A vida no lar e o trabalho fora dele – Primeira parte.

mame e filhaLupita e mamãe, grudadas como de costume!

Há duas semanas atrás, Lupita e eu nos separamos realmente pela primeira vez e por algumas horas. Nunca havia ocorrido, e não foi assim por obstinação minha, mas por falta de ocasião. Algumas vezes ia à farmácia ou o pai a levava ao mercado, mas eram afazeres rápidos. Desta vez, fui fazer uma série de exames, saí muito cedo e só voltei perto do almoço. E ela passou muito bem sem mim!

Recebo sempre mensagens, aqui no blog e principalmente por e-mail, de mães que desejam saber mais sobre a minha opinião a respeito das obrigações da maternidade, e mais especificamente no que toca o trabalho fora do lar. Elas se sentem culpadas, em parte; gostariam de estar fazendo diferente ou amam não ter de fazê-lo… são muitas as situações. O que eu posso dizer são apenas as minhas reflexões. Eu não inventei a culpa, e quase todas as mães que trabalham fora passam por isso, sejam católicas ou não. Portanto, velar pelo próprio filho não é apenas um princípio explicitamente católico – como se precisasse ser lido num livro – ele faz parte da nossa disposição natural. É normal, portanto, que a mãe que se ausenta (seja por que motivo for) experimente um sentimento de angústia, pois por mais que ela deposite confiança na babá, creche ou até mesmo na sua própria mãe , não é ela que está lá. E algo no seu coração continua a dizer que ela deveria.

Deus foi generoso conosco. Vejamos os comoventes exemplos da natureza: como fica triste a gata que não encontra seus filhotes onde os deixou; como os patos e os pintinhos seguem sua mãe aonde quer que esta vá; todavia as pobres tem de se virar elas mesmas para suprir as necessidades dos filhos. Nós não precisamos carregar o filho “ao trabalho” como as galinhas, em busca do alimento, porque nosso marido é quem tem a obrigação de nos sustentar e a suas crianças. Nossas relações são diferentes, é claro. Adão não reclamou ajuda para fazer o que ele tinha de fazer no paraíso, ele sentiu falta de alguém que lhe completasse, que se unisse à sua alma, que lhe fosse completamente diferente. Perceba que estou falando apenas de obrigações, de coisas naturais.

Então, se me perguntam, é evidente que eu acredito que a mãe deve cuidar dos seus filhos ela mesma. Não tem absolutamente nenhuma relação com uma visão “machista” do que a mulher é ou não capaz de realizar em termos profissionais e pessoais. Ela pode fazer muitas coisas, é verdade. Mas ela também tem muitas limitações. Uma delas é a família. Os filhos limitam seu tempo e espaço. Você não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo; se está no escritório e seu filho na creche, naquelas horas – embora você continue sendo a mãe e a responsável, e tenha, de todo coração, procurado um bom ambiente para uma criança – não é você que está cuidando do seu filho. Isso não é nenhum “terrorismo” de minha parte, é apenas tal como é. Uma criança mais velha necessita e começa, de forma natural, a ter suas próprias atividades e separa-se, consequentemente, cada vez mais de sua mãe, mas os bebês e as crianças menores não necessitam de uma jornada longa ou média fora de casa, “se socializando”, “aprendendo ludicamente” ou o que quer que se chame hoje em dia estas coisas.

Toda mãe (eu, com certeza) gostaria de ter ajuda para cumprir suas tarefas. Essa solidão que nós experimentamos nos dias de hoje não é natural, eu reconheço. Quando todas as mães ficavam em casa, havia companhia de sobra: tias, madrinhas, vida ativa na igreja, no bairro… hoje eu abro a porta de minha casa e não vejo ninguém. Não há o que se fazer nas paróquias no período da tarde, pois não existem mais aquelas mulheres que podiam se dedicar à caridade e aos outros.A despeito de tudo isso, as mulheres casadas sempre levaram vida de sacrifício. Nós reclamamos das tarefas, mas imagine a época em que o fogão não era à gás, não havia geladeira, entre tantas facilidades! A mãe quase sempre tinha de suportar a perda de um filho pequeno… hoje nós temos essa sensação de que se pode eliminar quase tudo aquilo que nos é penoso. Se é pesado demais para você, não lhe pertence! Nada mais errado… eu lhe digo que, ao contrário, quanto mais dura for a realidade da vida no lar, mais você precisa dela – precisa se dedicar e melhorar.

