Homeschooling: uma escolha pelo Tempo

Salve Maria!

Antes de me casar eu já seguia muitos blogs de homeschooling católico americano (como o maravilhoso Shower of Roses), sem ter a real certeza de que eu iria seguir este caminho. Lembro-me até hoje do dia em que fiz esta escolha. Minha filha tinha apenas 15 dias e eu conversava com uma amiga e mãe homeschooler (hoje mãe de 5 filhos, ela mantém o blog Escala Cuisenaire) e falava da minha decisão. Muitas coisas podem ter sido somadas para o resultado final, mas eu soube que seria uma mãe homeschooler quando eu tive a minha filha nos meus braços e percebi que eu não queria entregar a ninguém o tempo que eu tinha com ela. Isto mesmo: não foram as nossas escolas, não foi o MEC, não foram as más companhias no meio escolar: o que eu não queria entregar era o tempo que eu agora tinha com ela. Não é para dar uma educação melhor que eu decidi ser uma mãe homeschooler – foi para dar outro tipo de educação. Sem dúvida, você poderia dizer que este tipo de educação em casa que eu dou é melhor do que as escolas em geral. Mas para mim, não se trata disso. “Tempo é vida“, como diria Michael Ende, “E a vida mora nos corações“.

O meu coração tem profunda admiração pelas escolas e pedagogias católicas. “Eles” (todos os envolvidos) fizeram um excelente trabalho e ainda fazem nas poucas escolas que existem – em comparação com o todo – que  mantém acesa a verdadeira chama da educação católica. Meu marido é professor numa dessas escolas que, embora não sejam perfeitas, são luz neste mundo. A educação em casa também não é perfeita. Ela não é a salvaguarda de que todos os problemas que você possivelmente tem com a escola terminarão. O problema é o mundo e você não pode retirar os seus filhos dele. Não é nenhum consolo pensar que você está tirando seus filhos do ambiente escolar, mas todas as outras crianças do mundo estão indo à escola – todas as outras pessoas que, em breve, cruzarão com os seus filhos. Até porque, embora fosse bastante útil falar do mal que assola as escolas, há um mal anterior e mais profundo: o mal que assola as famílias, desestruturadas e sem fé.

Talvez a dimensão do problema seja a seguinte: a escola reúne no mesmo ambiente todas aquelas crianças, jovens e adultos que não cruzariam a vida dos seus filhos tão cedo e muito menos por tanto tempo; não causariam o tipo de influência que certamente causam 20 ou 30 alunos, numa mesma sala, a maioria oriundas de lares desfeitos ou com valores ralos. Aqui, eu encontro possivelmente o ponto crucial do problema escolar: mais do que os livros ou o ensino intelectual de baixa qualidade, está o fato de ter que enfrentar, na escola e em doses concentradas, todo o fracasso de uma sociedade estampado não em páginas, mas em rostos humanos.

Nesse sentindo, as pessoas que tomam consciência do problema escolar – que é na verdade um problema social mais amplo – buscam minimizar os danos educando os filhos em casa. A minha escolha foi anterior à minha tomada de consciência do problema. É óbvio que eu concordava que, em geral, o ensino havia decaído muito desde a minha época na infância; eu conseguia até mesmo admitir que havia um problema ideológico e moral na formação das pessoas e, principalmente, na juventude. Mas nada ainda me soava alarmante o suficiente para achar que eu deveria optar por não levar meus filhos à escola. A minha vaga ideia era a de que eu daria uma educação boa em casa, como meus pais fizeram comigo, ao mesmo tempo em que tentaria custear uma escola de nível bom (tanto intelectual, quanto social). E sem que o alarme soasse e neste contexto, eu consegui optar pela educação domiciliar, porque a desejei por ela mesma.

Este estágio não é um privilégio meu. Ele pode ser de qualquer um, mesmo que você tenha feito o caminho inverso -ou seja, tenha primeiro desejado tirar o seu filho da escola por causa das péssimas condições em todos os âmbitos.  Na verdade, eu diria que, para evitar frustrações de todos os tipos, você deveria fazê-lo: abraçar a educação domiciliar por ela mesma.  Porque a verdade é que o homeschool é muito particular. Ele não pode ser um bote salva-vidas, porque o bote ainda flutua no mar. Ele não é a terra firme, e você sabe disso pela razão justa de que nenhuma via pode lhe dar esta garantia. Até porque o navio de onde você pulou – a escola – nem sempre estava naufragando. Há pessoas que sobrevivem, chegam em lugares maravilhosos e ainda tem coisas boas para contar do trajeto. Para mim, o homeschool é como um bonde que tem seu próprio ritmo e caminha de acordo com itinerários e destinos inerentes à ele. Você não deveria considerar somente que o destino do navio convencional é pior ou – mais grave – forçar o bonde à ir exatamente para o porto onde iria antes atracar. Bondes não atracam em portos.

Eu precisaria igualmente lembrar que a viagem será tão longa quantos os anos escolares. Trata-se de tempo, portanto. O tempo que mora nos corações não pode manter-se nas razões práticas e até muito justificáveis, porque ele terminaria por justificar com maior razão o retorno à escola. Você logo encontraria todos os motivos para não levar a educação em casa adiante, pelo estilo de exigência que ela impõe. O quanto e como você passará o tempo com os seus filhos é o que mais importa.

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