha filha tinha 4 meses.

Ora, eu passei boa parte daquele resto do ano chorando. Fazia planos mirabolantes de voltar para Salvador, imaginava-me ligando para o meu pai e suplicando por ajuda e de fato cheguei a escrever pelo menos uns 3 rascunhos de e-mails explicando que eu preferia voltar a morar na periferia de Salvador – rodeada de vida – do que permanecer na casa nova que meu pai havia nos dado em outro estado. Eu havia sido boba, ingênua, burra; mudar a estrutura básica da minha vida por causa de pessoas que mal conhecíamos? Só que não tinha sido exatamente por isso. Nós mudamos porque, em primeiro lugar, havíamos feito o movimento de renegar a nós mesmos. Depois que você faz esse tipo de coisa, é só colher os frutos. Foi isso.

Naquela época eu queria me parecer com aquelas pessoas que eu tanto admirava. Porque, enfim, a internet estava cheia de gente com o mesmo movimento que eu: achando mística a conversão depois de Bento XVI; de repente eu conheço um monte de gente que é daquele jeito há anos, que era mesmo uma família católica modelo? Eu precisava colocar em prática tudo que estava planejado na minha cabeça: só que não havia plano algum. Eu nunca pensei demoradamente sobre nenhuma questão crucial, no sentido de chegar àquela conclusão. Tudo o que eu fiz foi me deter longamente sobre elas depois de já tê-las aceitado para a minha vida.

Portanto, não é que eu tenha perguntando a mim mesma alguma coisa, criticamente. Eu só embarquei nessa de que seria esposa, mãe e dona de casa e passei então a escrever sobre isso com uma certeza sobrenatural. Mas voltando à minha decepção quando cheguei na cidade: em 2013 nós decidimos interromper nosso processo de afogamento no tradicionalismo. Foi muito simples, na verdade. Não tinha nada a ver conosco. Ir de paletó para a missa aos 23 anos era realmente ridículo. Sair disso me pareceu muito mais fácil no que entrar, naquele momento. Claro que eu estava enganada.

Eu vou pular a parte em que tive problemas no meu casamento devido ao choque de uma vida real nesse propósito de vida tradicionalista católica (talvez exista um momento melhor para partilhar sobre isso). Mas houve sim uma crise dos dois lados. Permanecemos juntos porque nosso amor e amizade eram anteriores à mudança, e passado o período de confusão, conseguimos admitir para o outro que só gostaríamos de voltar a ser quem éramos,e foi um alívio perceber que estávamos na mesma página. Isso nos fortaleceu nos anos que seguiram.

Quando você anda a esmo, sempre para frente, pode atingir distâncias numa velocidade incrível, já que não há rota e nem raciocínio lógico entre as curvas. Todavia, se você decide voltar em determinado momento, já não pode calcular o tempo de ida como o tempo de volta. Eu não tinha domínio algum sobre o caminho que havia me levado até ali: isso era o mais difícil de admitir. Como e por que eu havia tomado aquelas posições definitivas sobre quem eu era e a forma como pensava? Por onde mesmo que eu passei quando decidi ser isso? Como eu devo proceder agora para deixar isso para trás e me encontrar novamente?

Deixa eu falar para vocês: levou anos. Em 2014, 2015 eu já estava bem mais feliz e quase passaria como uma pessoa normal no mundo aí fora (risos). O problema, falando abertamente, é que eu havia me casado e já tinha dois filhos, de modo que a minha vida era crucialmente séria demais para eu achar que era só “abandonar” aqueles hábitos adquiridos. Quando tudo começou, eu era uma moça jovem, sem compromissos com grandes coisas, parecia ser somente um novo e melhor modo de vida e de pensamento para mim (e para o meu namorado/noivo). Casada, eu me sentia vulnerável depois de tudo. Eu tinha medo: medo de pecar, medo de mudar, medo de pensar, medo de errar. Não havia sobrado muita coragem àquela altura.

Foi mais ou menos nessa época que eu destruí um dos meus diários. Ele havia sido minha companhia nos anos mais difíceis, mas reler aquelas passagens mexia muito comigo. O simples reconhecimento da capa do diário entre as estantes fazia com que eu passasse o resto do dia triste, sombria, querendo reviver os sofrimentos. Não me arrependo porque no dia em que me livrei dele, também deixei para trás muitas questões. É engraçado pensar nisso agora: mesmo que seja para destruir e eliminar depois, aquele diário serviu para um propósito: dar um passo tímido para o desapego; eu que sempre guardei tudo!

