Começando o Homeschooling

Quantas pessoas vêm a mim buscando ajuda para o homeschooling, e como elas se parecem comigo, há alguns poucos anos, e como igualmente elas parecem prestes a percorrer o mesmo caminho que eu. Quando se está buscando algo não muito claro, se perde muito tempo; mas eu, particularmente, adoraria evitar aquele primeiro caminho, tão longo e tão supérfluo,e ir direto ao outro (talvez não muito diferente em extensão, mas útil desde o primeiro passo).  Alguém poderia dizer que ambos me ensinaram alguma coisa (o que não deixa de ser verdade), mas como agora eu sei exatamente aonde eu quero ir, o caminho importa – e muito (diria o Gato à Alice). Mas talvez não seja possível explicar isso às outras pessoas, como será explicar a mim mesma, por isto, eis a carta que envio para Luciana, começando o HS, anos atrás.

Querida Luciana,

Você pode fazer homeschooling, mas antes deve se livrar deste excesso de buscas desordenadas. Quantos fóruns, quantos livros teóricos indicados e adquiridos às pressas eu vejo na sua estante  – tenho certeza de que você não os lerá. Se você continuar pagando 90 reais por cada obra relevante, a biblioteca dos seus filhos nunca se encherá dos livros clássicos –  e acessíveis – que você já conhece bem. Não é verdade que o mercado editorial tem poucos livros interessantes para crianças. Está muito melhor do que na sua infância, e você fará logo uma lista pública para as pessoas. Com 90 reais você compra 2 Tolkiens, 1 Lewis, 1 coletânea de contos de fadas e 1 peça de Shakespeare para você. Lembre-se: a economia do homeschooling vale o mesmo que economia doméstica. Nenhuma dona de casa cometeria excessos para que o arroz com feijão faltasse, certo? Mais do que nunca, o recurso do HS dos seus filhos depende das suas escolhas sensatas.

Outra coisa: não se feche demais em si mesma. As pessoas nem sempre são fáceis de lidar, mas no homeschooling o melhor que você pode oferecer para seus filhos são famílias amigas. Qual é o sentido de tirar os filhos da escola se não for para oferecer uma rede social melhor? Foi para deixá-los em casa, com visitas apenas dos avós? Acho que não. Ao contrário da vida virtual, construir relações cotidianas boas leva tempo. Comece a procurar pessoas – elas vão aparecer – o quanto antes, na sua região e em regiões vizinhas. Dois encontros anuais ainda são (muito) melhores que nada.

Por falar em rede social, estou falando da vida real, claro. Por mais que seus contatos virtuais sejam ótimos – não estou duvidando disto – lembre-se de que não importa quão bem as coisas pareçam estar indo por lá (você tem pessoas que te ajudam, dicas ótimas), seus filhos não fazem homeschooling virtual. Em outras palavras, você pode ter uma vida bastante preenchida por lá, e em casa, a ajuda não está vindo de fato. Você verá que um encontro com famílias homeschoolers fará mais por você do que as informações pagas. E é claro que você pagará menos pelas informações à medida que entender que nem todas as informações devem estar à venda. Quando você aprender a discernir isto – e espero que seja logo! – você economizará não apenas dinheiro, mas tempo! As pessoas em geral são bem seletivas com o que compram, mas não usam o mesmo princípio para fazer com que você compre alguma coisa delas.

Não preencha todo o tempo deles com atividades. Pare agora mesmo, como se você tivesse tirado seis nos 2 dados e avance as casas: isso não é necessário, você pode pular para a parte em que você confia absolutamente no Lego para deixá-los mais espertos e criativos; para o dia em que você já entendeu que as árvores na frente da sua casa são melhores que o quadro branco; e para aquele conhecimento de nível avançado: quem vocês são e como vocês fazem o homeschooling acontecer diariamente será decisivo. Não queira passar a impressão de que isso é tão difícil que você e seu marido tiveram de largar tudo e virar o mundo de cabeça para baixo para fazê-lo. Essa não é a melhor maneira de dar o exemplo. Faça tudo com responsabilidade. Deixe sempre claro quem você e seu marido são, qual o ofício de ambos, como é maravilhoso ser mãe, e como você tem muitos interesses e pode fazer várias coisas, apesar de estar todo o tempo com eles.

