Diário Espiritual III: sobre a família

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Esse é um trecho do meu Diário Espiritual: é muito pessoal. Compartilho estas reflexões, mas ressalto que elas não são um texto crítico nem de orientação de qualquer assunto específico. 

Vejo muitas de minhas amigas (eu mesma fui tão assim, um dia), esmagadas sob o peso da mulher e da família de antigamente. É como se estivéssemos sempre frustradas por não corresponder à bela gravura da família antiga, com seus papéis bem definidos… Agora mesmo, estou lendo o que algumas pessoas postam nas suas redes sociais, com muitos compartilhamentos semelhantes, onde jovens senhoras aparecem em pinturas à óleo, rodeadas de crianças pequenas, servindo a mesa para um esposo aparentemente absorto nos próprios pensamentos.
Outra mãe comentava como gostaria de ter tantos filhos como as mulheres de outrora, passando fome, se necessário fosse!
Passando fome… Isso ecoou na minha cabeça.
Dostoiveski dizia que a pobreza era ainda digna e pedagoga à sua maneira, mas que a miséria nunca tinha feito um homem crescer em dignidade, exceto aquelas almas destinadas por um desígnio sobre-humano à tal condição. Passar fome com a família, como qualquer martírio, não é algo que se busque, é algo que, se for para a glória de Deus, é entregue por Ele, e de tal forma que, fazendo de tudo para escapar, não nos reste outra alternativa senão beber do cálice.
Também é verdade que a ultima coisa que conseguiríamos ser, sobretudo com todo esse romantismo, é uma pobre e forte mãe e mulher de antigamente. Nós concebemos a pobreza como uma maneira simples de encarar a vida, sem luxo, sem restaurantes caros, sem apartamentos em bairros nobres, mas de preferência lendo Shakespeare e quem sabe ensinando francês, ainda que com muito sacrifício. Nenhuma de nós está verdadeiramente disposta a passar tanta necessidade que nossos filhos bebam apenas leite em pó quando visitem a casa de um parente mais abastado, ou que eles andem nus pela casa na fase das fraldas, já que até fralda de pano se torna muito caro num tempo em que a minha tia nem podia pagar pelo sabão; ninguém imagina ser tão pobre que a carne ou o frango só apareçam no prato uma vez por semana, ou que seja natural (naturalíssimo, a ponto da partida nem arrancar lágrimas de nenhuma das partes) ir despachando os filhos, tão logo cresçam um pouco, para ir habitando a casa de parentes e conhecidos, onde sobre cama e comida…e tudo isso foi uma realidade de pelo menos meia dúzia de membros da minha família há algumas décadas. Não, essas pessoas não eram as mais generosas do universo, tinham tantos defeitos quanto eu e você , mas elas faziam parte de um mundo onde a pobreza havia sido herdada como as cores de seus cabelos, e por isso mesmo, conviviam com ela.
Eu lembro que, antes de me casar, uma das coisas mais tristes era ouvir de velhas senhoras católicas que haviam tido muitos filhos, que eu deveria abandonar o projeto de ter uma família numerosa. Para mim, tudo o que havia nesses comentários era muita maldade do mundo, algo que lhes havia corrompido o coração – e, de tal forma, que elas enchiam o peito para anunciar que de ótimo grado tomariam todos os venenos disponíveis para evitar gravidezes consecutivas.

De fato, tal raciocínio parece saído de uma história de horror.

Encontrei, para a felicidade geral do mundo, uma senhora católica tempos depois que comentou de maneira muito trivial que havia tido oito filhos, sendo sete biológicos e um adotado. Ela parecia tranqüila. Nenhum comentário daquele tipo que se inicia com “naquele tempo…”, não se desculpou, nem fez apologia. Me parabenizou pelos meus dois bebês. E foi embora.