Perder os amigos e de certa forma a comunidade que fazíamos parte naquele início de casamento nos colocou de volta em algum trilho, mas ainda restava o fato de que, sem referências, precisávamos construir um meio social. Para o meu marido foi fácil: ele estava sempre trabalhando. Eu, por outro lado, passei momentos de isolamento. O que eu tinha? Nada. Lembro de um dia, sentar no colo do meu esposo e dizer-lhe: “Eu não tenho nada. Não sou mais uma pessoa interessante”. Claro que ele me encheu de beijos e tentou me animar. Mas, dois dias depois, nós conversamos abertamente e concordamos que eu precisava sair daquele confinamento.

Eu já contei boa parte da trajetória em outros textos. Como trabalhei fora um tempo. Como estabeleci contatos dentro de grupos e encontros. O que eu gostaria de chamar a atenção, neste ponto da minha partilha, é o seguinte: a vida real não te trapaceia como o fazem as ideias que colocam na sua cabeça. Se você parar, como eu estou fazendo agora, para contar a sua própria história, e narrar os fatos, e tentar aprender com eles, vai identificar os frutos. O fato é que todas as mulheres em isolamento, como eu naquela época, entram em depressão, se sentem tristes e ou inúteis; e nada do que você diga a si mesma em textos emocionantes na internet vai mudar a maneira como você realmente se sente.

O rompimento ainda não havia acontecido, para mim. No final, eu não havia aprendido grandes coisas com as pessoas que haviam nos rejeitado quando chegamos aqui. Eu ainda não havia percebido que o problema seria todo e qualquer meio no qual eu entrasse e fosse implícito que todos deveriam caminhar para a mesma direção ou se eu estivesse diante de pessoas com preocupações extremas sobre si mesmas e os outros. Eu dei exatamente aquele passo que algumas pessoas dão quando se deparam com certos radicalismos: eu tentei bater em outra porta.

Hoje há uma grande distância entre mim e as pessoas que nos receberam quando chegamos em São Paulo, então, eu posso falar sobre o assunto sem causar qualquer mágoa ou provocar qualquer ofensa, já que o longo tempo que passou faz com que a minha opinião, neste contexto, não tenha mais relevância para as mesmas pessoas. Mas eu deveria mesmo ter aprendido mais com elas. Porque, em certo sentido, elas eram de facto o que muitas dessas famílias de internet desejam ser; elas eram a realização da meta: famílias católicas, fechadas, criando os filhos com radicalismos (incluindo a cultura normal da vida), só vivendo o ideal da família/igreja doméstica. E o que eu tinha visto não funcionava.

A primeira coisa que não funcionava mesmo era a amizade. Essas pessoas têm verdadeiro receio de estabelecer familiaridade com alguém que possa colocar qualquer um de seus ideais à prova. Porque você precisa entender que na raiz do modo como elas levam a vida está o caso de que elas acreditam que não há outra maneira correcta de levá-la. A vida dessas pessoas não é circunstancial, mas corresponde a ideais bastante estabelecidos. Uma das premissas de tais ideais é que fazer de outro modo (leia-se: as outras pessoas) é errado, muito errado mesmo. E dentro de uma equação assim é improvável que uma amizade sincera possa ser estabelecida.

A maior parte das pessoas aí fora- mesmo as que planejaram a vida, mesmo as que são capazes de dizer que cada decisão relevante foi calculada – encara com naturalidade a vida dos outros. Bem, não é assim com tradicionalistas e pessoas com ideias radicais diversas sobre religião. Elas são ensimesmadas. Enquanto você pode viver suas decisões com um bom nível de privacidade, elas estão a todo momento deixando claro, de uma maneira ou de outra, que o fogo do inferno é o destino de todos aqueles que agem diferente (ou com liberdade). Se o que o outro faz é tão horrível que mereça esse destino, como pode ser possível haver uma amizade? Veja: conheci pessoas que não pisavam na missa nova senão para comungar. Que opinião acha que elas têm sobre as pobres almas que levam aquela celebração a sério?