Conheço mulheres que me dizem: “Luciana, detesto ficar em casa, não aguento! Meus filhos me sufocam… vivo infeliz! Não seria melhor estar fora e passar menos tempo, porém um tempo que fosse mais agradável?”  Esta mãe, então, segue este raciocínio e provê tudo o que está ao seu alcance para atenuar sua ausência. Tudo parece melhorar, porque seus filhos crescem sem traumas, gostam da companhia da mãe nas poucas horas do dia, tem uma vida mais confortável e são espiritualmente amorosos para com Deus. É possível, portanto, cuidar dos filhos por este outro caminho. Não nego isso.  Não sou radical ao ponto de afirmar – e ser contrariada pelas evidências – de que a mãe que se ausenta cria necessariamente mal seus filhos. Penso comigo que, se ela cuida bem em pouco tempo, faria melhor em todo o tempo; mas, novamente, ela me diria que estando infeliz no lar, não poderia sequer oferecer uma hora de alegria e prazer para a família. Não parece óbvio que se faz uma escolha melhor? Só que a questão não pára aqui.

Estamos falando, até então, dos outros membros da família – em especial os filhos. Isto porque a mulher se doa tanto, que toda sua vida parece se resumir em termos do que ela precisar proporcionar á eles e a seu marido. Se ela consegue, em tese, resolver seu dilema vocacional seguindo os princípios do parágrafo anterior, então ela adquire certa convicção de que cumpre suas obrigações; seus filhos serão bem cuidados – e não se trata disso? Não é este o ponto crucial quando você se pergunta se deve permanecer em casa, quando se torna mãe? Mas, ao invés de pensar apenas neles, pense um pouco em si mesma. Contraditório propor isso, não? Nos parece que as mães que (assim como minha “amiga”) detestam ficar em casa pensam apenas em si mesmas… mas elas são as que menos pensam. Sim, pense na sua vocação de mulher, mãe e rainha do lar, para além das coisas puramente materiais. Serei mais clara:

Imaginemos um homem que diz: “Detesto trabalhar, seja trabalho braçal ou intelectual. Não gosto da obrigação de trabalhar todos os dias ainda que por algumas horas. No entanto, tenho que sustentar minha família, e quero que eles sejam assistidos em tudo!” Este homem segue seu princípio e passa a viver de renda, sem trabalho. Adquire imóveis que lhe garantem bom lucro, até melhor do que muitas profissões que ele poderia desempenhar. Longe de passar necessidade, a família leva vida abastada e ele pode passar mais tempo com os filhos e a mulher. Tudo parece bem, certo? Mas o trabalho é mesmo só para garantir o conforto próprio e da família? Não tem aquele ditado que diz que “o trabalho dignifica o homem?”. Cá entre nós, o que pensar de um homem que diz que detesta trabalhar? Não o próprio trabalho – porque aí ele poderia simplesmente se dedicar à outra coisa; não o regime de assalariado, porque ninguém discorda que é bem melhor ter projetos profissionais que possibilitem ao pai de família  ganhar mais e viver melhor; mas que detesta trabalhar e prefere dar um jeito para nunca ter de fazê-lo?