Querida, você não começou de todo mal. A sua grande vantagem é não ter começado trazendo a escola para casa. Você já entendeu que as lições devem ser curtas, e que elas não precisam de modo algum parecer lições. Mas está faltando dar a eles o que você só obtém depois de algum esforço. Está na hora de você pensar em dar aquilo que não é exatamente o seu gosto pessoal. Aposto que eu toquei na sua ferida, não é mesmo? Você e seu marido são formados em ciências humanas, e nada mais natural que você os encha de livros. São a base para tudo, não é verdade? Mas, por favor, não pense em continuar com esta ideia de que ciências, música, dança, educação física (ah-ha!) são coisas que você deixará para depois, tão depois que seus filhos chegarão aos 10 ou 12 anos sem isso. Desta forma você estará fadada a criar filhos com as mesmas inclinações que as suas, só porque sim. Lembre-se de oferecer as coisas boas que não são necessariamente as suas escolhas pessoais. Crianças inteligentes precisam descobrir como as coisas funcionam por si mesmas – e é aí que entram ciências, música, os esportes… talvez isso tenha lhe faltado, mas você poderá aprender com eles  e ter ótimas experiências (umas delas vencer a si mesma). P.S.: Não ensine ciências só com livros. Use-os, nesses quesitos, em caso de emergência. Saia de casa!

O básico do HS tem nome: hábitos. A escola funciona com planejamentos, quadros em murais, escolha de temas pré-estabelecidos, datas, cronogramas. A casa funciona com bons hábitos, com o insistente costume de fazer certas coisas, com muitas coisas deixadas à disposição, com oportunidades diárias. Eu sei que você adora um planejamento, não os abandone de todo, mas chega de agendas. Sério.

Por fim, o mais importante: alimento espiritual. Vida de oração. A alma de todo apostolado. Uma vez que você se dedique a isso, o seu tempo e o das crianças estará ricamente preenchido, inspirado e santificado. Mais oração, menos tarefas. Mais Maria, menos Marta. A melhor parte, sempre.

Sinceramente,

Luciana no futuro.

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6 comentários sobre “Começando o Homeschooling

  1. Só pra dizer que me tocou profundamente esse texto. Obrigada! De verdade! Que Deus continue abençoando seu apostolado e a sua família continue sendo modelo para todos nós! Salve-Maria!

  2. Que lindo Luciana!
    Que mãe!
    Estou realmente feliz e emocionada com seu crescimento.
    Ah como sofro em aprender a deixar de são Marta…
    Bons exemplos ajudam sempre.
    Obrigada.
    Que Deus a abençoe sempre e de maneira abundante.
    Salve Maria!!!!

  3. Meu filho tem 2 anos e 8 meses. Tenho buscado informações a respeito deste assunto desde quando conheci pela internet o Prof. Carlos Nadalim. Na medida em que o nosso país avança para um modelo de educação não muito aceito por pais cientes e preocupados com o futuro dos filhos, fui buscando mais e mais informações, até que cheguei a você. Agradeço imensamente as contribuições que têm feito a nós. Acompanho a sua página e tudo o que escreveu nessa carta foi exatamente o início dos meus problemas…pesquisar infinitamente, comprar livros e livros, ser mais Marta do que Maria, enfim. Foi pra mim! Obrigada! Acordei!
    Deus abençoe você e sua família!
    Salve Maria!

    • Salve Maria, Andréia!
      Que bom que me achou :)
      E mais ainda que a carta serviu para você; eu sei que não é uma carta definitiva, ainda temos muito o que aprender!
      Fique com Deus e volte sempre|!
      Abraços

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