Fomos descartados não obstante fôssemos jovens casados desorientados, sozinhos na cidade, com uma filha bebê e sem emprego. E passamos maus bocados naquele início… depois aprendemos a agradecer por tudo o que passamos, mas foi uma fase de perplexidade. Eu ainda não sabia que era uma lógica a se repetir algumas vezes: e era uma lógica difícil de assimilar. Porque ao encontrar pessoas comprometidas nominalmente com o bem, você acredita que esse bem está acima de diferenças. Você acha que será como a parábola do Bom Samaritano: a pessoa irá ajudar quem estiver ao alcance. Bem, acontece que não é assim…

Continua…

Sobre manter um diário – parte 1 (amizades)

Eu sempre fiz diários, mas nunca os mantive. As constantes mudanças de casa – da adolescência ao começo da fase adulta – me obrigaram a deixar esses antigos registros para trás, pois eu sempre saía sem poder carregar muitas coisas. Alguns foram destruídos por cupins e eu mesma os descartei no lixo.

Mas eu mantenho um diário há quase 5 anos. É um nome engraçado, já que meus registros irregulares têm intervalos de semanas ou meses. E acabou sendo uma ferramenta de autoconhecimento agora que eu posso ler em retrospectiva; bem mais do que aqui, pois as minhas postagens no blog, além de públicas, acontecem nos momentos em que eu superei alguma coisa. É sempre reflexivo, não há um registro no que eu senti num momento presente.

A ideia de manter um diário é romântica e me leva a pensar nos meus filhos lendo meus registros num futuro onde eu não mais estarei aqui. Estava relendo algumas páginas e fiquei pensando que se eu não tivesse passado por um processo de expurgo no último ano, seria bem difícil me conhecer (quem eu sou de verdade) através daquelas páginas. Eu estava escondendo de mim mesma o que realmente sentia e pensava ou eu não tinha mesmo noção do que sentia e pensava? Minhas palavras no diário parecem brincar de gato e rato, elas nunca revelam nenhuma situação claramente. Ou melhor: agora eu vejo, às claras, que não sendo eu mesma naqueles anos, não era possível extrair de mim (nem mesmo num momento íntimo como aquele) uma abertura de alma verdadeira.

O paradoxo desta situação é este: reconheço nessa esquiva o reflexo exato da situação na qual eu me encontrava. Aquela espécie de falsidade (falsa pele, se preferir) era honesta. Como eu não me conhecia, não procurava me conhecer e não parecia me importar com isso,apenas a luta diária de manter o círculo no qual eu me encontrava era fonte de minhas ocupações (mentais, principalmente). Santa Teresa D’avila uma vez escreveu:

“Autoconhecimento é tão importante que, por mais próximo que você esteja do Céu, eu gostaria que não descuidasse do cultivo de sua percepção de si mesmo.”

Uma analogia simples: imagine uma pessoa que tenta resolver os grandes problemas de um edifício complicado e destruído, cuja missão parece desafiadora, nobre e exigente. Ela gasta anos nessa empreitada cuidando do edifício como se fosse dela, enquanto a sua verdadeira morada – uma casa bem mais simples e de aparência melhor, até – permanece esquecida. Então, ainda que ela mantenha o edifício em pé, terá de entregá-lo para outra pessoa. Sua antiga morada permanece com problemas antigos, agora agravados pelo tempo e pelas intempéries, após ter sido abandonada. É lá que ela mora.

Esse diário, nos primeiros anos, mostra que eu percorri o edifício e seus muitos andares e todas as ideias maravilhosas que eu tive sobre consertá-lo e superá-lo. É comovente ver que eu me debatia com questões porque me pareceram verdades absolutas, em vez de, simplesmente, dar um testemunho verdadeiro. Era um diário, afinal. Quer dizer: ninguém é obrigado a saber de tudo, sobre tudo, como as coisas funcionam, o sentido da vida ou coisas parecidas. Imagine se coubesse a nós ter esse tipo de conhecimento para só então ser capaz de tomar uma decisão! Mas se eu tivesse tido a capacidade de dar o testemunho verdadeiro: então, eu teria visto quem eu era antes. E teria voltado para consertar a mim mesma.