Claro, a mãe vai dizer que não detesta a maternidade o tempo inteiro. Só na maior parte do dia. Ao contrário do pai, que tem jornada de trabalho, a mãe é mãe 24 horas, sem interrupção. Portanto, a comparação entre as duas mentalidades é justa. Porque, acima de tudo, está Deus. E Deus, quando expulsou Adão e Eva do paraíso, castigou o homem dizendo-lhe que ele deveria, a partir de então, conseguir o sustento do próprio suor. Mas, observemos sem equívoco, isto não é uma condenação pelo pecado. A condenação é o inferno, quando não há arrependimento. Adão e Eva se arrependeram. O castigo então é a reprimenda do Pai que procura dar os meios do filho se consertar; é  o Senhor dizendo: “É deste modo que você vai ter conserto, meu filho”, ou seja, o homem deve conseguir as coisas pelo esforço, pelo trabalho. Se é ruim ou bom, se traz também prazer ao homem trabalhar, tudo bem. Mas o que antes ele teria gratuitamente – sua provisão sem ter de fazer o que seja – não existe mais. Por isso, um homem que não trabalhe e não se esforce de maneira alguma para sustentar sua família não está verdadeiramente se consertando, no sentido mais espiritual do termo.

Em contrapartida, Deus disse à Eva que ela estaria sujeita ao homem – submissa e dependente – e que lhe aumentaria as dores do parto. E não pensemos nesta dor apenas literalmente  – e é verdade que trazer os filhos de maneira natural ao mundo dói bastante – mas como símbolo do que é se tornar mãe. A emenda da mulher pressupõe que ela deve esperar do homem uma direção (“ele te dominará“), que ele é quem a conduzirá neste mundo – daí não haver jamais igualdade no que diz respeito ao papel  do homem e da mulher na sociedade; pressupõe ainda os sofrimentos próprios da maternidade… eis porque ficar em casa e  cuidar dos filhos tão dependentes dói tanto. É para doer. É assim que teremos conserto. Não pense na aridez e nas suas dificuldades em cumprir este papel como falta de “vocação”, como se houvessem “mulheres e mulheres” – aquelas que se realizam e as que não se realizam ficando em casa. Definitivamente, o que é se realizar? `Porque se for achar mais tranquilo e mais confortável abraçar esta vocação, pouquíssimas mulheres se dirão realizadas. Sempre parecerá melhor se ausentar um pouco, porque se ausentar é para a mulher o que é para um homem ganhar o dobro do salário fazendo o que só vale um, é como bater o cartão e ter de ficar apenas duas horas: é claro que traz uma sensação de alívio maravilhosa, porque retira o enorme peso que nos foi imposto por sermos mulheres e mães. Mas, imposto por quem? Quem ditou que a mulher deve cuidar dos seus filhos, do marido, etc., etc.? Foram os séculos anteriores? Foi a Igreja, em certos períodos históricos? Ora, olhemos para os patinhos na lagoa, que seguem a mãe de maneira obstinada. Foi Deus. Eis porque fazer escolhas não pode – jamais poderá – se tratar do que é melhor para mim ou para você. Tem de ser melhor para Deus.

Mas o plano espiritual é imenso e não tem fronteiras. Deve haver mais do que isso, pois não se trata apenas de ficar em casa e nem esta é uma competição para ver quem sofre mais fazendo tudo por si mesma. Cada pessoa é única. Assim como há o homem que levanta as 5 da manhã para pegar no machado levando vida áspera, e o homem que leciona e parece confortável no meio dos livros, há as mulheres que criam os filhos tendo também de sustentá-los, e as que ficam em casa, contando com ajuda para tudo, com empregada , e por aí vai. O que não se elimina em nenhuma condição é o esforço do homem e da mulher naquilo que lhe diz respeito. Mas isto deverá ser discutido em outra ocasião.

{Continua…}

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7 comentários sobre “A vida no lar e o trabalho fora dele – Primeira parte.

