A sabedoria que desprezamos: ou, o que as canções de ninar podem nos ensinar sobre educação

Por Vladimir Lachance

Salve Maria!

547805_256397161179242_2080404418_nVocê já cantou o “boi da cara preta” para seu filho hoje? E você já se perguntou alguma vez quando esta singela canção foi criada? Quem é o seu autor? Creio que, como eu, você nunca nem sequer tinha pensado no assunto.

Pois é… eu me peguei pensando nestas coisas essa semana. Mas, com a agenda cheia de trabalhos, acabei deixando essas dúvidas no fundo da mente e voltei para minha rotina. Acontece que toda vez que eu pegava o Dimitri no colo e começava a cantar a monótona canção de ninar, as dúvidas voltavam e se misturavam à letra…

Então, assim que coloquei o pequeno no berço, me pus a pensar no assunto novamente. E percebi que eu tinha uma outra dúvida, que me parecia anterior a todas as outras e mais importante: porque cantamos essa canção, que nem sabemos quando foi criada e nem por quem? Porque minha mãe, minha avó, talvez minha bisavó, etc., cantavam o “boi da cara preta”?

Passei a refletir sobre isso… E pensei em todas as outras canções de ninar. Como todas são monótonas, geralmente entre tons médios e graves, sem muitos altos e baixos e quase sem variação de volume. Pensei, ao mesmo tempo, nas tentativas modernas de criar novas canções de ninar: aqueles cds chatinhos com versões de mpb ou rock para bebês, com xilofones e vozes meio Fernanda Takai; uma moda que só pegou entre gente ávida de novidade, que acha que inovar é dar o melhor para os seus filhos. Em geral, as pessoas ainda continuam ninando seus filhos com as velhas e desanimadas canções de suas avós.

E o que isso quer dizer? Deve haver alguma explicação – para além da preguiça e do costume – para nos mantermos tão fiéis a essas senhoras canções. A resposta, um tanto óbvia mas reveladora: elas foram testadas durante séculos e funcionam.

Podemos dizer o mesmo dos contos de fadas e demais histórias infantis, das poesias para crianças e das brincadeiras… todas sem autores, sem data, e altamente eficazes!

E, ao notar isso, me dei conta de que, mais do que coisas antigas, as histórias, contos e músicas infantis são, sobretudo, tradicionais. Pio XII definiu a tradição como

“(…) um dom que passa de geração em geração; é a tocha que, a cada revezamento, um corredor põe na mão do outro, e confia-lha sem que a corrida pare ou diminua de velocidade. Tradição e progresso reciprocamente completam-se com tanta harmonia que, assim como a tradição sem o progresso se contradiria a si mesma, assim também o progresso sem a tradição seria um empreendimento temerário, um salto no escuro.”

Então, quando você cantou “boi, boi, boi, boi da cara preta…”, você pegou a tocha das mãos da geração anterior e acreditou que estava fazendo a coisa certa.

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Agora, faça a mesma reflexão sobre a educação dos seus filhos. Porque, quando se trata de educação, corremos atrás de novidades, de slogans que prometem milagre, e dos métodos mais revolucionários? Porque olhamos para o nosso passado educacional e o ignoramos?

No caso da educação, obviamente, o problema é mais profundo e difícil de enxergar. Eu, por exemplo, não entendo “passado educacional” como o tempo dos nossos pais ou avós, pois eles conheceram uma realidade escolar já moldada de uma maneira muito parecida com a nossa. Quando penso no passado aqui, estou pensando em coisas como educação clássica, trivium, jesuítas… uma série de ideias educacionais que nos são um tanto desconhecidas.

São essas ideias que se relacionam com a tradição, entendida como uma sequência ininterrupta de tentativas e erros, que foi se aperfeiçoando e formando modelos educacionais de excelência.

Muitos de nós desconhece a existência de algo como o trivium, que nada mais é do que uma forma de educar bimilenar, que passou por uma série de melhorias ao longo dos séculos, a partir da experiência de ensino de diversos homens e instituições. O trivium começou a ser formado entre os gregos e romanos, passou pelas mãos de Santo Agostinho e sofreu algumas reformulações… depois trilhou um longo caminho até chegar ao seu formato “padrão”, na Idade Média. Mas, não parou por aí: superou o período medieval e entrou no mundo moderno, recebendo um novo tratamento com o trabalho dos jesuítas. Ou seja, o trivium é aquilo que podemos chamar de modelo tradicional de educação, que foi transmitido de geração em geração, e, cada uma delas melhorou e expandiu esse modelo, até atingir a excelência.

Muitos desconhecem… outros conhecem, mas tomam o trivium como algo histórico, que foi aplicado lá atrás e que já não cabe a nós. Mas, a verdade é que existem muitas famílias – inclusive aqui no Brasil -, que educam seus filhos através do trivium e obtêm resultados maravilhosos.

Então, convido você a refletir sobre a educação dos seus filhos. Pense nisso! Se pergunte porque deixamos tanta coisa pra trás e porque não nos esforçamos para resgatar tudo isso: um legado gigantesco, que passou pelas mãos de grandes educadores e santos católicos… e, que, infelizmente, está como que no fundo do mar, distante dos olhos da maioria; acessível somente àqueles que se arriscam a mergulhar tão fundo para vislumbrar nem que seja o brilho deste tesouro.

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