É possível ensinar moral e virtudes através da Literatura?

por Luciana e Vladimir Lachance

narnia

Perguntaram para Luciana se seria possível trabalhar as virtudes e a moral (ética) na educação domiciliar a partir de obras como As Crônicas de Nárnia, Os Contos dos Irmãos Grimm, O Livro das Virtudes para Crianças.

Ela respondeu no Facebook. A partir da resposta, expandi o comentário e fiz alguns adendos (principalmente com alguns exemplos).

Eis:

Todos os livros mencionados estão na nossa estante familiar. Mas, ocupam o espaço relativo à literatura e os trabalhamos principalmente nesta perspectiva.

Explico.

Neste tipo de livro, a virtude – mesmo no Livro das Virtudes para Crianças – deve ser apenas uma imagem do que seja a virtude real. Usar um livro como As Crônicas de Nárnia para ensinar moral, cristianismo, virtudes (coragem, fé, etc.) leva, invariavelmente, a certas complicações, porque contém imperfeições explícitas, e não apenas isso: as passagens que poderiam ser utilizadas para trabalhar esses pontos são insuficientes para construir uma ideia clara do que sejam a virtude, moral, etc.

É preciso que a criança aprenda bem a fé e a moral cristã no catecismo e na prática da religião, a partir de definições, de verdades evidentes. Se ensinamos a fé e a moral através de imagens literárias, é bem provável que criaremos ideias não tão claras sobre fé e moral para as nossas crianças.

Portanto, se a criança aprende bem a fé e a moral cristã – no catecismo e na prática da religião -, se entende o que é a coragem pelo exemplo dos santos (me parece que o melhor, neste caso, é fazê-lo através das biografias de santos romanceadas), então, e somente então, ela tomará com algum proveito o tal cristianismo em Nárnia, que contém até menções a inverdades bíblicas: 1. Dizer que Lilith foi a primeira mulher de Adão – está no primeiro volume de Nárnia, O sobrinho do Mago; 2. Explicar a Ressurreição como uma “magia profunda”, uma espécie de artifício quando a pedra se quebra e “morre” no lugar de Aslam – está no segundo volume, O leão, a feiticeira e o guarda-roupa; 3. Edmund enquanto representação de Judas, mas que, diferente dos Evangelhos, se arrepende e é perdoado por Aslam (Cristo): é de causar uma confusão enorme!; 4. A relação de Nárnia com as figuras mitológicas: Baco, ninfas, etc.

Há ainda outras coisas, mas esses pontos já ilustram como não é tarefa fácil utilizar a literatura como ferramenta de ensino moral e religioso. E talvez não só não seja fácil, como pode ser de fato equivocado esperar que a literatura possa cumprir essa função. A virtude em livros tais só tem proveito quando a criança conhece o real. Ela não deve apreender algo tão precioso como as virtudes em uma literatura que é somente transversal: a virtude pode até estar ali, mas ela está diluída, simplificada ou simbólica. Mas se conhecer o real, então o símbolo ganha força.

Quanto aos contos de fadas, servem mais para a imaginação e para apresentação do conceito do mal que das virtudes.

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3 comentários sobre “É possível ensinar moral e virtudes através da Literatura?

  1. Eu já tinha um pouco de dúvidas se deveria comprar e ler as Crônicas de Nárnia para os meus filhos. Mas depois que você falou sobre , por exemplo, o primeiro homem ser Adão e a primeira mulher Lilith, entre outras tantas coisas, acho que confundiria sim a cabecinha deles.
    É melhor que cresçam mais. Não sei, vejo famílias que dão uma educação esmerada aos seus filhos , em todos os sentidos, e lêem as Crônicas para eles, mas, no meu caso, eu não me sinto segura para iniciá-los nesta literatura.
    Cristiane.

  2. Olá. Realmente há aspectos nas Crônicas de Nárnia que geram certa confusão, como as alusões a dríades, baco, ninfas, etc. Porém, com relação a Edmundo, acho que o personagem é uma referência ao ser humano em pecado e não à Judas Iscariotes. Já em relação à mesa de pedra que se quebra parece uma alusão ao véu do templo, não?

    • Olá, Margarete!
      A literatura de Lewis, segundo ele mesmo, é analógica: isto quer dizer que ele cria uma história que possui semelhanças com outras. Notamos facilmente, por exemplo, a semelhança com a História Sagrada. Porém, o perigo da analogia é que a confundimos com a alegoria com certa frequência. As Crônicas de Nárnia faz exatamente isso: estamos a todo tempo tentando perceber as alegorias do livro quando na verdade são apenas semelhanças, que podem até ser trabalhadas no ensino religioso, mas que as vezes são tão escorregadias que podem atrapalhar mais do que ajudar. A interpretação que você sugere pode ser feita, mas não resolve todas as questões: por isso considero complicado usar a obra dessa maneira.

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