A vida no lar e o trabalho fora dele –Segunda parte.

10048bf65d251f5809c6134d635d5bee{Vimos, na Primeira Parte, algumas considerações sobre a Vida no lar e o trabalho fora dele. Comecei a expor algumas de minhas reflexões, e divido com vocês mais alguns pontos…}

Sempre que me perguntam a respeito da minha escolha em permanecer em casa, para me dedicar aos filhos e assuntos do lar, considero as razões espirituais, já que ninguém mais o faz. Se você sofre os mesmos questionamentos, sabe que estas discussões giram sempre em torno de questões quase práticas – a ausência da mãe no lar gera uma demanda de tarefas a serem cumpridas, o que poderia ser realizado por outra pessoa. Quando você responde, por exemplo, que não colocaria seu filho numa creche porque teme os abusos e violência cometidos contra as crianças (coisa que, lamentavelmente, figura nos noticiários todos os dias), há geralmente um discurso bem embasado sobre paranoia, escolhas bem-feitas e até mesmo estatísticas que provam que mais crianças são abusadas dentro de “casa” que em escolas. A discussão torna-se interminável, pois cada parte apresenta uma série de possibilidades; no final, você se torna apenas uma mulher que faz suas escolhas baseadas no medo e a outra pessoa, alguém que corre riscos.

É claro que não se trata só disso, embora eu esteja de acordo com mãe “receosa”.  Como ela, eu engataria uma longa explicação do meu ponto de vista com relação a este assunto em específico (coisa que eu poderia fazer em outro post, sabendo que seria apenas repetitiva). Agindo assim, no entanto, eu estaria desprezando o aspecto mais importante da minha escolha de vida. Dedico-me à minha família não por crer que assim eu evitarei todo o mal exterior; não sou a sentinela perfeita contra os lobos (pois, infelizmente, eles estão por toda parte agora, e não apenas na floresta, lá fora… mas lembre-se: lá fora continua perigoso!); não faço isto somente por achar edificante ser eu mesma a limpar o que sujo (se você tiver ajuda, ótimo!). Sei que também poderia descrever todas as maravilhas que uma mãe em tempo integral é capaz de fazer por sua família em termos de cuidados com a casa, atenção para os filhos… mas isto ainda seria nada perto do que realmente importa, isto ainda seria prender-se ao lado “material” da questão. Como assim?

Ora, você sabe como há “super-mães” no mundo de hoje… sim, aquelas que trabalham, são empresárias, tem uma casa aconchegante e ensinam seus filhos a irem à igreja de maneira exemplar. Conheci uma moça – nem era casada ainda – que vivia me desafiando, mostrando toda sorte de exemplos tais, procurando me ridicularizar: “Então você acha que é preciso ficar em casa para ter isso? Veja só como elas conseguem, e de maneira invejável“. Católica, a tal pessoa sempre me mostrava exemplos de senhoras também católicas, com quatro ou cinco filhos, bem-sucedidas profissionalmente. “Fique em casa, se quiser, mas não diga que só é possível ter estas coisas da SUA forma.”

Acredite, não estou expondo isto porque fiquei ressentida. Conto-lhes porque talvez vocês ouçam coisas parecidas ou tenham este dilema. O que eu gostaria de dizer é que não estou em casa para atingir estes ou quaisquer outros objetivos que se possam medir em fatos, fotos ou na minha agenda pessoal de afazeres. Não estou fazendo isso nem mesmo para ir à mais Santas Missas, fazer mais novenas em casa, festejar o calendário litúrgico em família.  Isto depende de muitos fatores – não apenas de tempo ou até mesmo de vontade, pois atualmente minhas condições só permitem que eu cumpra o preceito dominical a duras penas, enquanto no passado, por conveniência da paróquia anterior, eu comungava quase que diariamente. Tudo isto é maravilhoso, e sem dúvida eu me empenho para fazer estas coisas em família, mas embora fonte de inúmeras graças – sabemos que absolutamente nada supera o valor inestimável da Missa e da comunhão – ainda serão meras atividades, se você achar que o lado espiritual de viver sua vocação consiste apenas no cumprimento delas. Porque posto dessa forma, vira um problema de mera organização de sua parte; você poderia eleger quantas missas, brincadeiras e surpresas ao marido faria por semana – você até mesmo superestimaria esse número, e então poderia ficar alegre ao se comparar com “Joana”, cuja vida dedicada exclusivamente ao lar não inclui sequer um terço em família.

