Por que ler contos de fadas – Parte 1

4986953093_edc4620ccc_b

Tão relevante quanto as sugestões de histórias parece ser, em primeiro lugar, a pergunta “Por que eu deveria ler contos de fadas para os meus filhos?”: algo que, se não estiver bem resolvido, comprometerá todo o resto. Se por um lado muitos pais não sabem ao certo porque esta literatura é tão relevante para a imaginação da criança, há também um sem número de pais – cristãos, de uma maneira geral – que têm uma resistência quase moral aos contos de fadas, impressionados por sua violência e crueldade. Ou talvez sejam os elementos mágicos, a presença de fadas, elfos e bruxas, que imprimam nestes a convicção de que os contos são, senão uma apologia, uma perigosa iniciação ao paganismo.

Rejeitamos, de imediato, as objeções e explicaremos o porquê. Tratemos da primeira hipótese: a violência dos contos de fadas é aterrorizante para a criança. Esta declaração tem de ser matizada, porque não podemos ser injustos: de fato, há violência. Alguns contos – como admitem os próprios irmãos Grimm – podem ser selecionados pelos pais, a fim de não serem lidos até determinada idade. É o caso (a indicação é minha) de O pássaro do bruxo Fitcher, que traz referências explícitas a esquartejamento:

“Mas assim que ele saiu,  a garota foi até a sala proibida, destrancou-a com a chave e, assim que entrou, avistou um tanque bem no meio da sala e, dentro dele, muitas pessoas mortas e mutiladas”.

Um prefácio escrito pelos irmãos Grimm e que se encontra da edição Contos Maravilhosos infantis e domésticos (Editora Cosac Naify, e até então, a única edição brasileira que reúne todos os contos originais dos irmãos Grimm) responde à primeira objeção de maneira exata e, ao mesmo tempo, bastante poética, onde poderemos apenas fazer um comentário mais elucidativo. Diz o prefácio:

“Nada pode nos defender melhor do que a própria natureza, que deixa crescer flores e folhas com determinadas cores e formas; aquele para quem elas não são salutares, segundo suas necessidades especiais e das quais a natureza nada sabe, pode facilmente passar por elas ignorando-as; mas não pode exigir que elas sejam tingidas de outra cor ou que tenham outra forma. (…) As crianças apontam sem medo as estrelas; outros, seguindo a crença popular, veem nisso uma ofensa contra os anjos.”

Em outras palavras: as crianças não leem a crueza dos contos de fadas – tal como é apresentada – da maneira como nós, imersos na avalanche de notícias e referências do que vem a ser a maldade humana, lemos. Não visualizam o gigante que come crianças mais do que o símbolo do que deve ser temido e porquê. Certamente a criança sabe que ser devorada por uma criatura perversa é algo horrível, e não seria ela a querer ter semelhante destino: seu temor, todavia, concentra-se no gigante, na bruxa ou o que seja, e passa imediatamente à relacioná-lo com o mal. Este é o ponto-chave da razão pela qual estas histórias parecem ter sido mantidas vivas por gerações: o mal é sempre o mesmo, em suas diferentes facetas; está à espreita e por vezes é esperto, mas invariavelmente é vencido por alguma criatura indefesa. G.K. Chesterton, o grande escritor católico, tem a célebre frase “Contos de fadas são reais, não porque nos dizem que os dragões existem, mas porque nos dizem que eles podem ser vencidos” e Tolkien, não menos célebre, personificou esta verdade sobre os contos de fadas na sua própria criação, ao colocar um pequeno hobbit para vencer o Senhor Escuro quando tantos outros, mais fortes, poderiam tê-lo feito.

Nos contos de fadas – diferente dos romances psicológicos que inundam a nossa literatura – o mal (ou quem é mau) não têm uma gênese. Você não encontrará em Grimm as explicações – que atualmente se tornaram a nova obsessão do cinema – do que aconteceu para que a bruxa fosse tão grotesca ou as razões que justifiquem a perversidade de um rei. A pessoa má é tal como é, e a resposta que as histórias nos dão, caso alguém se atreva a perguntar, é a de “são más porque querem”, e de fato não existe melhor justificativa. É de nosso conhecimento que estas histórias, colhidas na tradição oral dos povoados alemães de séculos atrás, não nasceram como literatura infantil, mas tanto as crianças quanto os adultos daquela época não podiam sequer conceber as manobras intelectuais que são feitas, neste século, para isentar o mal.