Qual a distância que separa o pensamento destas senhoras que viveram em outros tempos? Como eu as conheço relativamente – são da minha antiga paróquia, uma delas carinhosamente chamada por mim de “avó emprestada”-, me lancei a fazer conjecturas. Eis algumas:

Minha avó emprestada teve, coincidentemente, oito filhos, assim como Dona Tranqüila, mas odeia a própria sorte que teve. Permita-me dizer que, uma vez que ambas estão vivas e lúcidas, não fazem parte daquele tempo em que era normal ter dez filhos. Era muito mais comum do que hoje, claro, mas não era a regra senão nas comunidades mais pobres. Aliás, historicamente falando, essa é uma verdade a ser observada: toda mudança de paradigma pode levar muito, muito mais tempo para atingir as camadas mais baixas. É por isso que nos vilarejos e nos interiores da vida se pode encontrar pessoas e coisas de outras eras; já nas camadas mais ricas, a mudança é realmente muito rápida. Minha quase-avó era muito pobre, do tipo que lavava roupa para fora e acordava às quatro da manhã para descascar cebolas para a Ceasa (um tipo de feira grande). Os filhos meio que se criavam uns aos outros, e ficavam sozinhos em casa ou com qualquer pessoa que pudesse “olhar” sem critério.

Na Idade Média e até meados do século XVIII, a prática de enviar os filhos para outras famílias criarem ou para que elas pudesses fazer uso deles como ajudantes domésticos – ou ainda para que fossem aprendizes de qualquer ofício- era muito comum. Isso atingia todas as classes sociais. Sei que isso parece uma demonstração de desapego, quase como se os pais não amassem seus filhos, mas seria o mesmo que dizer hoje que as famílias são desalmadas por enviarem as suas crianças para a escola por boa parte do dia, por quase quinze anos consecutivos. Era algo comum, porque as razões pelas quais aquelas famílias tinham aquele tipo de comportamento eram outras, e porque o mundo, por motivos impossíveis de serem listados aqui, funcionava dessa forma.  Este talvez tenha sido um dos traços das sociedades antigas que mais perdurou entre as camadas pobres até hoje. Lembro de um documentário que assisti na faculdade -sobre o sentimento da infância – e de como certo lugar do Nordeste soava como uma aldeia medieval: metade dos bebês das mães não sobrevivia, e a outra metade se dividia na casa de tantas pessoas diferentes, que às vezes nem a mãe sabia ao certo informar onde estavam. Minha própria mãe foi dada à um parente, sorte idêntica a mais de dez de seus catorze irmãos, que cresceram separados.

A verdade é que as famílias numerosas antigas funcionavam de modo muito diferente das nossas famílias atuais, numerosas ou não. Nós somos muito apegados. Um filho se tornou, com o passar dos séculos, e na medida em que a alta taxa de mortalidade infantil foi sendo superada, insubstituível. Antes, não. Morriam tantos, e tão facilmente, que a mãe de outrora só se sentia autorizada a criar um forte vínculo quando a criança já há muito andava e falava. Uma mãe que perde um bebê de poucos meses atualmente não acha todo o resto da vida suficiente para se recuperar. As mães de antigamente chegavam a perder dez bebês pequenos ao longo de uma vida. Você consegue imaginar isso? Não lhe parece que uma época assim devesse ser mórbida, com mulheres infelizes internadas num sanatório (é o que aconteceria comigo) ? Eu costumo dizer que as sociedades tradicionais têm muitíssimo mais a nos dizer do que as belas pinturas à óleo supõem.

Algumas centenas de anos antes de toda a revolução sexual do século XX, ter um filho foi, pouco a pouco, mudando a própria concepção de família. Se você me perguntar ou perguntar à qualquer pessoa de bom senso qual a prioridade dentro da família, a resposta será um uníssono “os filhos”, ou ainda, “a educação dos filhos”. No entanto, mesmo nas nossas antigas sociedades cristãs, este nunca foi o espírito familiar. Podemos dizer que apenas a partir do século XVII a mudança de paradigma começou a se fazer sentir com algum alcance na sociedade. Lembremos, todavia, que quanto mais baixa a camada da sociedade, mais tempo se leva para que tais mudanças sejam compartilhadas.

