A vida no lar – e o trabalho fora dele – Parte 4

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Simone de Bouvair costumava dizer que a opção de ficar em casa e cuidar dos filhos jamais poderia ser dada à mulher, pois se assim fosse, “demasiadas mulheres farão esta opção”, o que não interessa à causa feminista. Quase ninguém conhece a afirmação, mas o eco dela está na sociedade como um todo, o que nos faz compreender porque esta vocação sofre ataques pejorativos por todos os lados.

Muitas pessoas, até hoje, continuam acreditando que toda melhoria para a vida das mulheres é fruto de alguma causa, de algum panfleto, de alguma queima de sutiã. Como se apenas a partir da “classe feminista” organizada é que a vida tivesse melhorado para nós. E corremos o risco de fazer uníssono com isto: é comum ver algumas devotadas feministas (especialmente em debates de internet, nas faculdades e meios mais ordinários) repetirem sandices como “agradeçam as feministas por terem um nível superior, por usar a internet.” É lamentável que esse discurso não consiga ser demovido; estamos tão mergulhados na desinformação histórica, que mentiras são ditas a todo instante, e com que direito de bom-senso!

Claro: a estória de não poder utilizar a internet é só uma estratégia das feministas de reduzirem a religião cristã à mesma categoria das religiões tradicionais orientais – estas sim, oprimem, muitas vezes, a mulher, mas não  vejo feministas ocidentais interessadas em defender os interesses daquelas mulheres. No Marrocos, por exemplo, há uma “Lei” que garante ao estuprador de uma menor a opção de se casar com ela, e assim escapar da pena. E tal é a mentalidade por lá, que geralmente a família da moça (a quem cabe a decisão), aceita. Recentemente, uma jovem de 16 anos, obrigada a aceitar estas condições, cometeu suicídio. Quanto a “nós”, a causa está tão ridícula e saturada, que agora elas reclamam o direito de urinar em pé – coisa que elas podiam, lamentavelmente, fazer em privado.

Sinto dizer as feministas (aliás, minto: fico bastante satisfeita) que nossas maiores conquistas foram materiais: se hoje não precisamos mais passar tanto tempo no tanque de lavar roupas, acendendo o fogão à lenha, salgando as carnes para todo um período, entre milhares de coisas do gênero, não foi porque elas nos libertaram do fardo, mas porque o fardo por si só ficou menor com o avanço das tecnologias (e a abrangência do cartão de crédito). Quando a mulher não podia pagar por estas coisas (o acesso a uma máquina de lavar, por exemplo, está bastante democrático atualmente), ela tinha de, invariavelmente, recorrer à outra mulher para que o fizesse em sua residência. Até mesmo as próprias feministas devem às facilidades da vida cotidiana o surto de suas existências: foi o tempo livre, sem dúvida, que pôde produzir estes discursos, já que, séculos atrás, quando a vida era bastante dura, todos estavam ocupados demais, dependentes demais uns dos outros, para pensar em igualdade de funções.

Explico: algumas pessoas se esquecem de como a vida funcionava até bem pouco tempo atrás… olham para o passado e não sabem do que estão falando, porque parece que estão sempre criticando a família dos anos 50, com poucas variantes. Esquecem que tanto a vida no lar, como o próprio trabalho tinham organizações  distintas: da cooperação mútua entre homem e mulher, unidos pela família, dependia a sobrevivência de todos, num mundo onde tudo isso que recebemos tão naturalmente – hospitais, educação, vacinas, saneamento básico, etc., etc. – não existia.  Esquecem que se (quase) nenhuma mulher tinha nível superior, bem poucos (pouquíssimos, aliás) homens o tinham. As mulheres “lutam” para ter uma jornada de trabalho, como o homem “sempre teve”, mas não desconfiam que na verdade, até a revolução industrial, o homem não tinha “jornada de trabalho”,  porque as pessoas – incluindo as mulheres – trabalhavam em períodos, frequentemente em estações, cada qual de acordo com a função que desempenhavam. Esta coisa de “sair de manhã e voltar à noite”, que nossas contemporâneas tanto desejam, é algo absurdamente novo, de todos os pontos de vista, e também indesejável de todos os pontos de vista – pelo menos, para as mães.

Nesta quarta parte de minhas reflexões, venho tocar em alguns pontos que permaneceram em aberto, após alguns questionamentos que recebi via mensagens, e mesmo perguntas feitas diretamente. Uma delas, bastante pertinente, porque pode ser a dúvida de muitas, será formulada da seguinte maneira: “Se o ideal é que a mulher fique em casa e cuide dos filhos, então por que pensar em formação acadêmica ou profissional para as moças?

