Fim de uma era

Quando eu comecei a escrever aqui, num movimento bastante pessoal de partilha, eu não poderia imaginar – ainda – que nada era tão pessoal e nem tão original. Se eu tivesse imaginado que tudo iria se tornar algo comum, e que justamente por se tornar comum e mais familiar, eu seria capaz de conhecer mais a fundo do se tratava afinal, então: eu não teria sido uma das pessoas a me encantar tanto com esses ideais.

O tipo de ilustração que eu postava há 10 anos aqui

Como tudo na vida que você não conhece a fundo, a coisa pode simplesmente parecer ser o que não é. Pode ser completamente diferente. Pode ser o oposto daquilo que você achou que buscava. E ao escrever tantas coisas aqui, eu admiti em alguns desses textos no feed aí embaixo que me achava meio irresponsável por ter dito algumas delas, mas eu ignorava completamente o alcance e a direção das ideias aqui defendidas, de modo que naquele momento era só um blog pessoal. Sobre todo esse sentimento eu ja escrevi aqui, até demais. Hoje eu falarei do que eu sinto ser o começo do fim.

Quer dizer, tantas coisas foram normalizadas dentro da bolha. Todo dia um influencer católico diferente gritando na sua cara. Todo dia uma mulher católica diferente te dizendo que você deveria estar fazendo o que ela está fazendo. Centros de estudo com nomes-fantasia criando a impressão de que eles conhecem mais o assunto que qualquer pessoa que está há décadas na academia – e, aproveitando o gancho, há também esse desprezo à universidade que é tão característico de quem não quer passar por nenhum tipo de peneira. E tem a loucura política, representada tão bem nos últimos memes do twitter. Ou a agressividade que tomou conta das pessoas. A lista é grande.

Mas, agora, eu não consigo deixar de pensar que esse deve ser o fim de uma era.

E eu penso isso porque parece não ter mais espaço para inflar tudo o que veio inflando e inchando nos últimos anos. As pessoas foram chegando nos limites, e quando isso acontece, você vai vendo o que estava por baixo da massa, que transborda e deixa ver seu conteúdo, e que surpresa notar que ele estava apodrecido. Tudo foi chegando no máximo do máximo.

No Instagram, uns anos atrás, quando vinha aquela foto linda de família e a baita reflexão: o amor, o sacrifício, a vela consumindo, o limão espremido (em resumo: o storytelling, mas não sabíamos disso ainda): o primeiro movimento, pela novidade, era de reconhecer ali uma pessoa original partilhando a sua vida e a sua visão tão íntima.. Era bonito, e embora eu nunca tenha sido uma pessoa sentimentalista, eu ia lá, dava o meu coraçãozinho e fazia parte do rol de pessoas que passava a considerar a mãe da foto como uma referência no “ideal”. Normal, nada de mais.

Mais um post inspiracional falando o quanto minha vida faz sentido…

Então, vem a multiplicação: de mães e de textos reflexivos diários, cada limão mais espremido que o outro, e o storytelling fica óbvio demais. Começa a cansar. A mãe e autora do post já não consegue mais narrar a beleza da própria vida, ela começa cada vez mais a atacar: primeiro as premissas do mundo moderno que levam tantas mulheres a escolherem caminhos diferentes (que não o que ela mesma tomou), depois, já vira uma artilharia direta: é você, que está do outro lado: “Você não quer ter essa vida? O que você não quer é fazer a vontade de Deus! Acorda, imatura!”

Então eu vejo que, puxa, lá atrás, quando algumas pessoas vinham me alertar de uma visão tirana sobre a mulher dentro desse meio conservador, eu ria porque não conseguia ver nada disso, e não via mesmo. E não via porque eu estava indo para esse caminho, mas vindo de uma consciência livre, de espontânea vontade, sem nada ou ninguém me pressionando. Estava indo porque queria mesmo, e como parecia fácil ficar de casa militando por essas causas, indo contra a lógica do mundo.

Eu não sei muito bem como as pessoas suportam ainda ficar ao redor de um conteúdo tão tóxico como maternidade católica no Instagram, mas mesmo sem ter a explicação, eu consigo perceber que até essas pessoas estão ficando cansadas. Cansadas de admirar tanto Fulana, todos os dias, em tantos posts, e tantas regras diferentes. Cansadas de ter que dar uma vênia para personalidades e suas ideias mirabolantes sobre por que isso ou aquilo acontece em política, educação, vida íntima. Na real, a maior parte das pessoas vivendo não sabe muita coisa, mesmo quando está passando por elas.

E eu acho que isso vai diminuir nos próximos anos. Que as pessoas voltarão a ficar mais em paz com relação ao que fez tanto a cabeça das pessoas: grupos de estudo dessas mesmas pautas, sites de verdades ocultas, canais no telegram, e tudo isso. As pessoas parecem desesperadas por normalidade e irão acabar abraçando a normalidade só porque sim, só porque sentiam falta dela. O melhor a se fazer quando se chega no ponto de saturação do que quer que seja (presta atenção nesse conselho para a vida) é simplesmente virar as costas e deixar para trás. Não perca seu tempo tentando entender ou refutar: só vire as costas para aquilo que não faz mais sentido para você e vá aonde houver menos barulho. É quando você se torna capaz de ouvir a própria voz.

Eu desejo – embora não gaste muito do meu tempo mental nisso – que esse seja o fim de uma era de tanta gente achando que tem o poder e influência sobre a vida dos outros. Nunca vai ser normal ganhar uma audiência na base do grito. Não foi normal ver tanta gente humilde e pacata se transfigurar em coach agressivo: parece que todo mundo esteve disposto a levar sua audiência para o Pico dos Martins, como fez Pablo Marçal, somente para ser resgatado pelos bombeiros. O que esse influencer disse, na ocasião, bem poderia estar na boca de muita mãe católica e coach de Instagram, com terço nas mãos: “Cada um que cuide da própria vida, eu estou cuidando da minha!”.

Pois é. Não deixa de ser um bom conselho.

6 comentários em “Fim de uma era”

  1. Que texto maravilhoso, o fim é apenas o começo de uma nova oportunidade para recomeçar. Obrigada Luciana!

  2. Venho acompanhando – ainda que meio de longe – seus textos por aqui e, nesses últimos, você deixa claro um arrependimento, uma espécie de metanoia ao contrário. Você ainda é católica? Pergunta sincera, sem nenhuma maldade. Se sim, parece-me que viu no jeito conservador de ser católico (uma mãe e mulher católica, especificamente) um modo “tóxico” (para usar um termo da moda que você utiliza no texto) de viver. Talvez eu não tenha entendido nada do que você vem escrevendo, mas seus textos têm me deixado triste.

    1. Oi Marcos,ainda sou católica. Talvez agora possa dizer que sou católica no sentido íntimo que a palavra deveria significar.
      Não estou triste,muito ao contrário. Estive triste, e agora me sinto feliz,leve e para a liberdade que Cristo me libertou. Se pareço triste é por falar do passado, pois é verdade que foi uma vida sufocante.
      Obrigada pelo comentário. A paz!

  3. Prezada Luciana, boa tarde.

    Gostei do texto. Penso que muita gente não vai gostar, ainda mais pela sinceridade e ir direto ao ponto.

    Parabéns por compartilhar teus pensamentos.

    Att, Catia Bohrer ________________________________

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