Memórias sobre educação

Lendo a biografia de um dos maiores críticos literários vivos – George Steiner – eu encontrei um emocionante relato de educação familiar. Steiner narra com entusiasmo como seu pai havia lhe contado a história da Ilíada, mantendo o livro fora do seu alcance (afinal, ele era um menino), e do impacto que estas narrações “informais” e, mais tarde, as leituras de trechos em voz alta, marcaram a sua alma com altos níveis de ansiedade e paixão. Leituras, convites para conferir a tradução grega, perguntas que só deveriam ser respondidas no dia seguinte.  Presenciar um amor assim vale mais do que qualquer leitura acadêmica que se faça de Homero, anos mais tarde.

Então hoje eu mesteiner proponho a perguntar que tipo de educação posso dar para os meus filhos. Talvez o que mais se destaque na informação acima seja a menção à Ilíada. Eu compreendo. Quando você começa a fazer homeschooling é maravilhoso saber que um mundo de possibilidades se apresenta, e é normal, num primeiro momento, você achar que tudo é uma questão de escolha – escolher entre Homero ou os livros da escolinha. Você quer dar uma educação clássica? Claro. Uma educação livre? Certamente. E que tal a educação que os grandes escritores receberam? Que tal a educação do próprio George Steiner e de quem mais lhe prometerem?

Bem, talvez você pense que George Steiner foi educado com Homero. E adormecendo ouvindo Schubert. Steiner, cujo livro preferido de infância foi uma coleção de brasões da nobreza. Eu poderia fazer uma enorme lista, e você decidiria se George Steiner se tornou o que é pela sua infância e juventude com sua família ou pelo árduo – eu disse árduo – trabalho individual, durante o tempo em que estudou na Universidade e depois dela. Não importa. Se você tivesse lido dois (apenas dois) parágrafos da biografia de Steiner você saberia com toda certeza que jamais poderia ter a educação dele. Ou dar para os seus filhos. Ainda que você siga um currículo rigoroso – e realmente o ponha em prática -, desde Homero na infância até fazer seu filho adormecer ouvindo música clássica (mencionando, é claro, que ele estará ouvindo apenas indiretamente; tudo se trata de você apreciar naturalmente os grandes compositores, com eventuais deleites).

Não se trata tanto de currículo quanto de família – e não é que Homero ou Schubert não tenham lá muita relevância na educação de alguém. É porque mesmo com a escola (e Steiner foi à escola), o mais decisivo ainda será como acontece o convívio familiar de cada um. Se você acha isso um detalhe, subjetivo demais ou modesto demais, eu convido você a olhar para a sua própria rotina  – especialmente se você for um pai ou mãe homeschooler. Vamos olhar o exemplo que inspirou este texto: George Steiner narrando suas memórias de infância. Mais do que narrar o quanto de erudição a leitura da Ilíada agregou na sua vida, ele recorda os momentos em que os cantos de Homero, na voz de seu pai – alguém que Steiner amava profundamente – passaram a ser admirados justamente por causa disso:  pois antes de ler a Ilíada – e mesmo que jamais a lesse, depois – George Steiner já a amava.

Era o amor de seu pai por Homero, por ouvir música na sala antes de deitar. Eu sou da opinião de que livros e toda forma de arte tem um valor estético; definitivamente, Homero não é o mesmo que Paulo Coelho. Talvez você tenda a achar que sem algo no nível de Homero a memória ou a educação de Steiner não teriam sido as mesmas.. Mas todos nós temos memórias semelhantes de nossos pais, com coisas mais triviais, coisas que eles puderam nos dar simplesmente porque aquilo era o que eles eram. Pais podem dar, culturalmente, mais do que tiveram – estamos cheios de relatos de mães analfabetas que praticamente alfabetizaram seus filhos, pela força do incentivo. O que foi essencialmente dado, no entanto, para uma criança nesse contexto, não foi tanto a leitura quanto uma mãe de incrível fibra. Há crianças que se alfabetizam com pais que não fazem muito por elas: não é verdadeiro afirmar que necessariamente levem todas as vantagens práticas sobre as que tiveram pais dedicados nesse ponto. Mas é verdadeiro e seguro dizer que as primeiras foram melhor educadas. Pais certamente educam com o que não tiveram, mas jamais com o que não são.