A pergunta não é apenas simplista, ela é também carregada de radicalismo. Temos que ter muito cuidado com tais corolários: eles podem , aparentemente, resolver nossos dilemas, mas fatalmente não sobrevivem no mundo real. Por que estou dizendo isto? Porque não raro tenho visto mulheres defenderem um comportamento ultra-anacrônico, de não sair de casa para fazer qualquer atividade semelhante, sob pena de não estar sendo a “mulher ideal”- ou seja, aquela que fica apenas em casa, lavando, bordando e servindo a mesa para 13 filhos. Bem, se tal mulher realmente existiu, ela contava com a enorme vantagem de não ter toda esta consciência de classe que nossas atuais senhoras anacrônicas têm – e isto lhes dava a tranquilidade de serem ordinárias num mundo ordinário. Elas eram mulheres comuns. E precisamos, antes de tudo, compreender de fato o que isto significa.

Respondo de modo direto (como, aliás, já respondi várias moças e senhoras): demonstra-se, por muitos motivos – e isto levando em consideração não uma regra quinhentista, mas a própria configuração do mundo atual – que continua sendo ideal, melhor e mais saudável para todas as partes envolvidas [esposa, esposo e crianças], que a mãe se dedique aos filhos, especialmente enquanto pequenos e totalmente dependentes dela, o que se faz mais adequadamente quando ela dispõe de tempo, coisa que o trabalho – mas, preste atenção, o trabalho do modo padrão na sociedade industrial – não contempla. Refiro-me ao emprego diário, a jornada média ou longa, que ocupa e afasta a mãe deste lar.  Se por um lado, contamos com toda a facilidade material do mundo moderno, por outro, o aspecto emocional da família continua necessitado da presença e disponibilidade desta mãe. Eu diria mais: nunca, como hoje, se torna tão plausível. E é por isto – e não por mero saudosismo de “como as coisas costumavam ser”, é que se torna compreensível que se fale do papel desta mãe católica dentro da família, nos termos em que se discute aqui.

Devemos ser sensatos o suficiente para conferir à outra questão o mesmo rigor: a plausibilidade da formação da mulher na nossa sociedade contemporânea. É bom, útil, necessário e até indispensável que a mulher estude e saiba alguma profissão?  Sabemos que sim, e o por várias razões,então, sinceramente, de onde vem a dúvida? De onde vem essa vontade de ser “perfeito” até nos detalhes da louça, quando neste mundo não somente acabaram as ocasiões para os chás, mas as próprias ervas são desconhecidas? Não é somente anacrônico, é insustentável que aprovemos o raciocínio daquelas e daqueles que aparentemente “não vêem motivos” para uma moça ingressar na faculdade ou aprender um ofício, se pretende casar. O que acontece, então, se não se casa? Antes, a mulher que caía na má sorte de não se casar, era mais vista como desgraçada pelo fato de não poder sustentar a si mesma e acabar sendo responsabilidade da família ou ao menos condenada à uma vida extremamente penosa, que por não encontrar meios de seguir  a vocação que sonhava. Não há justificativas, atualmente,para não proporcionar à sua filha estudo e profissão, e não apenas pela incerteza do casamento: vale a pena fazê-lo porque tudo isso é acessível, bom e útil, de muitas maneiras, que não apenas uma ocupação na carteira de trabalho.

Estudar e fazer faculdade é algo que acrescenta em diversos âmbitos, inclusive na vida do lar. Eu tive a oportunidade de fazer faculdade, o que sem dúvida me ajudou em muitos aspectos (conhecer o marido,por exemplo), e o principal deles é ensinar muitas coisas para os meus filhos e para as pessoas ao meu redor, em especial as mães que educam em casa.  Eu entendo perfeitamente uma mulher que se case antes disto acontecer na sua vida, ou decida fazê-lo quando acha que tem oportunidade na vida de família, ou então que simplesmente não tenha interesse nisso, assim como é natural que os planos sejam abandonados no meio do caminho, quando acontece o matrimônio e os filhos vêm. Todas estas possibilidades são boas, de acordo com a vida pessoal que cada uma de nós pode e irá levar. Não nos esqueçamos, também, que nas sociedades antigas, longe de ser uma ociosa, a mulher encontrava espaço para se “formar” em muitas coisas: algo que atualmente só poderíamos suprir com estudos e cursos – alguém comentou, com razão: em certos meios sociais, a mulher antes era tão bem formada em artes e literatura, que nossos atuais diplomas de faculdade não chegam nem perto. Ademais, é notório que se em tempos de crise, a mulher “de antigamente” seria capaz de ajudar seu marido no sustento do lar, com sua própria iniciativa ou sua força de trabalho, atualmente, se não fornecemos estudo e profissão, a mulher moderna não poderá fazer nada senão lamentar.

