A vida no lar e o trabalho fora dele –Terceira parte.

551695_247118645398375_74799866_nQuando se fala em trabalho fora do lar, algumas pessoas podem ter uma ideia equivocada sobre o que realmente dá sentido a esta discussão. Lembro-me de ter conversado com muitas mulheres sobre o assunto, e algumas reivindicações delas incluíam coisas “fantasiosas”. Os exemplos mais pertinentes que escuto:

– “Posso trabalhar porque muitas santas trabalharam, dirigiram até nações (a exemplo das rainhas); a própria Santa Gianna foi médica, Santa Edith Stein, professora e filosofa, etc.,etc. “

– “Minha avó criou 13 filhos e saía de casa todos os dias para trabalhar na feira, você acha que ela foi menos mãe porque não podia estar o tempo todo com eles?”

Chamo-as de fantasiosas porque nos fazem querer justificar nossas atitudes com base num aspecto bastante isolado da vida de outra pessoa. Definitivamente, não é desta maneira tão radical que devemos fazer nossas escolhas; agindo assim nos assemelhamos às crianças que, sem refletir, reclamam o direito de reproduzir a ação ou escolha de seus pais, sem poder ter qualquer dimensão da grande distância entre as duas partes. Você não está livre de seus dilemas maternais e profissionais somente porque é médica, esposa e mãe católica, tal como Santa Gianna. Não é este o aval de que você precisa; não é isto que vai resolver todos os seus problemas, até porque enquanto você tem um consultório que exige sua presença diariamente por longas horas e seu primeiro filho está na creche, Santa Gianna teve 4 filhos em 5 anos, e continuou exercendo sua “carreira profissional” de maneira caridosa. Sejamos justas ao seguir aqueles que tomamos como “exemplo”, pois de fato esta santa deu o melhor testemunho de profissional e mãe que uma católica poderia dar: aceitou todos os filhos que Deus lhe deu (até mesmo deu sua vida por isso), não espaçou os nascimentos por conta de sua “carreira”, usou sua formação para fazer caridade e atender os mais necessitados sem descuidar da família, entre muitas outras coisas! De fato, se você vai ser mãe e profissional como Santa Gianna o foi, está no caminho certo.

Muitas moças e jovens senhoras têm sonhos. Elas desejam exercer profissões, porque isto é como se tornar alguma coisa concreta. “O que você vai ser quando crescer?” é uma pergunta recorrente na infância; todas nós passamos longos anos de nossas vidas nos preparando para isto. Toda a minha vida escolar se resumiu a ter uma boa chance – estudando, portanto, em “bons colégios” – de exercer uma profissão de nível acadêmico. Não me lembro de incentivos à coisas e assuntos que eu tivesse apenas prazer de estudar; certamente meus pais não me fizeram ter uma visão de mundo de acordo com a doutrina católica (o que teria me ajudado bastante) e, acima de tudo, não houve qualquer preparação para a grande missão da minha vida – ser esposa e mãe. Não se trata apenas de aula de culinária ou organização do lar, mas principalmente de investigação intelectual e espiritual: afinal, o que significa casar e ter filhos? O que é realmente ficar em casa, assumir os cuidados da família e por que é relevante que eu faça isso?

Subestimamos as respostas a estas perguntas. Não é raro ouvir uma mulher dizer, de forma natural, que a vida de família e o aconchego do lar são imprescindíveis à formação do vínculo entre os esposos e os filhos. No entanto, a  maioria dos lares hoje permanece vazio durante o dia. Uma de minhas mais caras lembranças dos tempos de criança é a casa da minha avó, que nunca estava ociosa e vivia habitada por muitas mulheres. Minha avó, uma tia, uma madrinha, e mais uma filha adotiva de vovó moravam juntas, e raro era o dia em que não recebiam visitas de vizinhas e parentes. A cozinha estava sempre ocupada por alguma delas; a conversa era praticamente ininterrupta; as atividades bem organizadas. Eu me sentia segura, sempre ocupada com minhas brincadeiras, mas o tempo inteiro a observar a vida daquelas mulheres. Além de minha própria mãe – que era dona-de-casa – eu tinha outras diversas fontes femininas em que me inspirar, e isso, é claro, influencia a minha vida atualmente. Um pouco de cada uma está presente no meu cotidiano.

Eu me pergunto quando me tornarei uma mulher como minha madrinha. Ela não tem nenhuma “formação” intelectual invejável, é na verdade uma pessoa muito simples, mas ela é uma mulher forte, tal como a bíblia descreve; em pouco tempo dá conta das tarefas de casa, cozinha rápido e sem planejamento e, apesar disso, se tem bolo, sopas e assados no mesmo dia sem que seja um grande acontecimento; narra as histórias de quase todos os membros da família, pois podia estar de lá a cá entre eles: era livre para isso. Ninguém conta como ela os sofrimentos das pessoas que conviveram e ainda convivem conosco … eu percebo nela, e em outras mulheres de “sua época”, uma disponibilidade que nossa geração de senhoras independentes e trabalhadoras está fadada a jamais ter. Ela está comigo hoje, quando acabo de ter mais um bebê, e a exemplo de Nossa Senhora, passará três meses me servindo para aliviar o meu dia-a-dia. Você não vai encontrar entre as mulheres de hoje alguém que faça isso como rotina; alguém que tenha tantas (mas tantas) obras de caridade. Em contrapartida, eu me programo para quem sabe um dia visitar um doente.

