Sobre educar em casa

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As flores do jardim

Encontro algumas mães que me perguntam: “Como é fazer homeschool? Até quando você pretende fazer? Nossa, não é para mim!”

E eu as entendo perfeitamente. Eu acho (mera opinião pessoal) que homeschooling é vocação, embora não no sentido espiritual do termo. Não é algo que você está destinado a fazer, mas uma inclinação afetiva. Acho que qualquer pessoa que realmente goste de fazer isso, vai conseguir. Não há um perfil de pessoa: conheço pais que dariam ótimos pais homeschoolers, do ponto de vista teórico, mas na prática: eles não se interessam, não gostam. É mais ou menos disso que estou falando: gostar é a vocação. Tem que gostar – de preferência, muito. Claro que cada pessoa têm diversas vocações, pensando nesse aspecto. Há pessoas que só concretizam uma vocação muito depois… ou descobrem várias ao longo da vida (ainda bem!).

Acho que no momento em que você começa a fazer isso, você sabe se vai dar para a coisa. Fazer homeschooling apenas por medo das escolas, porque quer dar uma educação “superior”, etc.: isso deve ser muito ruim. Porque, veja, no dia-a-dia é extremamente desgastante fazer isso sem o real desejo.  Como eu sempre digo: a primeira pergunta é: Quanto trabalho extra você aguenta? Sério. Pense nisso. A bagunça na sua casa vai se multiplicar (minha cozinha que o diga!), porque os espaços estarão ocupados pelos filhos 100% do tempo, e quem quer que tenha filhos sabe que isso é muito. Quando você gosta mesmo de fazer algo, você leva o pacote e aprende a lidar com ele, com os problemas e com as alegrias.

Não acho que se possa forçar alguém a gostar de educar em casa. Pode-se descobrir, pode-se aprender, mas é difícil impor uma coisa como esta, sendo o que é. Educar em casa hoje é algo sem precedentes na história. Ninguém que tenha sido educado em casa no século retrasado serve de exemplo: a ausência da escola era um fator comum, mas todo o resto não é. Objetivos distintos, organização social e familiar distinta. Hoje, os pais que educam em casa praticamente contam só com eles mesmos. Muitas vezes nem com a paróquia dá para contar. Tudo isso torna o fardo muito maior. Os filhos na nossa época já ficam muito tempo em casa: mais de duas décadas morando com os pais, na maioria das vezes. Impensável em quase todas as épocas anteriores.

Quando eu penso em “gostar de educar em casa”, não acho que se deva gostar de tudo. Há muitas coisas que eu não gosto no homeschooling. Eu quero falar isso porque nada nesta vida é completamente do nosso agrado, então, não quero que pensem que estou fazendo isso porque tudo se encaixou perfeitamente no meu caso. Por exemplo: Eu não gosto de não ter momentos só para mim. Há pessoas que passam bem sem isso, mas eu vibro cada vez que encontro uma brecha de um tempo só meu, quando eles dormem, ou quando o pai assume – às vezes até saindo com as crianças ou ficando em casa para que eu saia. Há momentos em que eu tenho que esperar semanas para resolver coisas básicas. De vez em quando eu penso: “Nossa, seria bem tranquilo ter as tardes todas livres!” Pena que “ter as tardes todas livres” seja justamente a antítese do homeschooling.

Também não gosto de ter as tarefas de casa sempre abaixo da minha expectativa e ainda estou lutando pela constância das nossas atividades diárias. Quanto às outras pequenas contrariedades: não merecem estar na lista, não incomodam tanto. Estas são as três principais nas quais eu preciso trabalhar. A primeira do topo – falta de tempo pessoal – me custa muito. Já me aconselharam até a repensar o homeschooling por causa disso. Já foi motivo de preocupação para o meu marido, por exemplo. Eu tenho interesses pessoais fortes, coisas que eu gostaria de concretizar. Qualquer exemplo que eu desse nesse aspecto tornaria a motivação mesquinha: seja lá o que for, é claro que educar meus filhos é mais importante. Eu só quero evitar entrar nesse jogo de “fazer sempre o que é mais importante”, porque, como dizem por aí: sempre há coisas mais importantes do que as que você está fazendo em vários aspectos da vida.

A gente faz o que dá, o que é possível conciliar com a família, definindo prioridades. Como diz Ortega y Gasset: Eu sou eu e minhas circunstâncias. Se eu ficasse em casa e abdicasse de tudo somente porque “educar meus filhos é mais importante”, eu entraria num falso dilema, porque, afinal: colocar filhos na escola não é, de maneira alguma, deixar de educá-los. E pode-se educar muito bem na escola, o mundo tem precedentes e exemplos concretos. E não é uma concorrência, pelo amor de Deus. Quem está concorrendo com a escola ainda – Chupa, Mec!, etc. –  não passou da primeira fase. Isso não é sobre dar latim e música clássica no currículo, sobre listas de livros ou o que você faz no tempo livre. Não é sobre superar a escola, não é sobre transformar os filhos em gênios. É sobre percorrer outro tipo de educação. Um caminho longo: então, é melhor aproveitar a vista!

Educar em casa, para mim, é sobre tê-los comigo sempre. Perceba que minha maior provação é também minha maior motivação. É sobre eu não querer a escola agora. Digo “agora” porque invariavelmente me perguntam: Por quanto tempo você vai fazer? A minha resposta: até quando estivermos felizes. Porque educar em casa para mim é uma alegria. Até quando as minhas circunstâncias permitirem – não as circunstâncias ideais, não as circunstâncias dos outros, mas as minhas. Tem gente que só faz homeschooling com ajuda em casa, do marido ou da empregada: tem gente que não faria nem com toda a ajuda do mundo. Cada um com as suas circunstâncias. Para mim a vocação nesse sentido permite me dedicar por um bom tempo por escolha própria, porque isso traz alegria para a nossa família, mas ao mesmo tempo pode chegar o momento em que eu não farei mais isso, sem que isso seja um abandono de vocação, porque não espiritual. É uma decisão.

Uma decisão é sempre pessoal. Eu lembro da Jéssica, do Shower of Roses (simplesmente a  melhor mãe homeschooler que eu já vi), e do quanto ela já pensou em desistir de educar em casa. E quem a vê, educando sete filhos, com toda aquela dedicação, talvez não pudesse supor. Ela foi educada em casa e não gostou da própria experiência: ela saiu da escola aos 10 anos e sempre implorou para voltar e cresceu decidida a não fazer o mesmo com seus filhos. Mas então ela teve os próprios filhos e percebeu que a educação domiciliar a deixava feliz, permitia uma melhor harmonia com a sua família.  Mas pode não ser a escolha de cada um dos filhos dela. Sim, isso pode acontecer, talvez pais que estejam fazendo isso apenas pelo sacrifício não percebam:  não necessariamente filhos educados em casa vão traçar o mesmo caminho, a despeito de todos os motivos para fazer do homeschooling a melhor opção do mundo. Pode não estar nas circunstâncias ou na vontade futura da criança que está sendo educada hoje. Não podemos nos esquecer: a escolha é pessoal.

 

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4 comentários sobre “Sobre educar em casa

  1. Texto maravilhoso! Uma reflexão excelente sobre o assunto… nos ajuda a pensar nas nossas próprias motivações para o homeschooling! Obrigada por compartilhar!

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