Tenho certeza de que muitos de nós admiram o modo como nos parece que as sociedades antigas se organizavam, com cada um cumprindo seu papel de forma diversa, mas a matemática não é tão simples quanto supõe nossa deficiente compreensão: certamente há maneiras muito mais razoáveis de demonstrar reverência a um passado simbólico, que não repetindo um padrão de comportamento, na melhor das hipóteses, insincero.

Como eu afirmei nas partes anteriores, há muitas razões para que a mãe de família permaneça no lar, quando se têm essa possibilidade, e tão nobres são estas razões, que devemos lutar por esta oportunidade quando as coisas não são tão favoráveis. A permanência da mulher no lar já foi uma questão crucial de sobrevivência; se hoje, dadas as facilidades do mundo industrial, isto já não é assim, criou-se uma outra demanda, e é precisamente sobre esta demanda que minhas reflexões se direcionam. Uma das razões pelas quais não se consegue convencer muitas mulheres da importância de sua presença no lar e na vida integral de seus filhos pequenos é que ela não entende no que consiste sua indispensabilidade, uma vez que quase tudo pode funcionar sem ela; nesse sentido, o discurso anacrônico, que simplesmente deseja obrigar a mulher a repetir um modelo de sociedade antiga, quaisquer que sejam as condições, só as afasta dos reais motivos que temos hoje.

Eu acredito que neste século iniciou-se um importante debate sobre toda essa questão, porque mulheres em situações emblemáticas – chefes de multinacionais, popstars, líderes de governo –  estão retornando ao lar, abandonando carreiras, diminuindo o ritmo e mandando uma mensagem para o mundo. Esta mensagem não pode ser reduzida a “Nunca deveríamos ter escutado as feministas e abandonado nossos lares!“, porque não foram as feministas nem as únicas e nem mesmo as principais responsáveis por toda esta grande transformação que nossa sociedade passou nestes dois séculos; não pode ser reduzida a este slogan porque correríamos o risco da decepção ao ver que esta atitude não significa refazer tudo como um dia foi feito – mas, antes de tudo, é um alerta de que existe uma enorme demanda da presença da mãe no lar, uma demanda que é completamente deste século, é nossa e é eterna, é a demanda de Deus, que , com toda certeza, nos fez co-ajudadoras do homem, em todas as circunstâncias. Quando a mulher olha para a sociedade contemporânea, ela pode chegar à conclusão de que não é mais tão indispensável assim – mas é somente quando ela olha para Deus é que consegue tomar dimensão do que ela pode realizar dentro dos planos Dele, com as condições que temos agora.

Estas “facilidades” do mundo moderno nos permitem muitas coisas. Acho que estamos,enquanto mulheres e mães, aproveitando mal o fato de que indiscutivelmente ganhamos tempo para realizar muitos projetos,especialmente com nossos filhos. E até mesmo a nível profissional, há muito a ser feito: coisas e vias completamente novas – a médio e longo prazo. Querem exemplos? É difícil imaginar como uma mãe de família poderia conciliar o emprego diário na indústria com suas obrigações domésticas, mas não há obstáculo que a impeça de ser uma boa decoradora, o tipo de profissional liberal que faz seus próprios horários, trabalha por períodos e está com a família na imensa maioria do tempo. Sim, porque também não se trata de privar a mãe de qualquer individualidade ou tempo apenas dedicado à si mesma… isso é importante, é algo que foi imprescindível em todas as épocas. Há coisas essencialmente femininas, que sempre foram de nossa alçada e organização, e está muito equivocado o pensamento daqueles que acham que apenas os homens trabalharam, quase como se a nós só restasse consumir os produtos! Algumas coisas permanecem essencialmente masculinas, no que tocam as profissões, por exemplo, mas mesmo esta parte, ainda que de predominância dos homens, encontra um espaço para nós imprimirmos nossa rica contribuição. Apenas temos de estar atentas à nossa vocação e ao que nos é próprio, e então pararmos de perseguir a “carreira”, nos mesmos parâmetros que os homens…

São coisas que costumam ocupar meus pensamentos, e espero dividir com vocês muitos outros pontos em textos futuros.

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A vida no lar e o trabalho fora dele – Primeira parte.

mame e filhaLupita e mamãe, grudadas como de costume!

Há duas semanas atrás, Lupita e eu nos separamos realmente pela primeira vez e por algumas horas. Nunca havia ocorrido, e não foi assim por obstinação minha, mas por falta de ocasião. Algumas vezes ia à farmácia ou o pai a levava ao mercado, mas eram afazeres rápidos. Desta vez, fui fazer uma série de exames, saí muito cedo e só voltei perto do almoço. E ela passou muito bem sem mim!