Isto, embora soe um pouco discursivo demais, têm tudo a ver com a minha Quase-avó – e, por extensão, com todas nós. Para ela, assim como já o era para quase todas as mulheres do século XX, ter filhos significava que seria você completamente responsável por tudo o que lhe dissesse respeito. Essa realidade (para nós, tão óbvia), foi aumentando a carga dentro da família enquanto instituição, num mundo em que a educação (como um todo, e não apenas o conceito de pagar uma escola ou investimento financeiro) ganhou proporções assustadoras. Educar um filho é um empreendimento que, se mal administrado, têm péssimas consequências. O mundo atual também não ajuda muito. Educar um filho, mais do que em qualquer época, se transformou para nós cristãos numa questão de salvação eterna. Nós muitas vezes não confiamos nem nos avós  para influenciar nossos filhos. Temos medo (com razão) de deixá-los sozinhos com tios e primos.

As mulheres antigas da minha família, que moraram nesses interiores onde o mundo antiquíssimo ainda possui algum reflexo, costumam dizer que antigamente, para quem era pobre como elas, a vida funcionava de outra forma porque a conformidade com a sorte era rigorosa. Ninguém se desesperava pelo filho não ir à escola. Quem não podia, não colocava o filho para estudar e pronto, já que ainda que houvesse (nem sempre havia) uma escola gratuita, estudar sempre agregou custo – e, mais ainda, estudar significava investir o tempo que deveria ser empregado para a sobrevivência financeira da família. Mesmo o fato de que muitas crianças ainda morriam por falta de assistência básica não era motivo de revolta. “As famílias eram muito conformadas – minha madrinha costuma contar -, o que se podia fazer? Morriam os filhos, as mães enterravam e a vida seguia”. 

[Eu sempre penso comigo que não gostaria de viver isso. Que não precisa ser assim. Que há maneiras de evitar isso. Eu converso com Deus e chego a falar de justiça, mas não sei nada. Apenas desejo que as coisas sejam diferentes para muitas pessoas, assim como para mim.]

Minha avó emprestada vivia nesse mesmo mundo que você e eu. Mas ela não tinha mais a vida dos pobres de antigamente. Ela sofreu,intensamente, com a carga altíssima debaixo dos seus ombros. Não viu os filhos crescerem, de fato. Criou-os em meio não à pobreza que nós almejamos viver – repartindo o pão de cada dia-, mas vendo lhes faltar tudo em dignidade, a começar pelo fato de que era obrigada pela necessidade extrema à sair diariamente para trabalhar num “bico” duríssimo. Não era mais o mundo orgânico que dividia, de muitas formas diferentes, o peso de uma nova vida. Lamentou por tudo o que não pôde dar, e isto nada tem relação com o plano de saúde que colocamos na nossa lista de prioridades, ou da atividade extra-escolar.

Eu poderia ingenuamente me perguntar: mas esta senhora, tão piedosa à meus olhos e tão ativa na Igreja, não ouviu falar nada a respeito de métodos naturais? Ora, na época em que tinha seus filhos, os métodos artificiais praticamente inexistiam. Também não havia nenhum movimento na Igreja que propagasse métodos naturais, até porque essa não era ainda uma preocupação pastoral. A Humanae Vitae só foi escrita no fim dos anos 60, e estamos falando de uma época sem internet e sem toda essa facilidade de informação. É claro que, do lado da minha família onde a condição financeira sempre foi melhor, a história de vida já era, há tempos, diferente. Católicas, as mulheres usavam método natural para distanciar os nascimentos e a média era geralmente quatro ou cinco filhos. Geralmente mais, e quase nunca menos. O recurso aos períodos infecundos, por parte das classes mais desenvolvidas, já é usado há muito tempo, bem antes de “ser uma alternativa à pílula”. Faz parte de toda essa mudança de paradigma das sociedades antigas.