O que se torna cada vez menos palpável para as pessoas de nossos dias é a seguinte verdade: saber porque uma pessoa se tornou má não é de grande ajuda para se defender dela. Na verdade, psicologicamente, justificar a maldade se torna mais eficaz para não se defender de modo algum: perdemos a vontade de nos precaver de algo que inspira a nossa pena e achamos que o lobo à nossa frente está apenas à espera de uma oportunidade para se redimir. Em contrapartida, as pessoas que narravam e ouviam estes pequenos relatos maravilhosos não tinham nenhuma razão para duvidar de que o lobo era mesmo perverso. Aliás, se um lobo pudesse se desfazer da sua pele e se revelar como um cordeiro, as sagradas escrituras teriam sinalizado: ao invés disso, devemos nos preocupar com os cordeiros, que podem ou não ser lobos.

Se há uma razão primordial pela qual eu, particularmente, leio contos de fadas para os meus filhos, é esta: que existe o mal e ele é assustador, e o é em tal medida que produz suas perversidades por motivos inexistentes ou muito superficiais, tal como a madrasta de Branca de Neve pediu seu coração numa travessa por invejar a sua beleza. O mal existe: sua realidade está, de tantos modos, evidente na nossa existência, que tão logo começamos a travar diálogo com nossos filhos, nos vemos na necessidade de falarmos sobre ele. E se pensamos com clareza no que é esse mal, teremos que admitir que não haverá maneira mais branda de descrevê-lo do que usando a analogia de uma bruxa que come crianças desprotegidas.

As narrativas nos falam de alguns tipos de vilões, dos quais poderíamos destacar: o parente perverso (madrasta, tios, irmãos ou mesmo os maus pais) que se aproveitam do poder que têm para humilhar ou eliminar o herói; e o estranho:   que bate na porta oferecendo qualquer coisa de interessante ou cruza o caminho do herói e o convence a mudar de rumo (e por isso, vem a ruína). Para uma criança, a maldade reside no que uma pessoa, criatura ou animal possa fazer contra as outros e, por conseguinte, contra ela. Se eu perguntar à minha filha o que é uma pessoa malvada, ela me responderá algo como “é alguém que bate, devora ou leva as crianças embora para longe”, no que estará sendo muito precisa.O mundo sempre foi este lugar ameaçador, e ainda mais para uma criança, que hoje como antes precisa saber se defender de alguma forma. Não estaremos mentindo se dissermos que estranhos na rua são uma ameaça semelhante à uma feiticeira devoradora de carne humana: é o que eles podem ser; e não há melhor contador desta verdade universal  quanto as histórias.  

Considero a apresentação do elemento mau nos contos de fadas como seu aspecto mais instrutivo – e não tanto  o ensinamento da moral ou virtudes, como querem alguns. Em muitas histórias não será possível tirar qualquer lição moral – pelo menos não de modo claro – e menos ainda enaltecer boas virtudes. Com isto não estou dizendo que sejam prejudiciais, mas sim que, deste ponto de vista em particular, não são em geral pedagógicas. Estas coisas aparecem nos contos de maneira simbólica e para que o símbolo ganhe força é necessário que se tenha uma ideia clara do que venha a ser, realmente, o ensinamento moral ao qual a criança deva estar vinculada. Falando claramente: se você deseja ensinar moral para seus filhos, certifique-se de que aprendam antes com os exemplos dos santos, os mandamentos e a prática da religião, presumindo que seja este o caso.

Continua…

Anúncios

5 comentários sobre “Por que ler contos de fadas – Parte 1

  1. Que post maravilhoso! Luciana, você conseguiu me inspirar a correr atrás dos livros. Por enquanto é um tanto cedo, porque nosso pequeno tem 10 meses ainda, mas assim que estiver entendendo melhor, vou usar essa ferramenta preciosa para educar sobre o que é o mal.

  2. Pingback: Por que ler contos de fadas – Parte 2 | As chamas do lar católico

Este blog tem proteção contra comentários com conteúdo impróprio e palavras de baixo calão. Críticas só construtivas. Obrigada!

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s