Recebo sempre mensagens, aqui no blog e principalmente por e-mail, de mães que desejam saber mais sobre a minha opinião a respeito das obrigações da maternidade, e mais especificamente no que toca o trabalho fora do lar. Elas se sentem culpadas, em parte; gostariam de estar fazendo diferente ou amam não ter de fazê-lo… são muitas as situações. O que eu posso dizer são apenas as minhas reflexões. Eu não inventei a culpa, e quase todas as mães que trabalham fora passam por isso, sejam católicas ou não. Portanto, velar pelo próprio filho não é apenas um princípio explicitamente católico – como se precisasse ser lido num livro – ele faz parte da nossa disposição natural. É normal, portanto, que a mãe que se ausenta (seja por que motivo for) experimente um sentimento de angústia, pois por mais que ela deposite confiança na babá, creche ou até mesmo na sua própria mãe , não é ela que está lá. E algo no seu coração continua a dizer que ela deveria.

Deus foi generoso conosco. Vejamos os comoventes exemplos da natureza: como fica triste a gata que não encontra seus filhotes onde os deixou; como os patos e os pintinhos seguem sua mãe aonde quer que esta vá; todavia as pobres tem de se virar elas mesmas para suprir as necessidades dos filhos. Nós não precisamos carregar o filho “ao trabalho” como as galinhas, em busca do alimento, porque nosso marido é quem tem a obrigação de nos sustentar e a suas crianças. Nossas relações são diferentes, é claro. Adão não reclamou ajuda para fazer o que ele tinha de fazer no paraíso, ele sentiu falta de alguém que lhe completasse, que se unisse à sua alma, que lhe fosse completamente diferente. Perceba que estou falando apenas de obrigações, de coisas naturais.

Então, se me perguntam, é evidente que eu acredito que a mãe deve cuidar dos seus filhos ela mesma. Não tem absolutamente nenhuma relação com uma visão “machista” do que a mulher é ou não capaz de realizar em termos profissionais e pessoais. Ela pode fazer muitas coisas, é verdade. Mas ela também tem muitas limitações. Uma delas é a família. Os filhos limitam seu tempo e espaço. Você não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo; se está no escritório e seu filho na creche, naquelas horas – embora você continue sendo a mãe e a responsável, e tenha, de todo coração, procurado um bom ambiente para uma criança – não é você que está cuidando do seu filho. Isso não é nenhum “terrorismo” de minha parte, é apenas tal como é. Uma criança mais velha necessita e começa, de forma natural, a ter suas próprias atividades e separa-se, consequentemente, cada vez mais de sua mãe, mas os bebês e as crianças menores não necessitam de uma jornada longa ou média fora de casa, “se socializando”, “aprendendo ludicamente” ou o que quer que se chame hoje em dia estas coisas.

Toda mãe (eu, com certeza) gostaria de ter ajuda para cumprir suas tarefas. Essa solidão que nós experimentamos nos dias de hoje não é natural, eu reconheço. Quando todas as mães ficavam em casa, havia companhia de sobra: tias, madrinhas, vida ativa na igreja, no bairro… hoje eu abro a porta de minha casa e não vejo ninguém. Não há o que se fazer nas paróquias no período da tarde, pois não existem mais aquelas mulheres que podiam se dedicar à caridade e aos outros.A despeito de tudo isso, as mulheres casadas sempre levaram vida de sacrifício. Nós reclamamos das tarefas, mas imagine a época em que o fogão não era à gás, não havia geladeira, entre tantas facilidades! A mãe quase sempre tinha de suportar a perda de um filho pequeno… hoje nós temos essa sensação de que se pode eliminar quase tudo aquilo que nos é penoso. Se é pesado demais para você, não lhe pertence! Nada mais errado… eu lhe digo que, ao contrário, quanto mais dura for a realidade da vida no lar, mais você precisa dela – precisa se dedicar e melhorar.

Conheço mulheres que me dizem: “Luciana, detesto ficar em casa, não aguento! Meus filhos me sufocam… vivo infeliz! Não seria melhor estar fora e passar menos tempo, porém um tempo que fosse mais agradável?”  Esta mãe, então, segue este raciocínio e provê tudo o que está ao seu alcance para atenuar sua ausência. Tudo parece melhorar, porque seus filhos crescem sem traumas, gostam da companhia da mãe nas poucas horas do dia, tem uma vida mais confortável e são espiritualmente amorosos para com Deus. É possível, portanto, cuidar dos filhos por este outro caminho. Não nego isso.  Não sou radical ao ponto de afirmar – e ser contrariada pelas evidências – de que a mãe que se ausenta cria necessariamente mal seus filhos. Penso comigo que, se ela cuida bem em pouco tempo, faria melhor em todo o tempo; mas, novamente, ela me diria que estando infeliz no lar, não poderia sequer oferecer uma hora de alegria e prazer para a família. Não parece óbvio que se faz uma escolha melhor? Só que a questão não pára aqui.