[É claro que essa é uma observação histórica. O que meu confessor orienta nesse sentido é muito mais profundo, e não convém colocar aqui, para evitar erros e interpretações equivocadas.]

Desabafei tudo isso nessas linhas porque – acho que foi uma graça- já não consigo mais ver apenas a maldade do mundo nas ainda cruéis palavras desta senhora por mim tão querida! Compreendo sua lástima, não para simplesmente perdoá-la (quem sou eu…), mas especialmente para não afundar a mim mesma na incompreensão deste mundo que mudou – e como ocorre, sempre, faz estragos no seu curso. Apesar de muito ativa na Igreja, minha Quase-avó desconhece o que sejam hoje as recomendações da Igreja com relação ao tema da sexualidade. Continua repetindo, sempre que me vê, que na época dela não haviam tantas facilidades para “parar os nascimentos”. Não sabe que a sua amada Igreja proíbe veementemente os métodos artificiais de contracepção como sendo contrários à moral. E também não sabe que, tal como nos disse o Papa Paulo VI na Humanae Vitae, a Igreja é a primeira a reconhecer o uso de maneiras que melhorem  a qualidade de vida e o amor na família, desde que os meios não estejam contra a moral estabelecida por Nosso Senhor Jesus Cristo. Por sua própria concepção, os métodos artificiais são contrários à ordem estabelecida por Deus, pela maneira como agem e, principalmente, por suas consequências. Lembremos que por isto Onã foi morto. Mas, reconhecendo que há necessidade, pode-se regular os nascimentos da família, para que a paz e o amor verdadeiro reinem.

Todas essas palavras me vieram depois de refletir na pergunta de uma amiga que assim foi: “Ah, mas como as mulheres de antigamente faziam para ter tantos filhos? As pessoas não tinham? Então, não deve ser tão difícil”.

Não estou muito certa sobre a parte do “tão difícil”, mas ao menos gostaria de  dizer que, após muito pensar e ler sobre o assunto, não se trata apenas de atribuir ao nosso mundo cão, à nossa preguiça ou egoísmo, o fato de sermos tão resistentes à esse projeto de vida que eu desejo, a despeito das minhas péssimas disposições.

Mas vejamos o que Deus opera na minha vida. Confesso que eu me surpreendo com o rumo dos acontecimentos. Ao invés de julgar a mim mesma o tempo todo (como vinha fazendo desde a minha conversão, anos atrás, até o início do meu casamento), deixo que Ele me julgue e me suporte.

Percebi que escrevi demais. De fato, esse assunto me deixa muito inquieta. Não vou resolver isso neste diário. São muitas páginas, e não explicam nem uma pequena parte do que se passa na minha cabeça. Agora que está de alguma maneira documentado e organizado, provavelmente há muitas lacunas. Minha cabeça dói. Vou parar apenas para não acreditar que encerrei alguma questão…

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Diário Espiritual II (sobre os defeitos)

Este é um trecho do meu diário espiritual. É muito pessoal, por isso, peço a gentileza de não re-postar sem autorização.

Não sei se temos real dimensão de nossos defeitos. Mas se você não passar por nenhuma guerra ou catástrofe; se não for colocado diante de uma grande provação, que claramente lhe pedirá as contas, ainda resta essa gigantesca empreitada (talvez a maior de todas): vencer a si mesmo.

Acho que antes de nos casarmos a maioria de nós convivia bem com o nosso pior defeito. Ele parece nos acompanhar a vida toda, mas facilmente não nos damos conta de que ele é um personagem tão constante que pode ser mais familiar que um de nossos parentes. Se olhar para trás, posso tomar consciência dele em memória  antiga; é como um daqueles filmes em que a cena da infância traz algo revelador e simples: tudo começou quando você ainda nem tinha consciência.