O próprio sentido de fazer um diário deveria ser fazer um desabafo sincero, de você para você mesma. No último ano meus registros mudaram bastante. Comecei a dizer para mim mesma: do que eu realmente gosto? De quem eu realmente gosto? Por que estou preocupada em perder isto ou aquilo? Essa parte de “perder” significou muito para mim. Eu estava com medo de perder coisas que nem queria de fato: apenas porque passar por perdas me causa ansiedade. Descobri que deixar as coisas irem embora é libertador.

Deixar que as pessoas que querem se retirar da sua vida saiam é uma boa maneira de aprender a permitir que novas entrem. Eu fui o tipo que permitia que qualquer amiga se aproximasse de mim, e não apenas isso: eu acabava desempenhando o papel de tentar corresponder às suas expectativas. Foi assim que pessoas que desde o princípio me causavam desconfiança e até mesmo rejeição acabaram por, sistematicamente, se aproveitar da minha amizade e por todos os benefícios que, infelizmente, eu sempre pareço disposta a dar, independente de quem seja.

Em outros tempos, eu jamais teria falado de mim dessa forma. Eu teria dito que a minha generosidade nunca é realmente recompensada. E continuaria o movimento, apenas para, mais adiante, topar novamente com alguém de atitude semelhante.

Dizem que você não pode mudar os outros, apenas a si mesmo. A verdade é que pessoas completamente diferentes, em momentos diferentes da minha vida, e portanto, com amizades bem distintas (até pelo fato de que eu transitei em mundos opostos nessas décadas) acabaram rompendo comigo, em geral depois do seguinte cenário: a pessoa se aproxima de mim com um certo nível de admiração, embora em raros casos eu tenha me aproximado primeiro. O que não muda é o fato de que eu sou sempre quem: oferece ajuda, arruma emprego, abre a casa, manda presentes para os filhos, liga, se mantém disponível (ênfase no disponível). Nunca acontece de ser a outra a fazer o mesmo por mim. Então, eu digo alguma coisa que desagrada (na maior parte das vezes, nem diretamente pra ela ou sobre ela), e o rompimento acontece (isso vale para meus seguidores de internet, com relação ao meu conteúdo).

Dito assim, parece um quadro no qual eu sou a única vítima. Realmente não se trata disso. Talvez eu tenha feito ou dito algo grave: foi sempre a reflexão que eu me permiti fazer depois dessas situações. Mas a maturidade tem que trazer algo além disso, deve ser algo mais que apenas manter a humildade nesses casos. Então, eu passei a perceber os problemas em mim mesma, e só consegui fazer isso ao também dizer a verdade sobre as coisas que aconteciam comigo. Eu disse que pessoas diferentes acabavam tendo o mesmo comportamento porque a constante não era elas: era eu.

O primeiro passo foi admitir que meu comportamento superficial de fazer coisas pelas outras pessoas era uma maneira de fazer, talvez, com que elas gostassem de mim. Por essas coisas, e não por mim mesma. A gente sempre tem uma espécie de desequilíbrio nesse ponto: há quem faça isso com palavras. Que mal conhece você e já diz maravilhas a seu respeito: eu, como estou me expondo na internet e tendo alguma visibilidade, encontro gente assim há anos. Pode ser algo sincero. Mas se passa dos limites, quase sempre é certo: não se trata do quanto ela te admira, mas do quanto ela admira admirar personagens. Pois essa é uma outra forma de fazer com que gostem de você mais rápido: a generosidade de dizer coisas que só se espera ouvir depois de anos de amizade.

O segundo passo foi reconhecer que eu não precisava sofrer por amigas que não fariam o mesmo por mim, depois que elas iam embora. Eu sempre ficava muito mal quando esse ciclo se repetia, pois pesava na balança que eu havia sido uma amiga boa, capaz de fazer coisas tão louváveis, certo? Mas se eu tinha um defeito de comportamento (como acabei de reconhecer), isso indicava que talvez eu também não tivesse feito isso pelo o que a pessoa significava para mim, mas pelo que ação de ajudar significava em si. Eu gosto de ajudar, de verdade. Mas ainda não estou no nível de não querer nada em troca. Eu espero o que eu mencionei: reconhecimento e afeto.