Ter uma vocação é um chamado, um caminho. É diferente de utilizar os meios de que Deus dispôs para todo e qualquer cristão alcançar a salvação, embora uma coisa esteja ligada à outra (nesse sentido, é como tantos livros doutrinais trazem: a primeira vocação de toda e qualquer pessoa é ser cristã). A comunhão, as confissões e demais sacramentos, orações, exercícios espirituais … há as diferenças próprias de cada estado, mas tanto o monge quanto o pai de família devem rezar para se salvar.  Quando o rapaz sente o chamado ao sacerdócio, sabe-se o tipo de renúncia que ele terá de fazer, independente de que ordem ele possa vir a entrar ou do que venha a ser a realização da sua vida em concreto. Essa renúncia – que não pode ser definida em poucas palavras, mas que nós conseguimos apreender mais ou menos bem o significado – é a própria vocação em si. Não se pode construir a própria renúncia – porque é a antítese do termo – mas corresponder à ela.

O que “Joana” faz completamente, independente de como seja sua jornada diária, é renunciar. Ela não precisa ser perfeita para alcançar esta perfeição.  Ela não precisa de fotos bonitas, de uma casa enfeitada, de superlativos para a sua vida devota. O que acontece com ela é uma transformação interior; sem o saber, quase tudo que envolve o seu dia exige dela um sacrifício – e tanto mais porque ela não está ausente (fisicamente e espiritualmente) para que surjam mais e mais oportunidades de imolações. Talvez ela nunca consiga – por sua própria limitação ou esforço – oferecer tantos momentos atenciosos aos filhos, mas ela deu completamente o que uma mãe que decide se ausentar para alcançar outros objetivos, não dá: ela deu a si mesma. 

Se sou mãe e esposa, tenho uma vocação. Quem é a mulher forte das passagens bíblicas? Longe de ser uma figura romântica e exageradamente delicada, ela trabalha com as próprias mãos, atendendo a necessidade de uma micro-sociedade: sua própria família. Ela levanta antes de todos, dá comida aos seus, negocia o que convém ao seu lar, faz caridade e está atenta ao marido. Ela é uma administradora. Tudo isto faz parte do plano que Deus elegeu, desde sempre, para que a mulher pudesse se salvar.No plano de salvação do homem, como vimos, o esforço para prover o próprio sustento e o da sua família tem um papel primordial. Não é o caso da mulher. Não é um mero detalhe, não é algo a ser subestimado.  Talvez eu seja eloquente demais a ponto de fazer grandes reflexões sobre o assunto, mas o mundo não é feito de pessoas como eu ou você, que param e lêem blogs e livros sobre o tema, tentando se convencer (de um lado ou de outro) que aquilo que nos é mais conveniente é também um bom caminho.

Ficar em casa, cozinhar, acompanhar o crescimento dos filhos, estar disponível para se dedicar aos outros, trabalhar – e duro – pelo bem-estar de tudo aquilo que diz respeito a sua família: tal é a inclinação da mulher.  Isto não gera conforto, ao contrário, gera sacrifício. O homem se sacrifica trabalhando não porque seu ofício seja muito ruim, mas porque sua alma sabe, desde Adão, que tudo lhe fora dado gratuitamente por Deus;e embora ele não fosse um ocioso no Paraíso, já que ele cuidava e reinava sobre as criaturas (como bem pontuou o Thiago em comentário ao texto anterior), ele não temia por si mesmo, estava tudo ao alcance de suas mãos. Sair para trabalhar é algo que ele simplesmente não precisaria estar fazendo se tivesse sido obediente ao Senhor. Sua alma é marcada por isso, assim como a alma da mulher é marcada por uma dor – um padecimento, como diz o ditado – em relação à maternidade e a sujeição ao esposo. Se Eva tivesse sido obediente, isto não lhe teria sido imposto.

A mulher se sacrifica trabalhando fora? Às vezes. Quando ela tem necessidade, por exemplo. Mas não estamos falando desta mulher, até porque as mulheres que realmente precisam trabalhar, como sempre houveram desde que o mundo é o mundo, não tem o dilema que nos ocupa. O dilema vem necessariamente de uma possibilidade de escolha, ainda que gere perdas. As mulheres do passado que precisavam “trabalhar para fora” eram quase sempre mães solteiras ou que ajudavam o marido, seja no próprio ofício deste ou em algo que era, em geral, feminino e exigente – como lavar, costurar, etc. Não pense nisso como uma enorme dúvida que lhes afligia a consciência: “Será que o salário do meu marido é suficiente ou devo vender estes doces?”. Elas sabiam quem eram, o lugar que ocupavam, faziam o que estivesse à mão para ocupar a mente e contribuir para a renda, coisa, aliás, mais comum do que podemos imaginar. Elas tinham os talentos que hoje não temos, mas eram por vias muito distintas.  Em nada tem relação com a mulher de hoje, que é criada para  desempenhar a mesma função do homem na sociedade. Isto não quer dizer que, atualmente, mães professoras e advogadas nunca precisem trabalhar. Eu sei que, algumas vezes, a diferença na família com o salário da mulher é uma questão de viver com dignidade e não luxo. Mas eu também acho que há uma supervalorização do que seja necessário ao bem estar de uma família. Há muitos outros pontos nos quais nós podemos refletir para fazer nossas escolhas, sem que tenhamos de ser perfeitas ou multi-dedicadas. Fiquem á vontade para comentarem sobre novos pontos da questão.

