Por que ler contos de fadas – Parte 2

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Esta é a continuação de Por que ler contos de fadas- Parte 1. O texto continua exatamente de onde o anterior parou, por isso recomendo ler a primeira parte.

Agora, a segunda hipótese: contos de fadas iniciam a criança na cultura pagã porque falam de seres fantásticos como duendes, bruxas e elfos, além de ter a magia como desencadeadora de problemas ou como solução para os mesmos. Com isso pretende-se dizer que a criança, ao ter contato com estes elementos, flertará com o paganismo, e se interessará por práticas ocultas. Bem, se isto fosse mesmo verdade, deveríamos ver algum reflexo de tal corolário na realidade. Há muitos séculos que os contos de fadas são contados e re-contados e tudo o que eles reúnem ao redor de si mesmos são um público familiar (geralmente dos mais respeitáveis), sem que se possa propor, como evidência, alguma ligação entre a difusão das histórias e o aumento ou legitimidade das seitas pagãs durante qualquer época.

Como eu sou uma pessoa de bom senso eu gosto de estatísticas. Porque se a preocupação de alguns parece epidêmica (é um argumento invariável) a estatística de crianças que leram contos de fadas e foram para o paganismo wicca ou coisa parecida deve estar em algum lugar. Alguém, com igual bom-senso, deve ter os números desses destinos trágicos. Uma criança verdadeiramente cristã que foi para o paganismo mais tarde porque leu muitos contos de fadas na infância deveria ser tão fácil de encontrar quanto as crianças verdadeiramente cristãs que abandonaram a religião quando entraram na faculdade.

Os contos de fadas foram uma maneira eficaz de falar sobre um mundo antigo onde as práticas ocultas eram realmente condenáveis. Você, que está lendo isto no século XXI, sabe que não está neste mundo. Não estamos num mundo onde o paganismo está bem escondido no meio de uma floresta escura, mas em um onde o consenso o colocou à luz do dia, enquanto os cristãos começaram a ser empurrados para a sombra. Ainda há luz em ambos os lados, mas você (sem más intenções), por alguma razão continua acreditando que são aquelas histórias contadas por pessoas que temiam e odiavam as bruxas que o levarão para elas. Se as bruxas são grotescamente feias nos contos de fadas, se têm poderes tais como transformar uma pessoa num ser asqueroso, é  porque as pessoas que estavam contando isso sabiam de que lado elas estavam, e para as pessoas que contam histórias pouco importa que o demônio não tenha forma alguma por ser um espírito: ele é mau, então sua aparência será sombria.

Talvez agora que as bruxas podem ser vistas facilmente em cada esquina esteja mais simples do que nunca resolver a questão. Como você deve saber muito bem, bruxas não são feias – pelo menos não são mais feias do que a vida social permite. E como se pode comprovar, as bruxas não estalam os dedos e transformam pessoas em coisas, e é razoável afirmar que elas também não voam à noite. Mas bruxas matam crianças e às vezes as comem, e sim, é verdade que as usam em sacrifícios, e adoram especialmente as mais novas e não batizadas, razão pela qual elas impõem o aborto. É surpreendente olhar para elas hoje, cara a cara, e não saber distinguí-las em nada, nem sequer que estão fazendo sacrifícios humanos bem debaixo do nosso nariz, exceto para aqueles que têm a mais firme convicção do que seja a maldade. Alguém que ainda acredite em maldade.