Na minha casa e na minha estante, como vocês sabem, há muitos livros. Eu gosto de livros. Meus filhos tem que gostar, e já gostam. Não é uma mera exigência: é quem eu sou. Isso é importante para mim, mas meus filhos são educados por Luciana, que de vez em quando fica nervosa por umas bobagens. Com casa bagunçada, por exemplo. Luciana tem um grande movimento melancólico na alma, e precisa se animar para fazer coisas que algumas pessoas devem fazer com as mãos amarradas; os filhos já sabem que a casa da família não é a mais organizada do mundo, mas há orações diárias e certos passeios que são invariavelmente os mesmos. Outro dia a minha filha insistiu que queria a minha presença para dormir na cama: como eu queria me ver livre dela, lhe disse que convidasse Jesus  para dormir. Isso gerou um pequeno diálogo cheio de conjecturas por parte de Lupita (“Eu tenho que guardar um espaço para Ele na minha cama? Ele vai me abraçar?); o mais importante é que por certo número de dias ela me deixou em paz e Jesus assumiu o controle – em primeiro lugar porque Ele está sempre no controle mesmo, mas em segundo porque a mãe era Luciana que costuma falar coisas desse tipo. Coisas belas, mas também coisas que precisam ser vencidas (outro dia minha filha se recusou a entrar na cozinha porque estava muito suja; eu posso levantar muitas defesas como dizer que estou sempre muito cansada, mas tive que limpar o chão com mais frequência já que uma cozinha nojenta pode ser em certo sentido mais educativa que os livros que eu leio depois do jantar).

A minha família tem uma série de particularidades que são as maiores responsáveis pelo verdadeiro homeschooling aqui em casa. Não dá para fazer uma lista destas coisas, como dá para fazer cestas de livros mensais e indicar para vocês. Eu não posso descrever o modo como papai e eu temos de nos esforçar para manter o estado de graça. Como eu tenho que vencer o meu mau humor ou como meus filhos já nos conhecem a ponto de saberem de quais pessoas somos realmente amigos. Conheço uma família que, até onde se pode verificar, educa de modo muito católico e devoto os filhos há muitos anos; a filha, no entanto, tem uma opinião bastante pesarosa sobre as amizades da família: os pais cortam laços inesperadamente com quem “não corresponde ao apostolado”. Para ela, a mãe é uma pessoa de humor exaltado, que se ofende muito rápido. Como criança, ela foi obrigada a desenvolver sucessivos laços de amizade com pessoas que foram facilmente descartadas pela família depois. Há pessoas que mantêm um número elevado de amigos virtuais, mas não se esforçam para ver a família amiga que é sua vizinha. Isso educa. Não pense que seus filhos não estão vendo, que isso não os afeta de fato.

Eu não desprezo o valor que uma grande literatura pode proporcionar. Eu poderia dizer, apenas a nível de comparação, que também fui educada com Homero. Na verdade, assim como Steiner, por muitos anos eu ouvi o meu pai narrar a Ilíada e a Odisséia durante o jantar ou enquanto estávamos na sala de livros. Eu conhecia todos os personagens bem antes de ler os poemas. E quando eu li, aos 15 anos, meu pai achou que eu o fiz demasiado “tarde” e não me levou muito a sério (eu havia recusado suas sugestões de leituras várias vezes antes). A minha maior lição de Homero continua sendo o dia em que meu pai recebeu a notícia que eu estava lendo o livro. Ou quando, aos 20 anos, sem ler Crime e Castigo, ele me deu um pequeno sermão (“Como você pode pensar em escrever sem ler estes grandes clássicos?” – e olhe que eu já havia lido três livros de Dostoiévski até então). Somos educados não para nos tornarmos necessariamente iguais aos nossos pais ou a termos os mesmos tipos de atitude (a menina cujos pais se desfazem de amizades pode vir a ser o oposto), mas somos influenciados e nunca saberemos até que ponto.

Particularmente, eu me mantenho bastante cética quando se trata de “diretrizes” para homeschooling. Ninguém pode direcionar a educação domiciliar na minha casa – pelo menos não da maneira como se tem propagado ou como algumas pessoas anseiam. “Como eu vou educar o meu filho em casa?” Olhe para a sua família. Mas olhe de verdade. O melhor currículo do mundo, hoje, muda a sua família? Elimina aqueles probleminhas que você e seu marido precisam enfrentar para criar um cotidiano feliz? Seu empenho em conseguir todas as informações educacionais está no mesmo nível que seu empenho em ter vida interior? Eu não consigo disfarçar o tédio por atitudes que prometem ou pretendem atingir alvos que não estão mesmo ao nosso alcance. Como a educação de George Steiner. Como salvar o mundo. A arte, a cultura.