Estamos falando, até então, dos outros membros da família – em especial os filhos. Isto porque a mulher se doa tanto, que toda sua vida parece se resumir em termos do que ela precisar proporcionar á eles e a seu marido. Se ela consegue, em tese, resolver seu dilema vocacional seguindo os princípios do parágrafo anterior, então ela adquire certa convicção de que cumpre suas obrigações; seus filhos serão bem cuidados – e não se trata disso? Não é este o ponto crucial quando você se pergunta se deve permanecer em casa, quando se torna mãe? Mas, ao invés de pensar apenas neles, pense um pouco em si mesma. Contraditório propor isso, não? Nos parece que as mães que (assim como minha “amiga”) detestam ficar em casa pensam apenas em si mesmas… mas elas são as que menos pensam. Sim, pense na sua vocação de mulher, mãe e rainha do lar, para além das coisas puramente materiais. Serei mais clara:

Imaginemos um homem que diz: “Detesto trabalhar, seja trabalho braçal ou intelectual. Não gosto da obrigação de trabalhar todos os dias ainda que por algumas horas. No entanto, tenho que sustentar minha família, e quero que eles sejam assistidos em tudo!” Este homem segue seu princípio e passa a viver de renda, sem trabalho. Adquire imóveis que lhe garantem bom lucro, até melhor do que muitas profissões que ele poderia desempenhar. Longe de passar necessidade, a família leva vida abastada e ele pode passar mais tempo com os filhos e a mulher. Tudo parece bem, certo? Mas o trabalho é mesmo só para garantir o conforto próprio e da família? Não tem aquele ditado que diz que “o trabalho dignifica o homem?”. Cá entre nós, o que pensar de um homem que diz que detesta trabalhar? Não o próprio trabalho – porque aí ele poderia simplesmente se dedicar à outra coisa; não o regime de assalariado, porque ninguém discorda que é bem melhor ter projetos profissionais que possibilitem ao pai de família  ganhar mais e viver melhor; mas que detesta trabalhar e prefere dar um jeito para nunca ter de fazê-lo?

Claro, a mãe vai dizer que não detesta a maternidade o tempo inteiro. Só na maior parte do dia. Ao contrário do pai, que tem jornada de trabalho, a mãe é mãe 24 horas, sem interrupção. Portanto, a comparação entre as duas mentalidades é justa. Porque, acima de tudo, está Deus. E Deus, quando expulsou Adão e Eva do paraíso, castigou o homem dizendo-lhe que ele deveria, a partir de então, conseguir o sustento do próprio suor. Mas, observemos sem equívoco, isto não é uma condenação pelo pecado. A condenação é o inferno, quando não há arrependimento. Adão e Eva se arrependeram. O castigo então é a reprimenda do Pai que procura dar os meios do filho se consertar; é  o Senhor dizendo: “É deste modo que você vai ter conserto, meu filho”, ou seja, o homem deve conseguir as coisas pelo esforço, pelo trabalho. Se é ruim ou bom, se traz também prazer ao homem trabalhar, tudo bem. Mas o que antes ele teria gratuitamente – sua provisão sem ter de fazer o que seja – não existe mais. Por isso, um homem que não trabalhe e não se esforce de maneira alguma para sustentar sua família não está verdadeiramente se consertando, no sentido mais espiritual do termo.

Em contrapartida, Deus disse à Eva que ela estaria sujeita ao homem – submissa e dependente – e que lhe aumentaria as dores do parto. E não pensemos nesta dor apenas literalmente  – e é verdade que trazer os filhos de maneira natural ao mundo dói bastante – mas como símbolo do que é se tornar mãe. A emenda da mulher pressupõe que ela deve esperar do homem uma direção (“ele te dominará“), que ele é quem a conduzirá neste mundo – daí não haver jamais igualdade no que diz respeito ao papel  do homem e da mulher na sociedade; pressupõe ainda os sofrimentos próprios da maternidade… eis porque ficar em casa e  cuidar dos filhos tão dependentes dói tanto. É para doer. É assim que teremos conserto. Não pense na aridez e nas suas dificuldades em cumprir este papel como falta de “vocação”, como se houvessem “mulheres e mulheres” – aquelas que se realizam e as que não se realizam ficando em casa. Definitivamente, o que é se realizar? `Porque se for achar mais tranquilo e mais confortável abraçar esta vocação, pouquíssimas mulheres se dirão realizadas. Sempre parecerá melhor se ausentar um pouco, porque se ausentar é para a mulher o que é para um homem ganhar o dobro do salário fazendo o que só vale um, é como bater o cartão e ter de ficar apenas duas horas: é claro que traz uma sensação de alívio maravilhosa, porque retira o enorme peso que nos foi imposto por sermos mulheres e mães. Mas, imposto por quem? Quem ditou que a mulher deve cuidar dos seus filhos, do marido, etc., etc.? Foram os séculos anteriores? Foi a Igreja, em certos períodos históricos? Ora, olhemos para os patinhos na lagoa, que seguem a mãe de maneira obstinada. Foi Deus. Eis porque fazer escolhas não pode – jamais poderá – se tratar do que é melhor para mim ou para você. Tem de ser melhor para Deus.

