Homeschooling, um ano de cada vez

Escrever tornou-se um luxo. Entre viver e registrar alguma coisa, quase sempre escolho a primeira. Este dia é uma dessas exceções.

Desde que aprendi com a Jessica, do Shower of Roses, a decidir-me pelo homeschooling, um ano de cada vez (alternativa para decidir-me pela vida toda ou a perder de vista), ficou mais fácil também ater-me aquelas palavras de Nosso Senhor: “Para cada dia, as próprias preocupações bastam”. Muitos me procuram sobre o homeschooling com questões tais como “vestibular” e eu gostaria apenas de dizer: “Seu filho tem dois anos; se a preocupação for genuína, haverá o momento de ir à escola – ensino médio ou coisa parecida, mas certamente não uma creche!” (antes que me pergunte: é possível começar a frequentar a escola na adolescência e ser encaixado na série escolar adequada a faixa etária). Depende muito de cada preocupação.

Neste ano, eu virei uma curva – ou como diz uma amiga minha, é apenas quando o homeschooling começa de fato (a partir dos 6 anos da criança). Até então, qualquer coisa que você possa fazer na infância livre de escola é um ganho, já que as necessidades da criança são realmente brincar de massinha, com terra, ao ar livre, muita leitura e o processo de alfabetização. Agora, houve uma real angústia. Os dias em que o LEGO ou a ida ao SESC contavam maravilhosamente como dia letivo ficaram para trás. E não do ponto de vista curricular: bem longe disso. Pode ser que ainda conte, mas o fato é que algumas coisas mudaram. Eu mudei. “Tudo Muda”, como diz um livro de Anthony Browne.

Primeira infância concluída com sucesso…

E os dias em que eu tinha alguma individualidade estão cada vez mais distantes. Pouco mais de seis anos, e minha melhor definição para este processo é que se parece com a dependência de um puerpério, guardada as devidas proporções. Nunca sozinha.  Arrumando e bagunçando ao mesmo tempo. Sem projetos pessoais, por enquanto. Ou apenas nas horas vagas e improdutivas da noite.

Como eu disse uma vez (provavelmente aqui mesmo no blog), minha escolha por este caminho nunca envolveu uma educação de qualidade invejável, mas antes uma escolha por estar com meus filhos, por mais tempo. “Tempo é vida. E a vida mora nos corações” (Michael Ende). É claro que estar com eles – e estar com eles agora, num momento em que sou eu quem define isso – é mais importante do que qualquer outra coisa.  Mas agora eu registro uma mudança: estamos todo o tempo juntos e, ao mesmo tempo, não estamos. Não sou mais aquela mãe absolutamente necessária em todos os momentos, em todas aquelas brincadeiras no tapete, lendo na cadeira na frente de casa enquanto eles mexem nas plantas aleatoriamente, fazendo cada refeição, deixando-os dormir de tarde (enquanto as outras criancinhas estão na escola sendo estimuladas, ah-ha). Nos momentos em que minha presença não é muito notada (exceto pelo bebê, e lá vamos nós outra vez), parece que me resta vagar e lavar os pratos num dia que ou houve leitura demais ou não houve por cansaço de minha parte. A principal mudança é uma sensação de que quando precisam muito de você, ficar é divertido – mas quando esta perspectiva muda, como é que nós mudamos em conjunto?

Ah, talvez eu esteja exagerando. Ainda continua sendo melhor ter esta rotina entre os nossos livros e nossos problemas cotidianos do que numa classe escolar. Mas estou um tanto surpresa com essa sensação de desprendimento. Até aqui, não houve dúvidas com relação ao que eu estava proporcionando a eles ou a mim mesma, pois parece bastante natural que uma mãe fique com seus filhos pequenos em casa.  Começo a pensar que com este tempo em que não estão precisando tanto de mim, eu poderia aproveitar para fazer voltar a fazer coisas básicas como ir ao salão ou trabalhar no meu livro (pausa para onde vivem os monstros).  Agora tenho de corresponder  expectativas de sair e fazer atividades num dia entediante, quando o romantismo de sentar na porta de nossa casa já não basta. E estes dias de expectativas têm se multiplicado. Mas não se trata de sair ou não, até porque sair é uma das melhores alternativas para a atual conjuntura.