Digo antes de casarmos por alguns motivos em particular. Vamos aos exemplos. Meu tio N*. Sempre foi um garoto nervoso. Na juventude se envolvia em pequenas brigas e discussões. Chegou a bater em alguém e a apanhar. Essas coisas não aconteciam mais que duas vezes por ano. Era apenas tido como um sujeito “esquentado”, e, rigorosamente falando, não se podia dizer muito mais do que isso. Nem ele mesmo podia. Quando ele se casou, porém, sua esposa passou a viver o purgatório na terra: as brigas e discussões eram algo constante, para não dizer diárias. “Só eu sei o que levei para casa” é uma frase que poderíamos atribuir à ela.

O Sr. Rodrigues detestava o namorado da filha porque ele já tinha um filho com outra mulher. Não importava o fato de que o garoto se mostrava arrependido. No entanto, o sr. Rodrigues não ficou nem um pouco surpreso quando o mesmo aconteceu com sua filha e ela engravidou do rapaz, antes do casamento. O pai via o maior defeito dele, e não estava muito certo de que ele havia se vencido. Quando finalmente se casaram, sua filha pôde compreender que as coisas da vida não podem se resolver tão facilmente. “Se você detesta muito o defeito de uma pessoa” – ele dizia – “não se case com ela“. Mais do que mudar, as pessoas precisam tomar decisões todos os dias. “Você está pronta para conviver com isso? Poderá culpá-lo todas as vezes em que ele reincidir no erro, e vier lhe pedir desculpas, até o dia – que pode facilmente ser até a morte – em que ele ganhe a batalha?

Gosto de tomar esse questionamento para mim mesma. Eu sempre fui uma garota muito orgulhosa. Meu orgulho está muito bem documentado nas minhas amizades durante a vida: pessoas deixadas para trás quando a mágoa era muito grande. Então, eu podia fazer um exagerado juízo sobre mim mesma, e de como dificilmente eu havia merecido aquilo; isso não me levava à inimizade, mas eu reforçava a mais absoluta convicção de as coisas não podiam voltar a ser como eram antes. Isso é verdade, em parte. Nada permanece igual. Mas isso sempre me paralisou muito. Na prática, eu ia embora.

Então agora – não o digo literalmente, mas como alegoria – tenho de perdoar meu marido e não posso ir embora. Nem na teoria e nem na prática. Tenho irremediavelmente de lidar com a minha “verdade” construída ao longo da vida ( “nada é exatamente como costumava ser”) e ver o que acontece quando essa verdade me olha de volta, porque eu não dei as costas. Partir era uma espécie de punição para o outro. Mas eu não posso punir a quem mais amo, ao contrário; minha alma viciada, em contrapartida, procura a todo momento lidar com essa minha permanência, lhe perguntando incontáveis vezes como as coisas ficam de agora em diante. É este um problema do meu marido, ou meu?

Meus pais provavelmente nunca conheceram o meu maior defeito. Eu também não conheci os deles. Sendo filha de pais separados, passei boa parte da minha vida me perguntando a razão daquela ruptura tão violenta entre eles. A traição explica isso? Ela explica como duas pessoas passam 17 anos juntas, para então não darem mais “certo”? A falta de perdão sempre me pareceu o ponto definitivo. Eu não digo simplesmente perdoar uma traição, mas perdoar o fato de que a pessoa não quer ser perdoada. Até mesmo isso passa. Tudo passa, disse Jesus, exceto as Suas palavras. É a confiança nelas – “Não separe o homem o que Deus uniu” – que precisa prevalecer. Parte do mistério do matrimônio é receber a única pessoa que irá conviver com você de fato, quase nas suas entranhas. Eu vivi com meus pais até a adolescência; depois um pouco com cada um. Talvez eles tenham alguma ideia do meu temperamento difícil, mas eles jamais poderiam supor o que eu realmente posso fazer para magoar alguém que eu amo. Eles não podem supor e nem imaginar Luciana na intimidade, assim como meus filhos só terão acesso a mim em parte. Sempre parecia que existia uma outra vida acontecendo atrás da porta do quarto do meu pai e da minha mãe. E de fato, há. O quarto é a simbologia perfeita para a relação tão próxima dos corações do marido e da mulher.