É verdade que os elementos da cultura pagã celta e alemã estão misturados nos contos de fadas sem que estejam todos ao lado do mal. Há magos, duendes, elfos e muitos outros que transitam às vezes pela terra das fadas como ajudantes e pessoas boas. Desde que esses elementos entraram lá eles se tornaram folclóricos porque tudo o que se pode fazer com figuras esquecidas do paganismo e com deuses mortos é inventar histórias. As pessoas dizem que magos como Gandalf são nada menos do que os druídas, antigos líderes filosóficos e rituais da religião celta – líderes que faziam sacrifícios humanos e praticavam antropofagia. Eu concordo da mesma forma que concordo que o Papai Noel é o bispo (aliás, papa) católico Nicolau: você pode dizer à uma criança que a origem é esta, mas não tente convencê-la de o Papai Noel celebra missas. No ponto em que um símbolo vira uma história fantástica seria injusto trazê-lo para ser julgado no mundo real pelo irrefutável motivo que o escritor Michael Ende imortalizou na sua obra-prima A história sem Fim: o personagem de fantasia se torna uma mentira do lado de cá. Fadas no nosso mundo não existem. Magos não são druídas do mundo real. Os gigantes já foram extintos, como diz a Bíblia. A única coisa que permanece é o que é universal: o mal e o bem, em eterna disputa e os sentimentos humanos. A criança não pode amar a magia de Cinderela e amar a magia de uma cartomante porque são coisas completamente diferentes. A magia de Cinderela pode ter saído de uma varinha mágica, mas uma varinha mágica se parece mais com um milagre do que com as vísceras de um animal.

Se o problema é tão somente o paganismo,  nós lemos uma grande quantidade de literatura pagã e não nos preocupamos muito. Chesterton diz em O Homem eterno que há dois tipos de paganismo: o bom e o ruim. O bom é o greco-romano, o ruim são aqueles mencionados na Bíblia que adoravam Baal e muitos outros. A explicação, é claro, é filosófica. Os romanos não estavam com os deuses certos, mas derrotaram Catargo (coisa que os hebreus, que estavam com o Deus verdadeiro, jamais poderiam ter feito). Eles estavam com os deuses errados mas tinham herdado as perguntas certas da filosofia grega. Seus sacrifícios rituais não eram humanos. Com as perguntas certas, poderiam chegar às respostas certas, e de fato chegaram e aqui estamos nós. Nossos filhos podem ler toda a mitologia greco-romana, saber a lista de deuses de cor (algo que talvez nem as pessoas da época soubessem) que nós nos encheremos de orgulho. Podem andar fantasiados como gladiadores. Os deuses gregos estão mortos. 

Mas os contos de fadas não são literatura pagã e nós sabemos disso. Nós simplesmente não temos algo como uma cultura ocidental de literatura pagã ruim, no sentido chestertoniano do termo. É muito difícil encontrar o que tenha sobrado de filosofia ou autêntica obra pagã celta ou o que seja –  para quê serviram as fogueiras, afinal? Quem estava fazendo o trabalho de selecionar o que ficaria para a posteridade fez um bom trabalho. Ficaram as obras dos bons pagãos, foram-se as ruins. Alguma coisa sempre sobrevive, mas não porque foram conservadas. Quando as bruxas iam para a fogueira o ódio era tanto que queimavam até as provas dos crimes. O ocultismo sobreviveu não por excesso de literatura, mas por nunca lhe terem faltado adeptos. Os gregos careceram de adeptos, apesar da excelente literatura. Esta lógica é bíblica: São Paulo diz que o sustentáculo da verdade cristã não são as escrituras, mas sim uma Igreja viva (I Tim, 3:15). Em outras palavras: tivesse a bíblia sobrevivido, mas não tivesse uma igreja pregando o evangelho ao longo dos séculos, seria apenas um livro a ser lido academicamente e ninguém se atreveria hoje a pregá-la como verdade irrefutável.

Com isso compreendemos que as duas objeções principais à leitura dos contos de fadas parte de motivos frágeis, que podem ser refutados por muitos argumentos que não apenas os que foram apresentados aqui. A literatura permanece como um aspecto indispensável para a nossa vida, muito embora não possamos apontar sua utilidade prática. Podemos apenas reconhecer o quanto ela nos fala da condição humana, e é este o tema fundamental dos contos de fadas.