 

Saindo com mais frequência…

Como as demandas imediatas de sobrevivência – lavar roupas, louça e fazer refeições – igualmente se multiplicam, é como passar da fartura para a ponta do lápis ano a ano. Como nas finanças, estas coisas começam a causar ansiedade e, infelizmente, irritação. As crianças demandam mais necessidades no homeschooling (intelectuais, afetivas ou de pura ocupação saudável) enquanto você passa mais tempo preparando refeições e limpando a mesa. Nunca me ocorreu que café da manhã, almoço, jantar e dois lanches pudessem me consumir tanto. Como eu posso ter mais tempo para ensinar matemática se estou mais tempo colocando as roupas em ordem mínima (ênfase no mínima)? O que significa essa sensação de que estou dispensando-os da minha atenção a todo momento simplesmente para que eu possa limpar a cozinha?

Antes que isso se transforme num post de desistência (pois não é), eis a minha maneira de lidar com todas estas questões (e, acredite, elas me são muito caras): é o escolher um ano de cada vez que tem me ajudado a suportar e continuar numa direção viável.  Isto me permite ficar com meus problemas reais, pois os imaginários não têm limites. Um ano de cada vez me permite não surtar com o vestibular, com a adolescência, com o meu cansaço. Por exemplo: se estou cansada, preciso colocá-los na escola ou preciso de ajuda com a casa? Posso precisar e querer os dois, mas eu não estou neste árduo caminho do homeschooling por acaso, então é bom pensar direito para que o alívio não seja nas costas erradas.

Andando a cavalo nas horas vagas…

Uma amiga me dizia que até o segundo filho – com homeschooling – seria relativamente fácil ficar sem ajuda na limpeza da casa, mas a partir do terceiro mais valia investir numa limpeza quinzenal do que nas aulas de piano. Que isso lhe parece? Sempre me pareceu um exagero da parte dela. Até que a alegria dos meus dias foi sendo tomada pela necessidade real de limpeza versus o meu cansaço. Uma mãe tranquila e alegre vale mais para o homeschooling do que aprender piano clássico – se é realmente de coisas que importam que estamos falando. Comecei com uma limpeza pesada por mês: orçamento cortado de parte dos livros, já que eu costumava investir mais nisso. Recentemente consegui o formato de dividir uma diária em dois dias na semana, de modo que posso realocar as minhas necessidades mais urgentes com a casa. E estou tentando investir mais nisso.

Claro, não é um atestado de que você vai precisar fazer o mesmo. Cada um com as suas circunstâncias. No início, quando eu não podia nem mesmo investir em livros, 50 reais a cada dois meses era o que eu podia pagar em material. Apenas tenho em perspectiva que o homeschooling não é algo que estou fazendo somente para eles e por eles. Não se trata de cortar tudo o que for tempo pessoal e orçamento doméstico para reverter em benefício material ou intelectual para as crianças, pois enquanto isso, há uma pessoa fazendo isto funcionar, e esta pessoa sou eu. Não levar isso em conta seria como não pagar o professor no fim do mês e esperar que ele apareça em sala de aula por puro ideal. Não me parece justo comigo que eu invista todo o orçamento em currículo (aulas, material, passeios, etc.), uma vez que este se tornou oficialmente o meu trabalho (como eu não canso de repetir: tem que haver realização pessoal). Tenho visto como erro comum pais que tiram os filhos da escola particular (que custava em média 1000 reais para cada um dos dois filhos) e relutam (e não fazem mesmo) comprar 300 reais em material mensal no homeschooling. Não acho que se deva mudar muito o orçamento em educação, mas aproveitá-lo melhor.