(…)

Diário Espiritual – I

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Há quase dois meses comecei a escrever um diário espiritual. É um dos poucos projetos que tenho conseguido manter com certa regularidade! Resolvi fazê-lo depois de tentar inúmeras vezes retomar o fôlego das minhas orações diárias, sem sucesso. Costumava rezar todo o rosário, as penitências do escapulário, penitências por meus filhos espirituais e todas as orações obrigatórias de todo cristão (isto é, orações da manhã, da noite, ao Anjo da Guarda, antes e depois de todas as refeições, pelo menos 1 Angelus), além de revezar, durante a semana, ofícios, orações menores e vigília 1 vez por semana. Fazia-o não pela quantidade, mas porque, naturalmente e de acordo com meu estilo de vida, foi-me possível agregar tais orações; após o casamento, no entanto, foi ficando particularmente difícil manter este ritmo, coisa que eu ainda não aceitei totalmente. Como é muito frustrante passar meses seguidos tentando recuperar o costume de nossas orações e devoções antigas, resolvi tentar uma coisa nova, algo que eu pudesse fazer mais facilmente. Escrever – sobretudo com papel e caneta na mão, abolindo o computador – me é menos penoso, e embora não seja um substituto para as minhas orações, ajuda-me bastante. Consegui alguns progressos, especialmente alguma paz de alma.

Fazê-lo é muito simples. Inspirei-me em algumas instruções de um diário espiritual americano, que vende-se em livrarias e sites como Amazon. Comprei um caderno (custou apenas 12 reais) e anotei as recomendações, que inclui o oferecimento matinal e um exame de consciência noturno. Não é muito diferente de qualquer diário pessoal; no meu caso, faço reflexões sobre minha dificuldade em superar as exigências do meu estado (esposa, mãe e dona-de-casa), a atual “aridez espiritual” em que me encontro, e muitas palavras dedicadas a re-afirmar minha fé e meu amor a Jesus Cristo. Anoto frases de santos, trechos da Bíblia, etc.

Coisas que escrevo:

“Por mais que me seja enfadonho permanecer tantas horas brincando no chão com minha filha, quase como se eu própria levasse uma vida de bebê, limitada a segurar os mesmos brinquedos incontáveis vezes, penso comigo que foi como ganhar na loteria. Eu sempre empreguei muito mal o meu tempo; fui o tipo de adolescente que estava a começar novas atividades constantemente, sem jamais terminar alguma; perdia o interesse pelo que eu mesma elegia como prioridade; nunca tive uma vida verdadeiramente adulta… e agora, eu sei, estas são as horas que jamais poderão ser chamadas de inúteis. Admito que eu posso tirar mais proveito delas, especialmente exercitando minha conformidade e paciência, buscando a alegria cristã de agradecer a Deus por todo esse privilégio! Poucas pessoas merecem tanto quanto eu estas horas que não são mais minhas: cumprir a obrigação é isso. Não importa que eu não queira, esteja sem paciência ou tenha enorme desejo de estar fazendo qualquer outra coisa naquele momento – pois o que realmente dá para fazer quando Lupita e  eu estamos vagando pela casa vazia é entretê-la da melhor forma possível!”

No próximo post, transcrevo a vocês as instruções do Diário, adaptadas por mim… e estou a terminar as reflexões sobre a vida no lar!

Rezem pelo meu parto!

Salve Maria Santíssima!