{Continua…}

 

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4 comentários sobre “A vida no lar e o trabalho fora dele –Segunda parte.

  1. Caríssima, acho você uma pessoa bem-resolvida. Sabe o quer, faz as escolhas condizentes com seus valores e encara os desafios. Isso é já o suficiente para admirar a sua pessoa. Talvez a vida te leve a abraçar uma profissão de escritora. Acho que você tem talento. Mesmo que isso seja secundário, é notório que você faria diferença na literatura cristã !!

  2. Querida Luciana,
    Concordo com o que diz no seu texto. Trabalhar em casa é duro, mas edificante.
    Só tenho mais uma questão que gostaria que explorasse: o facto de os maridos, mesmo católicos, não estarem mentalizados para tal escolha. Mesmo podendo fazer essa escolha há mulheres que não a fazem porque não querem “decepcionar” o marido. É uma problema complicado. Como pode uma mulher “influenciar” docemente o marido para que este vá pelo caminho mais correto. É dever da mulher cuidar primeiro da família, mas isso também implica que, já sendo casada, tenha precaução quanto às opiniôes do marido que podem não ser coincidentes e, todas as casadas sabem que os homens não aceitam ser contrariados diretamente. Podem achar que é uma escolha demasiado radical ou que foge da normalidade.
    Pessoalmente estou no princípio de fazer essa escolha de ficar em casa.
    Noto medo em mim e em meu marido. Nem quero pensar na reação de meus pais! Também acho que se sobrevaloriza o que é preciso para viver dignamente. Rezo por si e pela sua família. Reze também pela minha.
    S.M.

    • Salve Maria
      Acho que a maioria de nós, esposas e esposos, não se sente preparada para esta escolha. O primeiro sentimento é sempre de “eu não tenho como fazer isto”. Foi meu primeiro sentimento.
      Eu acho que não é recomendável enfrentar o marido, nem fazer qualquer coisa sem o seu consentimento.Posso pensar no que dizer com relação a isso… sem dúvida é necessário influenciar o coração dele, mas não existe um método, pois cada homem é único, e às vezes não é nem um pouco fácil chegar a um acordo. A mudança, para os dois, deve ser interior. Não aconselho uma mudança tão significativa de vida sem muita reflexão, orações e diálogos. Sobretudo, estar aberta à experiência, sem colocar um ponto definitivo na escolha. É preciso conhecer o que se está abraçando. Eu tenho refletido muito sobre isso, daí estas “reflexões” em forma de texto. Não estou querendo convencer ninguém, nem tenho qualquer autoridade. Mas, com certeza, eu entrei nesta “vida” achando que seria uma coisa, e está sendo diferente: mais duro, e no entanto, com muito mais sentido.
      Obrigada por comentar! Vamos ver o que consigo dialogar contigo na próxima parte….

  3. Eu vou desabafar nesse comentário…por favor, entendam que nao estou julgando ninguém, pois como uma conhecida minha disse uma vez, quando a mae tem realmente necessidade de trabalhar fora para sustentar os seus filhos, o Espirito Santo vem e consola as criancas…
    Bem, eu fiquei em casa quando vim para São Paulo, por um motivo: após acabar a pós graduação, ficou claro que eu nao teria como trabalhar sem apoio logístico de qualidade… E esse apoio nao se resume a boas empregadas ou escolas… É muito mais: engloba avós e tias de boa vontade…
    Eu sempre discuto com as pessoas: que negócio é esse de emancipação feminina que não contempla o fato de sermos mães? Profissões em que se podia trabalhar em tempo parcial, como professoras, foram degradadas e ridicularizadas como profissões “femininas”. E por isso que eu digo que o feminismo odeia as mulheres…nao somos versões “castradas” dos homens, somos seres humanos diferentes dos homens em muitas coisas. Será que é um grande problema filosófico aceitar e organizar o mundo sob essa premissa?
    E tem mais um agravante nessa história: a lei do empregado doméstico… Foi aí que eu desisti de voltar a trabalhar, mesmo! A empregada ia ganhar mais do que eu!
    Lógico que há consequências financeiras, lógico que temos um padrão de vida inferior ao de muita gente… Mas, quer saber de uma coisa?as minhas lembranças de infância giram em torno de pessoas, nao de coisas, e nas lembranças dos meus filhos vai estar a mae deles muitas vezes… Aproveito para educa-los na fé, exigir estudo e cultura, vigiar suas amizades e virar, muitas vezes, “mae” de guris vizinhos cujas mães estão trabalhando fora…

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