A escolha a cada novo ano é, na nossa experiência, motivacional e guarda o verdadeiro sentido da nossa escolha: é pela nossa família, e não por uma bandeira.  É para a nossa felicidade, é como estamos vivendo concretamente cada momento dentro daquelas circunstâncias. O homeschooling não precisa de mim, nem do meu blog, nem da minha defesa, senão quando for muito conveniente para ambas as partes. Eu deixo isso muito claro para mim mesma, pois acabo sendo vista como uma referência para aqueles que estão começando e me procuram buscando ajuda. Ajudo, adoro ajudar, não posso fazer isso como gostaria, pois tenho pouca disponibilidade.  Também por isso eu parei de blogar: não tenho muito tempo livre! Gostaria, porque amo partilhar, mas tenho concentrado esta ânsia de dividir o que vivo com famílias em encontros reais.  A medida, todavia, é sempre o mundo real e não virtual: sei que há uma “questão homeschooler” no país, no mundo, nas conferências, em livros publicados, nos tribunais de justiça, mas no final… se  minha família não estiver feliz, se não tivermos momentos inesquecíveis, se não suportarmos as dificuldades com amor… então, não terá valido a pena. Tenho me tornado cada vez mais presente no pequeno grupo de famílias que formam minha rede de amigos há anos e menos em postagens na internet. Acho que meus filhos nem sabem que eu tenho um blog… mas eles sabem os dias dos nossos encontros. E eu não quero perder jamais o foco da verdadeira luta…

Apresentando O Túnel na nossa Feira Literária

Continua…

 

6 comentários sobre “Homeschooling, um ano de cada vez

  1. Oi, Lu!! Eu te entendo. Com três, também moro na cozinha preparando refeições 😂… Também quase não tenho tempo para mim, tudo é muito corrido, mas cada segundo com meus filhos vale a pena, vale ouro! Sua reflexão foi muito boa. Muita gente vê o homeschooling como algo romântico, mas é uma decisão que exige bastante desprendimento de quem escolhe este caminho e de muita dedicação, por anos a fio. Deus continue te abençoando e Nossa Senhora continue te auxiliando neste caminho, que pode ser trabalhoso e exaustivo, mas que é imensamente valioso e rico! Um beijo!!

    • Oi Luciana, eis a realidade que vivo! Acredito muito nos bons frutos do homeschooling! E que inicio estou tendo! As ocasioes de santificacao sao diarias, a todo instante, é um chamado a cada momento, glória a Deus!

  2. Deus te abençoe Luciana! Muitas vezes é realmente difícil a sensação de que as tarefas domésticas são maiores do que podemos dar conta ‘secando oceano com um lenço umedecido’. Mas é a fé em Deus e o amor pelas crianças que nos fazem continuar, é por elas e por Deus. Temos 4 filhos com idades de 1 a 7 anos, E rezo sempre a Deus que me de SABEDORIA E PACIÊNCIA para bem educa-los de acordo com a Sua santa vontade.

  3. O que vou comentar tem tudo e nada com este post.
    Acompanho (discretamente, mas constantemente) você, desde os tempos do “teus vestidos”; cheguei a vê-la (ainda grávida) num shopping de Salvador, mas tive muita vergonha de ir falar contigo, que pena. Enfim
    Você, sempre, sempre foi tão realista, tão humana, coisa que parece estar ficando rara (em todos os lugares) mas sobre tudo no meio “da volta ao tradicionalismo”. Na internet, na rede, parecem todos tão perfeitos, praticando e vivendo tudo com maestria, e eu fico a pensar se sou eu o problema, porque a vida continua a rodar, e vejo a minha volta e na minha vida, as escolhas sendo feitas e vividas em meio a vida mesmo, propriamente dita, lugar onde há ansiedade, problemas financeiros, doença, cansaço, fracassos, retrocessos, recomeços. Muita roupa por lavar kkk
    Ando com vontade de me afastar das redes, da internet, porque nela parece que estão todos 100% do tempo felizes com a educação em casa, nela parece que os casais jamais brigam, ou nunca há conflitos internos. Nela parece que as mulheres estão sempre vestidas (modestamente) com roupas elegantes dos anos 50 o que demanda dinheiro, e também tempo para ter cabelos sempre tão lindos. Kk.
    Mas ai me deparo com esse texto.
    Obrigada. Só (e tudo) isso mesmo.
    Abraços.

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