Relato do meu parto: conclusão

Parto de Lupita, 16/03/2012

Chegamos à parte final do meu relato, e de como esta história terminou! Demorou a sair, pois Lupita pegou uma gripe, o que fez administrar muitas coisas nos últimos dias. Incluam a pequena nas suas orações, para que se recupere inteiramente, com a graça de Deus e de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro! Valei-nos São Brás, Santa Liduína e Santa Gianna, que já é a pediatra da minha filha!

“No meu trabalho de parto, o obstetra estava com medo”

Ao entrar na sala de parto, estava com 7 cm de dilatação e não consegui perceber ao certo como algumas coisas aconteceram. Por exemplo: ignoro em que momento colocaram o soro na minha veia. Não creio ter sido a dor o fator que acabou por me deixar alheia à situação, mas antes o ostracismo em que me colocaram. Fui praticamente ignorada por toda a equipe médica, a começar, é claro, pelo obstetra; em  contrapartida, também eu o ignorei completamente, pois mal o podia reconhecer. Ele, que sempre fora tão calmo durante as consultas, estava extremamente ansioso, e me fazia perguntas do tipo “você está com quantas semanas?” – o que me levou a crer que ele não fazia ideia de quem eu era. Falou de cesárea ainda algumas vezes (quando minha bolsa foi rompida, por exemplo, avisando que me levaria para a cirurgia caso o liquido estivesse verde), até que finalmente me deixou em paz, sentada na cama e sozinha, enquanto ele falava com alguém no telefone.

Estava na intitulada “sala de parto humanizado” do Hospital Português, e senti pena de mim mesma, no meio de bolas de pilates e acessórios que provavelmente nunca foram usados; dava-me por satisfeita de ver que pelo menos iria ter minha filha na posição que eu queria (com a cama inclinada e os pés apoiados, como se fosse de cócoras). O anestesista (que colocou alguma coisa na minha coluna, um cateter, pelo que eu entendi , “caso eu precisasse ser encaminhada para a cesárea às pressas) perguntou se meu marido e eu éramos “naturalistas” para optar pelo parto normal. Francamente, esta parte foi uma tragédia. Não fosse a intervenção divina!

Logo começaram a vir as dores em que não é preciso mais fazer tanto esforço – o corpo faz uma boa parte sem que possamos controlar, e começa a empurrar o bebê para baixo, como quando temos uma dor de barriga. Pensava que, se por um lado eu sentia dor, por outro minha filha sentia o corpinho sendo massageado para passar mais tranquilamente pelo canal. Devia ser tão bom para ela! E tão pouco faltava para eu ver o seu rostinho: uma verdadeira injeção de ânimo!

Da minha parte, todas as pessoas poderiam sair da sala, onde só restariam meu marido e eu, e a única enfermeira que se preocupou com o meu bem-estar. No entanto, na hora em Lupita nasceu, deviam ter umas 10 pessoas, incluindo algumas enfermeiras que entraram na hora apenas para ver um parto normal acontecer naquela maternidade (uma delas me confidenciou isto depois, quando eu já estava no quarto). Doutor X, meu obstetra, parecia querer anular a minha presença para ver se tudo aquilo passava mais depressa e se resolvia mais fácil, afinal, eu o tirei do meio de um congresso, e ele não tivera tempo para pegar a minha “ficha”. Sem exames nas mãos, ele ainda me perguntou o peso estimado da minha filha (faltando 10 minutos para ela nascer) e foi exatamente no momento em que ela nasceu, que eu percebi que por pouco eu não fui ainda mais enganada.

Minha filha nasceu com circular de cordão. Na primeira ultrassom que fiz com doppler, Doutor X e eu tivemos o seguinte diálogo:

Doutor X – A ultrassom com doppler serve para ver a circulação do bebê, ver sofrimento fetal e também circular de cordão.

Eu – E se tiver circular de cordão? O sr. age como?

Doutor X – Se você pesquisar, verá que isto não é indicativo para cesárea.

Eu – Que bom.

Doutor X – Mas a gente pede para ver e ter mais segurança.

Eu – Mas não indica cesárea.

Doutor X – Não.

Passemos para o dia do parto. Quando as pediatras estavam ao meu lado verificando minha filhinha, eis o outro diálogo:

Doutor X – Que bom para os seus planos que a doppler não pegou isso.

Eu – Mas o sr. disse que não ia ser indicativo para cesárea…

Doutor X – Eu ia sim, com certeza eu ia fazer a cesárea.

No dia seguinte, ele conversou com meu esposo e eu, tentando se explicar sobre o assunto, mas nada mais me importava. Ele havia dito o que eu queria ouvir no início, e era bastante capaz dele me conduzir à cirurgia alegando outro motivo qualquer, uma vez que a doppler tivesse “acusado” a circular. Eu provavelmente nunca saberia. Pensei na quantidade de mulheres levadas à cesariana por motivos que elas nunca chegaram a conhecer a fundo, porque neste quesito, os médicos têm tudo a seu favor.

