Não é a minha história de conversão

– Por que você não escreve sua história de conversão? – escuto novamente a mesma sugestão.

Histórias de conversão geralmente possuem um sabor extraordinário: uma espécie de componente mágico que nos retira do mundo temporal, na forma d’alguma lição de vida. Não foi o meu caso. Em determinado momento, há alguns anos atrás, eu decidi que (finalmente) seria católica e seguiria a minha religião de infância. Na época me pareceu bastante razoável e só. Mas não é apenas por isso que não escrevo… acontece que, mesmo depois que eu me converti e tudo o mais, cometi erros que muitos considerariam “imperdoáveis” e não acho justo escrever um belo testemunho e omiti-los. E como não quero me expor (a verdade é que eu acho que não seria nem mesmo interessante), não escrevo.

 Algumas pessoas usam o termo “católico tradicional ou conservador de internet” de maneira bastante pejorativa.  Eu fui (talvez ainda seja), em boa parte, uma católica conservadora de internet. Eu não sabia nada, mas queria muito – levada pela graça especial aos convertidos – fazer tudo certinho. Não tinha missa tradicional na minha cidade  (aliás, no início eu nem sabia direito do que se tratava), não tinha grupo, não tinham pessoas. Eu estava apenas saindo da grande confusão que era a minha vida e queria respostas. Para alguém que passa boa parte da vida sem julgar o certo e o errado, querer fazer as coisas “direito” não pode ser um meio-termo. As pessoas que se convertem tardiamente tem um lado positivo: elas querem seguir as coisas como estas constam no livro, porque às vezes o livro é tudo o que ela tem. Então, se no catecismo está escrito que o Domingo é dia de preceito, o convertido real toma isto como verdade absoluta, enquanto o “católico de berço” pode não ter muita certeza que cometeu pecado mortal se abstendo. Na verdade, se formos justos, todo mundo que é mais ou menos sério hoje em dia aprendeu alguma coisa na internet. Ainda que vivam muita coisa no mundo real.

É evidente que alguém nesse contexto terá muitos problemas. Por mais claro que sejam os livros dos santos; por mais que eu tenha inteligência suficiente para ler uma encíclica; por melhor que sejam as minhas intenções, haverão muitas interpretações equivocadas ou simplesmente fora de contexto. Não só isso, claro. Ter direcionamento, em todos os sentidos da palavra, faz muita falta, pois quando a Igreja toda vai mal, você vai junto. E o maior problema continua sendo a “nossa história de vida”, ou seja, quem realmente fomos até ali, pois para entrar em estado de graça bastam alguns segundos – já para se converter, leva-se toda a vida.

Nesse momento de aridez espiritual, eu faço muitas reflexões. Eu já fui uma daquelas pessoas que, atropelando o próprio relógio, quis resolver rápido demais o passado. Lembro-me de muitas discussões, nas quais eu queria convencer os demais da grande verdade recém-descoberta.  Talvez a minha clareza sobre os fatos fosse em parte sincera, mas hoje eu só consigo sentir saudade do tempo que eu tinha para compreender as coisas que agora meu coração e minha alma colocam em dúvida. Em muitos casos, um tempo que eu dispensei.

Comparando nossas vidas com as histórias que lemos nos livros, eu acho que passei por aquele momento de ingenuidade em que o herói, cheio de si, acha que não precisa do mapa. Algumas pessoas fazem isso. Conheço uma pessoa que se casou depois de um mês de relacionamento. “Mas você não vai noivar?” – era a pergunta que todos faziam. Ela casou assim mesmo, porque eles já sabiam o que era o santo matrimônio católico, e nada podia dar errado, não é mesmo? Mas, aqui, no mundo real, onde você e eu fomos criados com televisão e cinema, praia e muita música, ninguém é Luis Martin e Zélia Guérin. As coisas estão cada dia mais difíceis. Acho que não deveríamos ignorar o mundo em que nós vivemos nem de brincadeira. Eu não digo isso para ceder à ele, mas para vencê-lo.

Nesse mundo, vai ser muito mais complicado fazer algumas mudanças. Eu vejo isso em muitas trocas de mensagens com pessoas que, como eu, querem fazer as coisas do jeito certo quando se convertem. Na verdade, é maravilhoso saber que Deus tem um plano para as nossas vidas, mas não estamos nunca muito certos  no que consiste esse plano. Há muitas mulheres que me escrevem apreensivas porque têm medo de terem muitos filhos, por exemplo. Elas enfrentam muitos problemas e questionamentos. Algumas pessoas podem achar que é simplesmente falta de generosidade da parte delas, mas se você vive no mesmo mundo que eu, por mais que seja radical nesta questão, sabe que não é assim. As pessoas que acham que, atualmente, o maior problema de  se ter muitos filhos é financeiro, certamente não têm mais do que um ou dois filhos. Esse não é, nem de longe, o maior problema.

O maior problema somos nós, e a nossa mentalidade, o modo como enxergamos as coisas. É como se alguém estivesse falando sobre uma dimensão da imagem que não temos mais a capacidade de ver. Há pessoas que possuem a virtude da confiança mais aprimorada, e seguem, apesar disso. Há outras que não sairão jamais do lugar. Na verdade, cada um de nós, em algum aspecto da sua vida, vai ser um pouco das duas coisas. Eu acho que essa é, definitivamente, a coisa mais significativa que eu posso dividir com vocês sobre o meu processo de conversão.

 

 

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4 comentários sobre “Não é a minha história de conversão

  1. Oi Luciana,
    Salve Maria!

    Primeiramente fico muito feliz que tenha voltado a postar com frequência, principalmente pela entrega e esforço que isso exige frente a seu tempo tão curto. Que Nossa Senhora possa lhe recompensar pelo auxílio que seu blog é para tantas pessoas.

    Obrigada também por estas palavras. Pude me identificar muito com seus sentimentos, notadamente com esse desejo de fazer “tudo do jeito certo”, e ao mesmo tempo se sentir tão sem direcionamento.
    Me vi tão perdida e tão sozinha nesse caminho. Por isso, dei glória á Deus quando encontrei você e todas as meninas da comunidade de Modéstia no orkut.
    Mas há muita dificuldade em fazer de uma adulta que teve uma vida toda torta em uma moça católica no mundo ideal.

    Penso que ás vezes há um cobrança alta demais, mas no fim das contas vejo que Deus não pede a vitória pede a luta! Então, mesmo não conseguindo temos sempre que tentar. ^^

    Fique com Deus! ;)

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