  1. Querida Luciana,

    Fez-me ler seu texto, espero pela continuação. De fato hoje em dia não estamos habituadas a estar só em casa, não fomos educadas para isso, falo por mim. Minha mãe não aceita que seja só dona de casa. Acho que esse “só” é demasiado grande para poder comportar outra coisa. Tem de haver uma reeducação muito custosa da parte das mães e dos pais. Será que os maridos estão preparados para assumir a responsabilidade de sustentar o lar sózinhos? Será que os próprios filhos não estranharão não ser como a maioria das crianças? Acho que a resposta às duas perguntas será sim.
    É preciso por Deus em primeiro lugar. Mas porque é que a própria Igreja não ajuda mais sobre este assunto? Porque não dá orientações mais precisas? A luta é diária. O meu filho mais velho já começa a perceber que há diferenças entre o homem e a mulher. Quero ser um bom exemplo para ele. Preciso muito de boa orientação e não a estou a conseguir obter na minha comunidade. Mais uma vez lhe digo, os seus textos são muito inspiradores. Rezo por si e pela sua.

    S.M.

  2. Olá Luciana, faz tempo que acompanho seus blogs, sempre com proveito, mas nunca comentei… Bem, resolvi comentar dessa vez porque vocês estão lindas nessa foto!! Parabéns, abraços e que Deus abençoe você e sua família!!!

  3. Salve Maria! Excelente artigo, parabéns! Somente duas coisas a ressaltar, ficou com um tom que o trabalho foi um castigo imposto por Deus após a queda do pecado original, o quanto não é pois já havia o “jardim a ser trabalhado antes da queda”, até por isso a citação “o trabalho dignifica o homem.”. Outra coisa, é mais técnica, talvez fosse preciso rever o fundo do blog, esse tom verde com flores aliado a cor preta da letra dificulta a leitura. No mais, que Nossa Mãe Santíssima guarde vosso apostolado, fique com Deus!

  4. Amada, desde que engravidei da primeira vez, tomei a decisão de abandonar a minha carreira como pedagoga. Hoje trabalho apenas no horário em que minhas filhas estudam, como professora, contudo, mesmo tendo o direito de tirar licença para ficar com elas sempre que necessitam, podendo levá-las e buscá-las na escola e de fato cuidar delas em tudo, ainda sinto a consciência pesada, pois sei que meu salário não fará falta para nosso sustento… É…Uma sensação de anormalidade, mesmo sabendo que elas teriam independente de eu estar em casa, que estar na escola…
    Há realmente uma Ordem Divina na maternidade…
    E, mesmo que, a boa dinâmica da família seja prioridade e fator determinante para a escolha ou não do trabalho pela mulher, sempre haverá no fundo um sentimento “estranho” com relação ao afastar-se de seu filho, mesmo que velado no âmago de cada mulher.
    Procuro criar nossas filhas para serem boas esposas e mães. Sou muito criticada por isso. Tento explicá-las que devem estudar, mas que o estudo é para aprimorar os dons que receberam de Deus. Procuro educá-las conscientizando que o primeiro Dom de uma mulher é ser o “coração” de um lar. Que carreira e trabalho, são secundários e devem sempre estar abaixo de Deus e da família, que trazer o pão, o básico é tarefa do homem. Espero e rezo para que quando se depararem com este tipo de escolha elas escolham com sabedoria a melhor parte.
    Aguardando a continuação.
    Fique com Deus e com a mãe Maria

  5. Salve Maria!
    Luciana, que bom que o blog está de volta! Senti muita falta.
    Entendo o seu dilema de expor sua vida pessoal ( e consequentemente a de sua família), mas lhe digo com sinceridade que você não pode imaginar os benefícios que o seus blog proporciona a tantas moças e senhoras que procuram viver conforme a vontade de Deus. A força do seu testemunho edifica todas nós.

    Parabéns pelo texto! Acho que você está a escrever cada vez melhor. :)
    E muito interessante esse novo olhar que você lança – a «realização» da mulher.
    Mais uma vez parabéns e obrigada! Lhe sou muito grata por dividir sua vida conosco.

    Ah, me casarei em outubro desse ano. Pesso que reze por mim, e pela família que eu e meu noivo vamos iniciar com a graça de Deus e da Virgem.

  6. Pingback: A vida no lar e o trabalho fora dele | Maria Rosa Mulher

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