Diário Espiritual II (sobre os defeitos)

Este é um trecho do meu diário espiritual. É muito pessoal, por isso, peço a gentileza de não re-postar sem autorização.

Não sei se temos real dimensão de nossos defeitos. Mas se você não passar por nenhuma guerra ou catástrofe; se não for colocado diante de uma grande provação, que claramente lhe pedirá as contas, ainda resta essa gigantesca empreitada (talvez a maior de todas): vencer a si mesmo.

Acho que antes de nos casarmos a maioria de nós convivia bem com o nosso pior defeito. Ele parece nos acompanhar a vida toda, mas facilmente não nos damos conta de que ele é um personagem tão constante que pode ser mais familiar que um de nossos parentes. Se olhar para trás, posso tomar consciência dele em memória  antiga; é como um daqueles filmes em que a cena da infância traz algo revelador e simples: tudo começou quando você ainda nem tinha consciência.

Digo antes de casarmos por alguns motivos em particular. Vamos aos exemplos. Meu tio N*. Sempre foi um garoto nervoso. Na juventude se envolvia em pequenas brigas e discussões. Chegou a bater em alguém e a apanhar. Essas coisas não aconteciam mais que duas vezes por ano. Era apenas tido como um sujeito “esquentado”, e, rigorosamente falando, não se podia dizer muito mais do que isso. Nem ele mesmo podia. Quando ele se casou, porém, sua esposa passou a viver o purgatório na terra: as brigas e discussões eram algo constante, para não dizer diárias. “Só eu sei o que levei para casa” é uma frase que poderíamos atribuir à ela.

O Sr. Rodrigues detestava o namorado da filha porque ele já tinha um filho com outra mulher. Não importava o fato de que o garoto se mostrava arrependido. No entanto, o sr. Rodrigues não ficou nem um pouco surpreso quando o mesmo aconteceu com sua filha e ela engravidou do rapaz, antes do casamento. O pai via o maior defeito dele, e não estava muito certo de que ele havia se vencido. Quando finalmente se casaram, sua filha pôde compreender que as coisas da vida não podem se resolver tão facilmente. “Se você detesta muito o defeito de uma pessoa” – ele dizia – “não se case com ela“. Mais do que mudar, as pessoas precisam tomar decisões todos os dias. “Você está pronta para conviver com isso? Poderá culpá-lo todas as vezes em que ele reincidir no erro, e vier lhe pedir desculpas, até o dia – que pode facilmente ser até a morte – em que ele ganhe a batalha?

Gosto de tomar esse questionamento para mim mesma. Eu sempre fui uma garota muito orgulhosa. Meu orgulho está muito bem documentado nas minhas amizades durante a vida: pessoas deixadas para trás quando a mágoa era muito grande. Então, eu podia fazer um exagerado juízo sobre mim mesma, e de como dificilmente eu havia merecido aquilo; isso não me levava à inimizade, mas eu reforçava a mais absoluta convicção de as coisas não podiam voltar a ser como eram antes. Isso é verdade, em parte. Nada permanece igual. Mas isso sempre me paralisou muito. Na prática, eu ia embora.

Então agora – não o digo literalmente, mas como alegoria – tenho de perdoar meu marido e não posso ir embora. Nem na teoria e nem na prática. Tenho irremediavelmente de lidar com a minha “verdade” construída ao longo da vida ( “nada é exatamente como costumava ser”) e ver o que acontece quando essa verdade me olha de volta, porque eu não dei as costas. Partir era uma espécie de punição para o outro. Mas eu não posso punir a quem mais amo, ao contrário; minha alma viciada, em contrapartida, procura a todo momento lidar com essa minha permanência, lhe perguntando incontáveis vezes como as coisas ficam de agora em diante. É este um problema do meu marido, ou meu?

Meus pais provavelmente nunca conheceram o meu maior defeito. Eu também não conheci os deles. Sendo filha de pais separados, passei boa parte da minha vida me perguntando a razão daquela ruptura tão violenta entre eles. A traição explica isso? Ela explica como duas pessoas passam 17 anos juntas, para então não darem mais “certo”? A falta de perdão sempre me pareceu o ponto definitivo. Eu não digo simplesmente perdoar uma traição, mas perdoar o fato de que a pessoa não quer ser perdoada. Até mesmo isso passa. Tudo passa, disse Jesus, exceto as Suas palavras. É a confiança nelas – “Não separe o homem o que Deus uniu” – que precisa prevalecer. Parte do mistério do matrimônio é receber a única pessoa que irá conviver com você de fato, quase nas suas entranhas. Eu vivi com meus pais até a adolescência; depois um pouco com cada um. Talvez eles tenham alguma ideia do meu temperamento difícil, mas eles jamais poderiam supor o que eu realmente posso fazer para magoar alguém que eu amo. Eles não podem supor e nem imaginar Luciana na intimidade, assim como meus filhos só terão acesso a mim em parte. Sempre parecia que existia uma outra vida acontecendo atrás da porta do quarto do meu pai e da minha mãe. E de fato, há. O quarto é a simbologia perfeita para a relação tão próxima dos corações do marido e da mulher.

(…)

Anúncios

Um comentário sobre “Diário Espiritual II (sobre os defeitos)

  1. Ainda não me casei, mas costumo refletir muito sobre o assunto, já que pretendo me casar logo. Gostei muito do texto e pude me identificar com ele. Acho que o orgulho prejudica bastante o relacionamento e preciso aprender a lidar melhor com as situações vivenciadas no dia a dia, a fim de que eu consiga perdoar de coração. Obrigada!

Este blog tem proteção contra comentários com conteúdo impróprio e palavras de baixo calão. Críticas só construtivas. Obrigada!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s