Mas o plano espiritual é imenso e não tem fronteiras. Deve haver mais do que isso, pois não se trata apenas de ficar em casa e nem esta é uma competição para ver quem sofre mais fazendo tudo por si mesma. Cada pessoa é única. Assim como há o homem que levanta as 5 da manhã para pegar no machado levando vida áspera, e o homem que leciona e parece confortável no meio dos livros, há as mulheres que criam os filhos tendo também de sustentá-los, e as que ficam em casa, contando com ajuda para tudo, com empregada , e por aí vai. O que não se elimina em nenhuma condição é o esforço do homem e da mulher naquilo que lhe diz respeito. Mas isto deverá ser discutido em outra ocasião.

{Continua…}

Fazendo brinquedos para Lupita

Bebês adoram novidades e querem explorar coisas novas várias vezes por dia! Realmente, não dá para comprar todos os brinquedos interessantes que vemos pela frente, especialmente porque estes costumam ser muito caros. Eu vivia no dilema de achar o que agradasse à Lupita, e acabava me frustrando porque ela  gostava mais da caixa do que do brinquedo em si! :)  Todas as coisas da casa lhe interessam muito, e ela parece sempre enfadada de seus mordedores. Por essa razão, resolvi fazer seus brinquedos. É bem mais barato do que pagar em média 50 reais por uma distração de bebê. Nos blogs de mães norte-americanas, há diversas ideias de como fazer você mesma, e eu coloquei algumas em prática!

Eu chamei este brinquedo de aquário (ou aquaplay, para lembrar algo da minha infância, você escolhe).

Você vai precisar de: saco de guardar alimentos no freezer; fita adesiva silver tape; gel; brinquedinhos para pôr no saco. Eu tentei achar peixinhos, mas não consegui. Acabei optando por estas engrenagens, que lembram o mastro de um navio. No fim, achei bem legal. Você encontra boas opções em lojas de artigos para festas de aniversário.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAFazer é muito simples: coloque um pouco de gel no saco e vá mesclando com os brinquedos. Faça isto até espalhar bem o conteúdo. A fita silver tape é para colocar ao redor do saco, fechando-o bem e protegendo as bordas. Resultado final:

OLYMPUS DIGITAL CAMERAÉ o que eles chamam de brinquedo sensorial! Produz uma sensação interessante quando mexemos no saco, pois o gel desliza! 

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Há tantas possibilidades de usar esses sacos de freezer para criar sacolas sensoriais! Você pode colocar muitas coisas dentro, desde sementes, papel picotado, purpurina… ainda tenho 7 sacos, e pretendo criar outros brinquedos com ele.

Garrafinhas plásticas também produzem ótimos brinquedos para bebês. Lupita amou essa garrafinha e foi seu brinquedo preferido por dias (é claro que eles enjoam de tudo, e muito mais rápido do que gostaríamos):

OLYMPUS DIGITAL CAMERAPara fazer é fácil: escolha o “recheio”: no meu caso, miçangas coloridas e água. Depois eu resolvi colocar glitter antes de fechar (eu usei um pouco de cola quente no fim da parte de enroscar a tampa para me certificar de que não abriria).

OLYMPUS DIGITAL CAMERAÉ claro que, não sendo brinquedos oficiais, você deve estar por perto. Aqui, não aconteceu nada suspeito, mas sempre é bom vigiar. De qualquer forma, eu nunca a deixo sozinha, seja com que brinquedo for.

Usando a criatividade, qualquer coisa pode se transformar num brinquedo legal. Eu a deixei explorar meus retalhos de tecido, papel celofane, vasilhas plásticas… pratos de aniversário! Agora, sempre que penso em brinquedos para Lupita, minha imaginação se volta para armarinho, lojas de artesanato, utensílios para o lar, entre outras artes! Na medida do possível, venho postar mais do que andamos “aprontando”! Espero que seja útil à muitas mamães! Salve Maria!