Não sei se vocês conseguem perceber a dimensão disso. Para alguns parece pejorativo, mas estas “coisas de mulheres” só podem ser feitas realmente por mulheres; uma mulher pode passar a vida toda dedicada a aprender a construir um prédio? Claro. Mas, ela fará falta se não o fizer? Fará falta para sua família e para o mundo? Pois se ela deixa as suas coisas de “mulherzinha” de lado, quem o fará? Não serão os homens. Cria-se uma lacuna, tal como vemos hoje, em tantos problemas da sociedade.  Se o papai e a mamãe estão ambos ocupados em terminar o ofício, quem terá a ociosidade de observar os filhos por horas a fio, brincar com eles, etc.? Na minha época as crianças criadas por suas próprias mães ainda eram maioria, mas hoje, quando muito, os filhos têm sorte quando são “olhados” por suas avós. “Que bom que eu tenho minha mãe para olhar a minha filha”, disse-me outro dia minha vizinha. Sim, que bom. Sua mãe cuidou ela mesma de você, e quando chegou a tua vez, passaste a bola também para ela – diga-me, o que acontecerá quando tua filha tiver os filhos dela? É este um jogo de passar adiante, ou terá de recorrer à bisavó, que não estará mais viva? Creio ser bem capaz, já que não se fazem mais mulheres como “antigamente”.

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9 comentários sobre “A vida no lar e o trabalho fora dele –Terceira parte.

  1. Luciana, Salve Maria!

    Palavras verdadeiras e corajosas as suas. Também estou nessa luta, em casa com meus dois filhos, por enquanto uma de 3 anos e outro de 1 aninho. E lutando para aprender ser mãe, dona de casa e esposa. Afinal esse é nosso dever de estado quando nos casamos. É em cima disso que seremos cobradas no dia do Juízo.
    Sempre que eu lia uma lista de exame de consciência para confissão, me deparava com “cumprir os deveres de estado” e eu não entendia. Demorei para entender. Agora, vem a luta do dia a dia, buscar ser uma boa esposa, uma boa mãe e uma boa dona de casa.

  2. Olá Luciana,

    Também não fui educada e preparada para ser esposa, mãe e dona de casa. Desde que casei que aprendi muito sozinha, lendo e partilhando experiências. Venho de uma família católica não praticante e acho que foi o Espírito Santo que me orientou e me ajudou a progredir na fé. Só fiz o Crisma quando já estava na faculdade, por opção própria. Membros da minha família seguem o caminho oposto e agora que sou mãe e educadora tenho dificuldade em explicar essas diferenças para os meus filhos. Como você lida com estas diferenças na família? Como explicar que, por exemplo, os primos não são batizados, que o tio e a tia ainda não se casaram, que os avós não vão à Missa? É cansativo e temo que as explicações que tenho dado, de que nem todas as pessoas têm fé, que devemos rezar por elas e dar-lhes bom exemplo, não sejam suficientes quando os meus filhos chegarem à adolescência e estiverem no meio desde mundo.

    Já agora mais uma vez parabéns pelo bebé, tem uma linda família que está nas minhas orações. Que Deus vos dê muita força.

  3. Luciana, sempre pertinente no que escreve, nos toca profundamente, impressionante como concordo com TUDO o que pensa! Mande-nos notícia do seu parto e do seu filhinho!

  4. Olá Luciana, salve Maria!
    Já troquei e-mails com você há um tempo atrás, sou de Olímpia/SP.
    Em breve passarei por uma situação semelhante a sua, pois tenho um bebê de 11 meses e estou grávida de 04. Ele ainda mama e iniciei a mamadeira estes dias, cerca de duas por dia, mas ele ainda mama durante o dia e principalmente a noite/madrugada.
    Certamente você também teve que desmamar a Lupita, gostaria de saber como foi este processo e também, se possível, poderia relatar um pouco como tem sido a reação dela diante de um bebê, já que crianças que mamam no peito ficam muito apegadas a mãe.
    Que Nossa Senhora abençõe sua família e continue lhe dando forças.
    ps: Há cerca de um ano, eu e meu marido ficamos amigos do Sr. Marcos Luiz Garcia (IPCO) você também o conhece?
    abraços,
    Carla Martins Melotti.

  5. parabéns pelo seu blog,ele nos ensina como ser mãe, mulher ,esposa e dona de casa a serviço de NOSSO DEUS AMADO,E TEMOS COMO EXEMPLO DE MÃE , MULHER E SERVA DO SENHOR NOSSA SENHORA.

  6. Muito pertinente!!! Sou casada, uma filha de 2 anos e professora em meio período. Enfrento muitas dificuldades semelhantes. Compreendo o que quer dizer dessa “senhora forte” de sua familia que está com vc, atualmente não somos preparadas para isso (nossa geração)… ao ter minha filha (com 28 anos) achava-me preparada para a maternidade, mas então tive tantos problemas! Casa, esposo, um bebê nos braços querendo mamar frequentemente…. e tudo isso me pareceu demais!!! Como rezava! Ainda mais do que antes! E atualmente fico em casa de manhã com minha filha, e a tarde minha mãe cuida dela…. mas tudo isso com muitas angústias! Que Nossa Senhora nos fortaleça em nossa missão de mães!

  7. Bom dia, Luciana,
    espero q todos vc estejam bem…
    Gostei de uma palavra no seu texto: a disponibilidade. É uma pena que a nossa sociedade tão egoísta e hedonista não a reconheça mais… Mas, se eu for parar para pensar, vou me perguntar: por que reconheceria? Todas as qualidades femininas foram atacadas, distorcidas… O padrão feminino é “charfurdar na lama”… O inimigo tinha de atacar as mulheres… E as mulheres tinham de ouví-lo…
    Mudando de assunto, gostaria de pedir algo a vc… Que tal colocar um link aí no blog com sugestões de leituras? Sei que iria aumentar o seu trabalho, mas bons livros devem ser exaltados… Abraços…

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