 

 

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Por que ler contos de fadas – Parte 1

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Tão relevante quanto as sugestões de histórias parece ser, em primeiro lugar, a pergunta “Por que eu deveria ler contos de fadas para os meus filhos?”: algo que, se não estiver bem resolvido, comprometerá todo o resto. Se por um lado muitos pais não sabem ao certo porque esta literatura é tão relevante para a imaginação da criança, há também um sem número de pais – cristãos, de uma maneira geral – que têm uma resistência quase moral aos contos de fadas, impressionados por sua violência e crueldade. Ou talvez sejam os elementos mágicos, a presença de fadas, elfos e bruxas, que imprimam nestes a convicção de que os contos são, senão uma apologia, uma perigosa iniciação ao paganismo.

Rejeitamos, de imediato, as objeções e explicaremos o porquê. Tratemos da primeira hipótese: a violência dos contos de fadas é aterrorizante para a criança. Esta declaração tem de ser matizada, porque não podemos ser injustos: de fato, há violência. Alguns contos – como admitem os próprios irmãos Grimm – podem ser selecionados pelos pais, a fim de não serem lidos até determinada idade. É o caso (a indicação é minha) de O pássaro do bruxo Fitcher, que traz referências explícitas a esquartejamento:

“Mas assim que ele saiu,  a garota foi até a sala proibida, destrancou-a com a chave e, assim que entrou, avistou um tanque bem no meio da sala e, dentro dele, muitas pessoas mortas e mutiladas”.

Um prefácio escrito pelos irmãos Grimm e que se encontra da edição Contos Maravilhosos infantis e domésticos (Editora Cosac Naify, e até então, a única edição brasileira que reúne todos os contos originais dos irmãos Grimm) responde à primeira objeção de maneira exata e, ao mesmo tempo, bastante poética, onde poderemos apenas fazer um comentário mais elucidativo. Diz o prefácio:

“Nada pode nos defender melhor do que a própria natureza, que deixa crescer flores e folhas com determinadas cores e formas; aquele para quem elas não são salutares, segundo suas necessidades especiais e das quais a natureza nada sabe, pode facilmente passar por elas ignorando-as; mas não pode exigir que elas sejam tingidas de outra cor ou que tenham outra forma. (…) As crianças apontam sem medo as estrelas; outros, seguindo a crença popular, veem nisso uma ofensa contra os anjos.”

Em outras palavras: as crianças não leem a crueza dos contos de fadas – tal como é apresentada – da maneira como nós, imersos na avalanche de notícias e referências do que vem a ser a maldade humana, lemos. Não visualizam o gigante que come crianças mais do que o símbolo do que deve ser temido e porquê. Certamente a criança sabe que ser devorada por uma criatura perversa é algo horrível, e não seria ela a querer ter semelhante destino: seu temor, todavia, concentra-se no gigante, na bruxa ou o que seja, e passa imediatamente à relacioná-lo com o mal. Este é o ponto-chave da razão pela qual estas histórias parecem ter sido mantidas vivas por gerações: o mal é sempre o mesmo, em suas diferentes facetas; está à espreita e por vezes é esperto, mas invariavelmente é vencido por alguma criatura indefesa. G.K. Chesterton, o grande escritor católico, tem a célebre frase “Contos de fadas são reais, não porque nos dizem que os dragões existem, mas porque nos dizem que eles podem ser vencidos” e Tolkien, não menos célebre, personificou esta verdade sobre os contos de fadas na sua própria criação, ao colocar um pequeno hobbit para vencer o Senhor Escuro quando tantos outros, mais fortes, poderiam tê-lo feito.