Parece que eu descobri algo importante sobre mim mesma. Mas ainda não é tudo. Comecei a ver coisas mais profundas. Comecei a perceber que, invariavelmente, eu suportava os defeitos dos outros até o limite. Eu nunca reagia a ninguém, mesmo com incompatibilidades cruciais. Lembro de meu marido me alertar diversas vezes sobre o comportamento de algumas amigas, de coisas inadequadas que eu ouvia ou nas ocasiões em que eu estava, mais uma vez, disponível e não encontrando qualquer disponibilidade em troca. Esse quadro é a receita para o fracasso, é claro: uma hora fica evidente que se caminha em direções opostas.

Uma coisa importante sobre a amizade é aquilo que Shakespeare definiu na peça “As you like it”: “Todos os homens e mulheres são atores na vida, e cada um desempenha vários papéis diferentes ao longo da trajetória”. Uma pessoa não ter sido uma boa amiga para mim não significa que ela não seja uma boa amiga para outra pessoa. Não quero transformar isso numa regra de caráter, porque, bem, é complicado; mas é possível, sim, ser ingrato com um e ser totalmente grato com outro. Acho que no final, suportamos e lutamos por aquilo que amamos, e aqui está, afinal, o que eu precisava encarar ao longo dos anos.

Eu sou solitária, alguém que nunca foi realmente amável (estou me sentindo super Jane Eyre escrevendo isso, olha a quantidade de drama!), no sentido mais estrito da palavra: não gostam de mim com facilidade. As pessoas sentem uma certa atração – sempre ambígua, um misto de boa e ruim – por quem eu sou e por algumas de minhas características marcantes ou capacidades. Mas não gostam de mim facilmente, afetivamente falando. Eu não inspiro nenhuma ação delicada ou lembrança que gere uma boa ação, algo que poderiam fazer por mim. Eu desconfio que , secretamente, estas minhas características marcantes atraiam raiva, juntamente com a admiração inicial.

Essa raiva se revela no momento em que uma amiga percebe que , embora parecesse suportar tudo, um dia digo o que eu penso com tranquilidade. Ela se revela quando outra amiga sai da missa para não ter que falar comigo, apenas porque descobriu que a minha visão sobre a abertura à vida não é a mesma fantasia que tomou conta da internet atual (agora, ao me ver falando disso nesses termos, você também pode ter raiva de mim).

Ao ler meu diário em anos anteriores e ver o quanto eu me debatia com essas questões, sem entender o que estava acontecendo comigo, gostaria hoje de ler que, mesmo não sendo fácil admitir todas essas coisas a meu respeito, o amor que eu sinto por mim ganhou um contorno real, que antes não existia. Sinto-me pronta para continuar o caminho do autoconhecimento e tentar melhorar estes pontos: algo que era impossível quando eu apenas lamentava o que as outras pessoas faziam comigo.

Eu precisei escrever que não gostava de algumas pessoas, desde o princípio, por exemplo. Não porque isso fosse uma coisa boa em si, mas porque era a minha percepção honesta sobre alguém. E com isso, eu poderia parar de fingir que era aberta a tudo e a todos, e então, poderia me perguntar no que aquilo me ajudaria. Ao me negar isso, eu me coloquei na situação de ser amiga de uma forma totalmente gratuita e desproporcional, e não demorou para o rompimento acontecer, claro. No final, a pessoa estava tendo a oportunidade de me maltratar – algo que ela deve ter nutrido desde o princípio da amizade, pois como eu disse: a admiração atrai a fúria.

Do meu lado, eu admitia que aquela atitude de rompimento não era completamente surpreendente. Sim, eu tinha visto desde o início que a pessoa tinha coisas incompatíveis comigo, que ela nunca falava o que pensava (exceto pelas costas) porque tinha certas ambições. Só que o que eu encontrava, por escrito, quando me referia a essas situações eram palavras neutras. E por que? Porque eu estava vivendo sob a lógica de consertar em mim apenas o que não me servia: eu estava de tal modo mergulhada nesse universo paralelo de ser alguém que eu não era… que acabei desempenhando o papel, até mesmo em privado.

Talvez eu quisesse simplesmente ser o tipo que agrada o público em geral por saber, no fundo, que via de regra, eu sou difícil de agradar. Que terei poucos amigos. E isso fica melhor demonstrado agora, depois desse ciclo de fracassos que eu passei. É quase como se eu não tivesse qualquer importância para os outros, mas como eu não posso mudá-los, resta mudar a mim mesma.