“Conhecer a dor do parto é fundamental para enfrentá-la”

Como uma parte considerável das mulheres, o meu imaginário do parto normal fora construído por situações artificiais (televisão, cinema). Quando olhamos uma cena destas (construída cuidadosamente para criar tal efeito, e portanto, afastar as mulheres do parto), temos a plena certeza de que a dor do parto é fruto do esforço de um bebê tão grande atravessar um local tão pequeno. Isto simplesmente não é verdade: a dor do parto parece uma dor completamente “falsa”, no sentido em que parece ter pouca relação com o que está acontecendo visualmente. Explico: a passagem do bebê não dói, o que dói são as contrações, no pé da barriga. Sentia a minha filha encaixar, coroar, e atravessar (de tão gordinha, ela entalou na barriga), e no entanto, a dor permanecia a mesma do meu trabalho de parto, apenas mais intensa. Portanto,  estas coisas aconteciam sem que provocassem elas mesmas a dor. Nossa musculatura está bem preparada para parir naturalmente, não há qualquer violência do parto neste sentido. De tal forma que, uma vez que o bebê nasce, não existe a mínima sombra de dor. Saber disso tranquiliza muitas mulheres. Minha irmã ficou muito surpresa de saber, pois todo o medo do parto normal parece vir do local onde a dor é sentida. Uma vez que se sabe que a dor está em outra direção, ela se torna viável para muitas.

Dando seguimento ao sofrimento moral que senti durante o parto (pois do físico, não tenho queixas), tão logo meu marido foi com as pediatras levar Lupita ao berçário, eu me vi sozinha na maca, com uma técnica de enfermagem, que me deixou no corredor da maternidade por quase 1 hora.  Depois, esperei por horas a fio até que finalmente meu marido conseguiu me encontrar já no quarto, e juntos aguardamos pela vinda da nossa filha, o que não aconteceu. Ela ficaria em observação até a manhã seguinte, o que fez com que eu passasse mal. Não conseguia respirar. Queria levantar e subir à Neonatal para vê-la, mas tremia muito. Acordei várias vezes durante a noite, somente para me dar conta de que, pela primeira vez em 9 meses, estávamos separadas. Pensava no quanto ela precisava de mim e nem ao certo sabia o que ela tinha…

Nasceu com “desconforto respiratório” e ficou ainda 6 dias na UTI, o que me deixou confusa até hoje. Não estava ligada a nenhum aparelho e também não estava sendo medicada. Estava em observação, até que a respiração normalizasse, o que, dizem, aconteceu no terceiro dia. Então, foram mais quase quatro dias tendo de ouvir que ela estava internada porque regurgitava (imagino a surpresa de muitas mães ao lerem isso) e não estava aceitando a “dieta” – minha filha, que teve de usar sonda, tomar leite artificial e ser amamentada, tudo ao mesmo tempo. Como eu recebi alta no domingo pela manhã e Lupita ficou internada até a quinta seguinte, eu voltava para casa à noite tentando me convencer de que no dia seguinte a veria de novo.

A gordinha, com 3 dias de vida! Olhem como ela encara a câmera! 

Algumas pessoas ficaram alegremente “indignadas” com o tamanho da minha filha: de fato, ela nasceu grande e esperta, com quase 4 kg. Não posso descrever a dor de deixá-la, todos os dias, até que ela finalmente recebeu alta  – eu já estava quase transferindo ela de hospital, porque não conseguia entender o que estava acontecendo. Recebemos muita pressão para amamentar, e nos primeiros dias em casa, eu não dormia. Tinha medo dela colocar tudo para fora, cheguei a desmaiar de tristeza, chorava copiosamente e por pouco não fiquei em depressão profunda. Tinha medo até de tocá-la. Lembro-me claramente de quando ela estava em casa, já há 4 dias, e eu simplesmente comecei a fazer massagem nela, beijando e apertando, finalmente me dando conta de que ela era minha!

Quando ela estava com quase 15 dias, colocou “resto de parto” para fora (resíduo do líquido amniótico), e quase engasgou. Vivo – e viverei para sempre, agora que sou mãe – num misto de alegria, cansaço e apreensão. Há quase 2 meses não durmo mais do que 2 horas seguidas, mas como sou feliz! Finalmente, a casa começa a ser preenchida – e assim seja em todos os anos em que Deus desejar nos presentear com mais uma vida! Queira Nosso Senhor que ainda venham muitos, se assim Ele o quiser – não levando jamais em conta os méritos e talentos da mãe (deixo a desejar).

Conto com as orações de todos, sobretudo pela minha filhinha, e espero que este relato tenha ajudado, de uma forma ou de outra, quem por aqui passa. Foi especial e tenho saudades, apesar de tudo. Não é possível narrar todos os pormenores, contudo. Deixo-vos com algumas fotos. Salve Maria Santíssima!

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3 comentários sobre “Relato do meu parto: conclusão

  1. Lindo relato, muito inspirador, já vim aqui lê-lo diversas vezes. Você tem intenção de escrever o relato do parto do Dimitri? Parabéns pela linda família. Que Deus abençoe.

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