Nos contos de fadas – diferente dos romances psicológicos que inundam a nossa literatura – o mal (ou quem é mau) não têm uma gênese. Você não encontrará em Grimm as explicações – que atualmente se tornaram a nova obsessão do cinema – do que aconteceu para que a bruxa fosse tão grotesca ou as razões que justifiquem a perversidade de um rei. A pessoa má é tal como é, e a resposta que as histórias nos dão, caso alguém se atreva a perguntar, é a de “são más porque querem”, e de fato não existe melhor justificativa. É de nosso conhecimento que estas histórias, colhidas na tradição oral dos povoados alemães de séculos atrás, não nasceram como literatura infantil, mas tanto as crianças quanto os adultos daquela época não podiam sequer conceber as manobras intelectuais que são feitas, neste século, para isentar o mal.

O que se torna cada vez menos palpável para as pessoas de nossos dias é a seguinte verdade: saber porque uma pessoa se tornou má não é de grande ajuda para se defender dela. Na verdade, psicologicamente, justificar a maldade se torna mais eficaz para não se defender de modo algum: perdemos a vontade de nos precaver de algo que inspira a nossa pena e achamos que o lobo à nossa frente está apenas à espera de uma oportunidade para se redimir. Em contrapartida, as pessoas que narravam e ouviam estes pequenos relatos maravilhosos não tinham nenhuma razão para duvidar de que o lobo era mesmo perverso. Aliás, se um lobo pudesse se desfazer da sua pele e se revelar como um cordeiro, as sagradas escrituras teriam sinalizado: ao invés disso, devemos nos preocupar com os cordeiros, que podem ou não ser lobos.

Se há uma razão primordial pela qual eu, particularmente, leio contos de fadas para os meus filhos, é esta: que existe o mal e ele é assustador, e o é em tal medida que produz suas perversidades por motivos inexistentes ou muito superficiais, tal como a madrasta de Branca de Neve pediu seu coração numa travessa por invejar a sua beleza. O mal existe: sua realidade está, de tantos modos, evidente na nossa existência, que tão logo começamos a travar diálogo com nossos filhos, nos vemos na necessidade de falarmos sobre ele. E se pensamos com clareza no que é esse mal, teremos que admitir que não haverá maneira mais branda de descrevê-lo do que usando a analogia de uma bruxa que come crianças desprotegidas.

As narrativas nos falam de alguns tipos de vilões, dos quais poderíamos destacar: o parente perverso (madrasta, tios, irmãos ou mesmo os maus pais) que se aproveitam do poder que têm para humilhar ou eliminar o herói; e o estranho:   que bate na porta oferecendo qualquer coisa de interessante ou cruza o caminho do herói e o convence a mudar de rumo (e por isso, vem a ruína). Para uma criança, a maldade reside no que uma pessoa, criatura ou animal possa fazer contra as outros e, por conseguinte, contra ela. Se eu perguntar à minha filha o que é uma pessoa malvada, ela me responderá algo como “é alguém que bate, devora ou leva as crianças embora para longe”, no que estará sendo muito precisa.O mundo sempre foi este lugar ameaçador, e ainda mais para uma criança, que hoje como antes precisa saber se defender de alguma forma. Não estaremos mentindo se dissermos que estranhos na rua são uma ameaça semelhante à uma feiticeira devoradora de carne humana: é o que eles podem ser; e não há melhor contador desta verdade universal  quanto as histórias.  

Considero a apresentação do elemento mau nos contos de fadas como seu aspecto mais instrutivo – e não tanto  o ensinamento da moral ou virtudes, como querem alguns. Em muitas histórias não será possível tirar qualquer lição moral – pelo menos não de modo claro – e menos ainda enaltecer boas virtudes. Com isto não estou dizendo que sejam prejudiciais, mas sim que, deste ponto de vista em particular, não são em geral pedagógicas. Estas coisas aparecem nos contos de maneira simbólica e para que o símbolo ganhe força é necessário que se tenha uma ideia clara do que venha a ser, realmente, o ensinamento moral ao qual a criança deva estar vinculada. Falando claramente: se você deseja ensinar moral para seus filhos, certifique-se de que aprendam antes com os exemplos dos santos, os mandamentos e a prática da religião, presumindo que seja este o caso.

Continua…