E uma dessas maneiras é, me conhecendo melhor agora, e admitindo o que eu realmente penso das pessoas e sobre as coisas em geral, não mais permitir o mesmo comportamento irrestrito de abertura às amizades. Algo que vai me ajudar bastante é o fato de que no meio no qual eu me encontrava, até pouco tempo atrás, também prevalece muito o fato de que você deve pensar de maneira igual (amar as mesmas coisas e rejeitar as mesmas ou algo assim), e eu estou me distanciando cada vez mais de tudo isso. Então, claro que por causa disso, havia uma expectativa geral que eu pensasse de determinada maneira: e esse tipo de expectativa é algo que não tem mais lugar na minha vida.

[continua…]

A mulher e o trabalho – podcast e mais

Não sei se tem alguém aqui da época do blog em que eu postei uma série de textos chamada “A vida do lar e o trabalho fora dele“, em três partes, todas enormes… eu sempre gostei muito de blogar e naquela época, claro, havia muito tempo livre da minha parte. Eu era universitária e não precisava trabalhar porque meu pai pagava pensão judicial (embora minha vida não fosse fácil: eu morava na periferia e bancava todos os meus gastos com essa pensão desde os 17 anos). Bem, como eu ia dizendo: nesta série antiga de textos eu fazia um enorme embasamento dos motivos para a mulher católica (uma definição que dificilmente eu usaria hoje) ficar em casa, como uma obrigação mesmo: sem rodeios, sem meias palavras.

É claro que estes e muitos outros textos não estão mais disponíveis porque não servem mais para nenhum propósito. Eu não sabia na época, mas eu havia colocado ali os argumentos de uma linha de pensamento bem específica, muito mais política do que religiosa (mas que eu pensava ser basicamente religiosa e espiritual), popular sobretudo no século 19 e que sobreviveu até a década de 40 do século 20. Essa visão política da dona-de-casa foi bastante popular na Itália e na Alemanha no início do século passado. Há inclusive um livro da escritora italiana Paola Masino, chamado “Nascimento e Morte da dona-de-casa” que narra o aspecto surreal e absurdo desse ideal.

Obviamente, eu nunca pensei que em mim mesma, lá atrás, uma universitária criada por pais liberais, com um passado confuso e emancipada aos 17 anos, como alguém que fosse abraçar estas ideias, muito menos vivê-las no período da minha juventude, quando eu poderia, claramente, estar fazendo outra coisa. Eu fico feliz de tudo isso ter ganhado forma no final da minha graduação (e não antes), porque eu corri o risco de não terminar a faculdade, pensando que ela não iria ter uma utilidade prática na minha vida (eu flertei com esta ideia, mas nunca mais do que isso, principalmente pelo fato de que amava e ainda amo estudar).

Eu reli alguns trechos de meus antigos textos no arquivo privado do meu blog, e não pude deixar de me sentir mal, por ver tanta arrogância naquelas palavras. Sabia que tinha escrito aquilo, porque era no que eu acreditava, mas não sabia que tinha escrito daquela forma. Agora, o mais engraçado é que escrevi esta série de textos no início de 2013, um ano em que eu passei por muitas mudanças após o nascimento do meu segundo filho (foi quando eu voltei a usar calças, por exemplo) e a verdade é que menos de 2 anos depois desta série de textos, eu já estava dando aulas por meio período numa escola da minha cidade (uma experiência desafiadora, positiva e uma decisão crucial na minha vida, para que eu pudesse voltar ao mercado de trabalho, depois).

Portanto, havia um abismo entre a teoria e a realidade. A minha avaliação, hoje, é que, para além destas ideias nas quais eu estava metida, o principal facilitador foi eu ser alguém fora da realidade, e que não fazia a mínima questão do contrário. A definição de uma pessoa alienada.

Veja, eu não tenho realmente nada contra ficar em casa, ou em não trabalhar fora. Esta foi uma escolha que eu fiz na minha vida, e continuei a fazer em momentos diferentes, quando eu tive mentalidades diferentes. Voltei a ficar apenas em casa quando meu esposo começou um novo emprego; quis ficar em casa quando meu terceiro filho nasceu – e ainda considero um privilégio estar com o filho, ao menos no primeiro ou nos primeiros anos de vida. Mas é justamente isso: um privilégio. E os privilégios envolvem uma série de fatores.