O melhor currículo facilitaria muito a minha vida prática, mas eu sou honesta o suficiente para reconhecer que ele não seria transformador. Há coisas transformadoras na minha vida que duraram bem menos tempo do que eu levaria aplicando um currículo nos 20 anos de homeschooling: coisas que estão lá na minha grande e na minha pequena lista de prestar contas a Deus. Eu não imagino Jesus Cristo perguntando sobre Homero na educação dos meus filhos, isso simplesmente não parece a pauta. Eu sei que muitas pessoas fazem odes à educação de excelência, mas eu só faço em certa medida. Na medida em que você tem tempo livre, disposição e que isso não lhe traga nem dor de cabeça e nem orgulho demais. Os elogios à “melhor educação que você pode dar ao seu filho” poucas vezes incluem aqueles êxtases dos santos, aqueles divisores de água no caráter humano – mesmo quando se está propondo ler os clássicos. Não é que eu pense que certas coisas venham em segundo lugar no que realmente importa. Eu nem tenho certeza se há um lugar para elas. Às vezes eu me pego pensando naquele trecho de O Diálogo das Carmelitas, sobre a vocação das religiosas. É um dos trechos mais belos que eu já li. Fala sobre a vida de oração das freiras; é a Priora quem fala:

“Assim como a oração do pastorzinho que guarda suas ovelhas (…) O que o pastorzinho faz de vez em quando, a partir de um movimento do coração, nós devemos fazer dia e noite. Não que esperemos rezar melhor do que ele, muito pelo contrário. Essa simplicidade de alma, esse terno abandono à Majestade divida que é nele uma inspiração de momento, uma graça e como a iluminação do gênio, nós consagramos a vida para adquirir, ou para reencontrar se já o tivermos conhecido, pois é como um dom da infância, que raramente sobrevive à infância… Depois de sair da infância, é preciso sofrer muito tempo para voltar a ela, como no final da noite reencontramos uma nova aurora. E eu, será que voltei a ser criança?”

Nos longos anos em que eu dedicarei o meu tempo à educação dos meus filhos, esta parece ser uma grande inspiração. Então, você trabalha anos e anos para alcançar a salvação eterna de si mesmo e dos seus. Ou em outras palavras, trabalha para não ver sumir completamente o que tão gratuitamente você vê na infância deles: coisas que você necessita para aprender, viver e se alimentar espiritualmente… mas você lembra que não é um privilégio eterno, que os problemas vão aumentando a cada dia que passa, do ponto de vista do pecado, claro. Eu realmente gostaria de não ter tantos anseios quanto os que eu tenho, fizesse eu homeschooling ou não. Claro que agora a educação de George Steiner vai me influenciar. Especialmente quando eu penso que o mais importante no fato pode ser como a inspiração desse pastorzinho, pois o amor une estas coisas.

Anúncios

4 comentários sobre “Memórias sobre educação

  1. Post inspirador. Há anos me faço sempre a mesma pergunta, pra qual direção toco o barco da educação dos meus filhos? Meu esposo fez a pergunta terça-feira agora. E hoje me deparo com seu post. E por tudo o que você disse, creio que estou no caminho certo.
    Um abraço! :)

  2. Meu pai, que era professor, apostava comigo, durante as ferias, que livros eu leria… Lembro que ele apostou comigo que eu nao leria “O Gaúcho”, de José de Alencar… E esse livro, considerado chato por ele e por uma guria de 13 anos, foi lido e eu contei a historia para ele… Ficou uma liçao bonita: você é minha filha e pode me superar…
    Nao li todos os classicos, até hoje. Mas já criei um bibliófilo e acho que a minha filha irá pelo mesmo caminho…E acho o maximo quando tenho de estudar com os meus filhos algo que nem sei o que é. É tão bom continuar a aprender, e com eles… Acredito que isso soma muito à vida dos nossos filhos, ver os nossos esforços de superaçao e de busca da santidade…

    • A melhor parte é mesmo esta: estudar aquilo que ainda nem sabemos o que é!
      Obrigada pelo comentário e partilha!
      Um abraço !

Este blog tem proteção contra comentários com conteúdo impróprio e palavras de baixo calão. Críticas só construtivas. Obrigada!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s