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Como trabalhar contos de fadas: um planejamento para as férias

Eu amo contos de fadas. Eles permitem uma abordagem riquíssima de elementos culturais como poucos gêneros literários; são tradicionais e frequentemente têm valores morais bons e cristãos; as crianças amam e são indispensáveis para a formação das mesmas! Estou ajudando uma amiga que gostaria de trabalhar com um tema específico nas férias dos seus filhos, até que o ano letivo comece mais ou menos em março. Escolhemos juntas o tema e pensamos no que poderia ser trabalhado nestes meses, de modo a não apenas ler muitas histórias, mas desenvolver a criatividade e inteligência dos pequenos.

Dito isto, achei nas minhas pesquisas um interessante programa da Biblioteca Nacional da Escócia, que propõe uma série de atividades que promete resultados de excelência no desenvolvimento dos alunos. E, convenhamos, a Escócia entende de contos de fadas! Como está em inglês e eu traduzi o programa para esta minha amiga, postarei aqui no blog nos próximos dias, para quem se interessar e desejar fazer o mesmo com seus filhos. É de grande valia ocupar o tempo de nossos filhos nas férias – onde tantos correm o risco de ficar na ociosidade. Está, portanto, perfeitamente em tempo de você fazer seu próprio planejamento para acompanhar este programa. Eu também fiz alguns acréscimos ao programa  – não por pretensão, mas tendo em vista ajudar a família em específico, e nada impede que você igualmente se beneficie das minhas anotações. Elas estarão indicadas na tradução do texto original.

Comentários a respeito deste planejamento:

Um dos objetivos é ler os contos de fadas originais. Nada impede que você leia também as adaptações, pois há também coisas notáveis em muitas delas. Mas ler as histórias originais fazem toda a diferença, especialmente porque elas são cheias de nuances específicas deste gênero literário, de uma época, e de uma moral. As adaptações costumam atenuar ou mesmo apagar estas nuances. Portanto, selecionamos Perrault, Andersen e os Irmãos Grimm. Ao escolher e comprar os livros a serem trabalhados, preste muita atenção à autoria. “Contos de Andersen” nem sempre são exatamente de Andersen, mas re-contados por outro autor, frequentemente o tradutor. Vale a pena checar as credenciais da edição que você está interessado. Eu vou indicar as edições que estão de acordo com estes critérios e que o meu conhecimento limitado permitir.

As ilustrações são parte importante do programa. Há edições modernas dos contos de fadas que trazem ilustrações grotescas ou pobres de conteúdo estético. Na minha opinião, vale a pena investir em edições que, além de uma boa tradução, tenham igualmente boas gravuras. O programa prevê uma pesquisa à parte sobre os ilustradores (coisa que a internet irá nos facilitar bastante, pois poderemos mostrar aos nossos filhos em formato de slides).

Crianças de todas as idades se adaptam ao programa, sejam ou não alfabetizadas. As principais atividades são: ler os contos de fadas juntos e desenvolver 7 pontos fundamentais. Dentro destes 7 pontos há uma série de atividades propostas. A maioria não exige material além do muito básico; consiste, sobretudo, nos pais estimularem a imaginação da criança através  da investigação intelectual.

Sempre que possível, eu trarei informações adicionais para aplicação do programa. Nossas famílias estão planejando, por exemplo, uma festa temática para o fim do período de estudo. Você pode selecionar filmes, levar as crianças para ver peças teatrais, baixar músicas, fazer artesanato: o tema é realmente muito amplo, e o mercado permite encontrar muitos produtos relacionados a contos de fadas. Cabe aos pais enriquecer o período em que se dedicarão à este estudo, lembrando sempre que não é preciso sobrecarregar as atividades, mas sim incluí-las de forma diluída e natural no dia-a-dia da família. 

Espero que aproveitem e gostem! Fiquem com Deus e a Santíssima Virgem! Aguardem: o programa será postado em partes.

* As ilustrações deste post são de Millicent Sowerby, para o livro Cinderella, de 1915.

Guadalupe e a Guerra do Sono

Bons tempos…

Falávamos da minha solidão. Esquecemos de falar sobre o alívio! Sim, pois a minha solidão com Lupita não durará para sempre. Convém falar disto, para que as futuras mães e esposas não imaginem que, quando casarem, terão de enfrentar anos do mesmo problema. Não é verdade. Se Deus quiser, outros filhos virão, e mesmo que fosse uma provação e que isto não acontecesse, o neném cresceria e poderia conversar com a mãe. É o primeiro momento que é realmente difícil. As coisas melhoram – ou melhor, você melhora.