Nos meus antigos textos eu encontrei falas-padrão de tantas personalidades católicas que vieram depois de mim: “é preciso se doar mais, se sacrificar mais; em primeiro lugar está Deus e a vocação; a mulher abandonou este ideal por causa de feminismo”, etc. Não é surpreendente, não é que eu tenha inspirado isso. É apenas que bebemos na mesma fonte. Conforme eu fui mudando, ainda permaneceu em mim uma espécie de condescendência com essa antiga mentalidade; isto é, para este tema e tantos outros, eu oferecia a minha simpatia (ainda que discordasse), de maneira que eu fui adiando meu rompimento definitivo.

Tudo isso mudou com o passar do tempo porque tornou-se imprescindível que eu mudasse. Não para responder às pessoas, não para enfrentar esta ideologia seja lá de que forma, mas por mim mesma, que vivia num limbo que me impedia de tomar simples decisões na vida. E talvez você, que está me lendo, esteja passando por um processo semelhante: depois de aderir a certos padrões de comportamento, fica difícil até reconhecer como você veio parar na vida que leva.

Quase uma década depois, eu vejo que ter boas e consistentes informações é importante, porque atualmente – mais do que antes – há muitas pessoas atravessando a mesma trilha. Eu não tenho a pretensão de formar essas pessoas e nem de fazer um trabalho de longo alcance, assim como jamais foi minha intenção no passado. Mas o trabalho foi feito, de qualquer forma, porque alguns textos neste blog acumularam inacreditáveis 80 ou 50 mil visualizações. E eu continuo escrevendo aqui, mesmo sabendo que não é uma prioridade na minha vida, porque me sinto inspirada a jogar estas sementes.

Como a vida dá mesmo voltas, numa delas eu reencontrei a Letícia Maria Barbano, que já teve um notado apostolado virtual no passado. E ela saiu de cena para viver a própria vida e aproveitar o que eu considero de melhor nesse processo: a liberdade para passar por essas mudanças tão necessárias, com um bom nível de privacidade. E nós conversamos sobre este tema – A mulher e o trabalho – no podcast O privilégio de ser mulher no Spotify, e foi uma conversa muito melhor do que eu esperava.

Eu aprendi muito, sobretudo porque não foi mesmo uma conversa sobre certos e errados, mas a perfeita definição de “conversa esclarecedora”, pois a Letícia coloca em perspectiva que as mudanças de trabalho para a família foram muito mais profundas do que em geral supomos. Lá atrás, nos meus textos, eu escrevia sobre ficar em casa para combater certos fantasmas feministas, sem me dar conta que eu não tinha informações suficientes nem para afirmar isso, e menos ainda para fazer deste o meu ideal pessoal. Vivendo e aprendendo.

E você pode escutar no SPOTIFY. É possível fazer uma conta gratuita. Depois, é só pesquisar O privilégio de ser mulher por lá… e pronto! Vale muito a pena! Você pode apoiar o nosso trabalho divulgando com seus amigos. Eu agradeço muito! Ainda teremos alguns episódios nesta temporada! Vai ser incrível!

Onde vivem os livros: newsletter literária

Hoje eu gostaria de falar sobre um projeto muito especial: a minha newsletter literária que já está chegando no 4° número: ONDE VIVEM OS LIVROS.

É um complemento do meu trabalho no YOUTUBE- voltado especialmente para crianças e jovens – onde eu falo sobre literatura.

A newsletter é uma oportunidade de você apoiar o meu trabalho e ter um suplemento literário com linguagem acessível para crianças que já possuem fluência em leitura. Ela chega linda, no formato PDF, no seu e-mail, para que você possa imprimir!

Acima, a capa da última edição! Cada newsletter tem entre 12 e 18 páginas e traz textos diversos sobre literatura, crítica, resenhas e muito mais. Sempre com imagens e ilustrações que a tornam ainda mais atrativa. Uma newsletter mensal que você pode assinar através do link abaixo. A assinatura tem preço simbólico e renova automaticamente todos os meses. Cancele quando quiser. Eu agradeço seu apoio!

ASSINE ATRAVÉS DESTE LINK