Quando Guadalupe nasceu, por exemplo, eu desejava que ela completasse logo três meses. Era muito novo para mim: eu tinha medo. Medo dela ser tão pequena, de qualquer gripe derrubá-la, de tudo o que me diziam. As cólicas eram parte do problema, pois eu dormia muito mal. Você com certeza já passou uma noite em claro, mas pôde dormir até tarde no dia seguinte. Quando o bebê chega, são muitas noites em claro, mas este “dia posterior” não chega nunca. Melhorou consideravelmente já no segundo mês – só que 30 dias seguidos dormindo, no máximo, 2 horas seguidas, foi sacrificado. Eu imagino que nem todos os bebês sejam assim, mas Guadalupe acordava pontualmente de 2 em 2 horas, e como eu sempre demorei um pouco para pegar no sono, não poucas vezes permanecia acordada até que ela precisava mamar novamente. Com 1 mês e meio, se eu não me engano, ela dormiu 5 horas seguidas pela primeira vez. Isso durou pouco tempo, e lá pelo quarto mês, eu enfrentei a “guerra do sono” aqui em casa. E não posso dizer que terminou!

Tudo o que você imaginar relacionado a “problemas de sono” fizeram parte da minha rotina. Primeiro, Guadalupe ficou bastante resistente para começar a dormir à noite. Chorava, se contorcia. Depois, as sonecas passaram a durar 40 minutos (como é até hoje). Posteriormente, ela acordava para brincar de madrugada, e só conseguia dormir 2 horas depois. Atualmente, a primeira fase do sono dela – entre 20:30 e 22:30 continua delicada, especialmente se não estou do lado. Acorda chorando exigindo a minha presença, e o resultado final desta soma é um tempo ainda mais reduzido para fazer as tarefas de casa.

Comprei e li muitos livros e artigos, como Soluções para noites sem choro, que traz informações muito utéis, mas o método não resolve exatamente o problema, embora torne o caminho mais suave. Também conheci o método de Gary Ezzo, Nana Nenê : deixá-la chorando é uma opção dramática, já que Lupita chora até colocar tudo para fora. É controverso. Eu particularmente não gosto. Acontece apenas quando eu tento de tudo – colo, seio, música – e ela, incrivelmente, continua berrando. Nestes dias eu deito-a na minha cama e permaneço do seu lado, ouvindo-a chorar muito, afagando suas costas, até que ela se cansa. Sou obrigada a admitir que, apesar da catarse, ela dorme bem o resto da  noite. A Encantadora de Bebês tem a melhor e mais eficaz proposta, que teria transformado meus dias, não fosse o fato de que eu viajei para Salvador justamente quando ele estava funcionando. Consiste em ensinar o bebê a dormir sozinho, aliado à alimentação com horário. Pausa: Lupita mama em livre demanda. Fora isso, ela estava indo bem no aprendizado, mas é preciso muita paciência, já que é muito difícil chegar no ponto de colocar o bebê (viciado em dormir no colo e no peito) acordado no berço e fazê-lo adormecer. É preciso estar preparada para pegá-lo e acalmá-lo mais de 100 vezes (literalmente). E meus dias estão muito corridos e cansativos para que eu recomece isso.

Contando de forma resumida não parece tão ruim, mas foi. Quando eu conseguia resolver algum dos problemas – por exemplo, fazê-la dormir de forma tranquila, escutando uma cantiga medieval – ela passava a ter o sono picotado. Isso me causava tristeza! E foram quatro meses de muitas queixas (confesso que eu não sabia falar de outra coisa), até que eu finalmente aceitei o fato de que ela dorme mal. Eu não contei nem 10% de tudo o que eu tentei para melhorar a situação – nos dias mais desesperados passei a dormir com ela no colo durante as sonecas, fiz cama compartilhada, banho morno, histórias, enfim, uma rotina militar – mas agora eu não aceito nem mesmo sugestões. Se eu criar coragem, tento mais uma vez o método da Encantadora, mas por enquanto eu estou achando melhor manter a minha resolução, já que a situação aqui em casa costuma melhorar por conta própria, sem maiores explicações.

O que eu tirei dessa situação foi o verdadeiro significado da palavra paciência. Eu tentei de tudo porque queria fazer o melhor, e não simplesmente aceitar uma situação que podia ser revertida. Por algum motivo nada funcionou. Acho que quando este momento chega o melhor é aceitarmos a provação que Deus coloca nas nossas vidas –  e eu estava sempre dizendo ao meu marido que tudo o que eu estava passando era para eu não achar que tudo havia ficado fácil com Lupita. Sei que muitas mães passam por problemas semelhantes: e, infelizmente, para algumas, nenhum método se aplica. Eu cheguei a me culpar diversas vezes; achava que estava seguindo as instruções parcialmente, ou que ela só poderia estar com algum desconforto (não era)… mas aceitei e isso me aliviou imensamente. Primeiro, porque eu fiz a minha parte (tentei de tudo), segundo, porque aceitei como um peso que Deus enviou para os meus dias. Nem tudo pode mesmo ser resolvido. Nem tudo. E deixa eu terminar por aqui, que ela já está choramingando no berço, Rs!